por | 25 Mai, 2020 | Sociedade

“São preferíveis cinco minutos presencialmente do que meia hora ao telefone”, Bruno Fernandes

Psicólogos: o desafio de prestar ajuda à distância

A pandemia adensou os medos e gerou insegurança. O isolamento social privou as pessoas do convívio e das rotinas, o que tem repercussões na sua saúde física e mental. Nesta edição, fique a conhecer a visão do psicólogo Bruno Morais Fernandes, coordenador da equipa de psicologia da Câmara Municipal de Lousada, sobre as consequências da pandemia.

Como se consegue gerir este medo e esta insegurança que todos vamos sentindo?

Esta insegurança tem-se traduzido numa forma nova de lidar com o que está a acontecer. O medo não é um sentimento mau, o medo só nos coloca em híper-vigilância, para ajudar mais rapidamente para uma resposta a uma ameaça. Só que o medo deve ser pontual e não de uma forma contínua. Nós ainda não conseguimos perceber quando é que tudo isto vai acalmar, o que seria tranquilizador para as pessoas. O medo tem este duplo sentido, de nos proteger, mas ao mesmo tempo coloca-nos desconfortáveis. É um desconforto grande e de elevados níveis de ansiedade face àquilo que não se percebe. Iremos ver no futuro. Os meses que isto pode durar podem, aí sim, trazer mais consequências. Com o prolongar do tempo, poderá vir a insegurança que, a longo prazo, poderá ter consequências.

Relativamente à sua experiência da linha Covid19 da Câmara, que situações o tocaram mais?

A Câmara Municipal de Lousada disponibilizou uma linha de apoio psicológico para infetados e familiares. Eu próprio ainda me estou a adaptar e ainda não me sinto confortável com este problema. À distância por videoconferência ou por telefone, muitas vezes, não conseguimos perceber o verdadeiro estado das pessoas. A expressão facial para os psicólogos é muito importante.

Mas o isolamento em que estas pessoas têm de estar só por si já é perturbador. O ser humano é um ser social, que tem de interagir, de tocar muitas vezes, que tem de abraçar, experimentar… E estas pessoas têm de ficar confinadas em quatro paredes e isso causa-lhes uma perturbação, alterando as dinâmicas do tempo de normalidade, agora impossíveis. E, isso cria níveis de ansiedade. Muitas delas até sentem culpa, pois poderão ter contribuído para a infeção dos seus familiares. Mesmo de uma forma inconsciente, há coisas que não controlam: o facto de estarem fechadas não lhes permite abstraírem-se do que está a acontecer. São 24 sob 24 horas com estes sentimentos adversos.

Nós, para lidarmos com isto, procuramos fazer um esquema mais racional em detrimento do emocional. O emocional está sempre muito presente nas pessoas e temos de trazê-las para a razão, para a realidade. Nós, enquanto psicólogos, temos muitas dificuldades, pois a nossa ferramenta de trabalho é o contacto com os outros, é perceber a evolução dos outros, colocarmo-nos na sua posição. São preferíveis cinco minutos presencialmente do que meia hora ao telefone.

As pessoas começam a ter mais necessidade de procurar o psicólogo?
Sim, com as pessoas doentes, falamos duas ou três vezes por semana. Pelo facto de estarem confinadas, são importantes estes momentos de contacto. São momentos de catarse que estas pessoas têm para poderem desabafar, para poderem falar, para chorar, para poderem dizer aquilo que não podem dizer a mais ninguém e muitas vezes não têm mesmo mais ninguém para o dizer. Por isso é que estou a fazer sessões duas a três vezes com a maioria das pessoas. Felizmente, a grande maioria já começa a ter testes negativos, mas outras continuam a ter testes positivos. Ainda recentemente aconteceu, que uma pessoa recebeu o segundo teste negativo, e falou-me que a primeira coisa que iria fazer era abraçar os pais. É este sentimento que prevalece, a possibilidade sair depois do teste negativo.

Quantos colegas estão a fazer esse atendimento?

Nesta linha, só estou eu. Tenho colegas que fazem o mesmo que já faziam com os alunos, à distância, continuando o trabalho que já vinha sendo feito. O que tem sido feito é minimizar o impacto que isto tem para as crianças e os jovens. Alguns já eram acompanhados, mas agora esse acompanhamento alargou-se às turmas.

Nós sentimos que os pais estão sobrecarregados com esta situação. Viram, de um momento para o outro, as suas casas transformadas em escolas e os pais tornaram-se professores. Isto causa perturbação na dinâmica familiar e eu falo também por experiência própria. Aqui em casa não é fácil. É um espaço-casa, que tem de ser adaptado ao espaço-escola e as crianças constroem alguma resistência a essa mudança.

E o pós-Covid? Há insegurança quanto ao futuro?

Acredito que sim. Poderá haver aqui alguma insegurança, que se pode transformar em sintomas de ansiedade e eventualmente perturbações de stress pós-traumático decorrentes deste tipo de acontecimentos. E o que é isto de um stress pós-traumático? É eu viver numa situação extrema com os níveis de ansiedade de stress e de insegurança no máximo. Mais à frente, poderei não ter noção do que é ameaçador e do que não é. Ou seja, os estímulos podem ser interpretados de uma forma errada. Vou dar um exemplo: se eu tiver alguém que desenvolveu fobia com um cão, devido a uma má experiência, poderá no futuro, sempre que confrontado com outro cão, elevar os níveis de ansiedade, desenvolver um ataque de pânico, porque vai recordar a experiência anterior e focar a sua atenção naquilo que foi mais horrível na sua experiência: os dentes do cão, a sua agressividade… É a potenciação de estímulos que podem evidenciar ameaças quando na verdade pode não haver ameaça nenhuma. São estímulos errados, e isto pode trazer consequências. Ainda ontem falava com uma mãe e ela estava em pânico, pois o seu filho ia regressar à escola. As dúvidas que ela colocava eram se a escola estava desinfetada, se iria haver material, os cuidados a ter… Ela já estava a sofrer antecipadamente.

Mesmo aquela pessoa que gostava do seu conforto, da sua casinha, poderá ter no futuro alguma relutância em voltar ao sítio onde pode não ter sido tão feliz?

O contrário também pode acontecer. As pessoas isolarem-se com medo do que podem encontrar lá fora e, ao regressarem a casa, sentirem receio devido às memórias que tiveram nesta fase.

Que recomendação é que poderá dar aos pais que têm jovens no 11.º e 12.º anos ou crianças nas creches e no pré-escolar?

Acima de tudo, é importante seguir as indicações da nossa Direção Geral da Saúde. Temos de acreditar que o sistema funciona. Se nós desacreditarmos o sistema, vamos acreditar em quê? Será sempre difícil trabalhar com as pessoas dando-lhes insegurança face àquilo a que estamos a assistir. O conhecimento científico ainda está a ser construído, temos de acreditar que o sistema funciona e, quando as autoridades decidem que a escola pode ter alunos num determinado número e em determinadas circunstâncias, à partida, temos de fazer este raciocínio, de que as pessoas que estão a orientar o sistema estão a fazê-lo de uma forma consciente e correta. As pessoas devem aproximar-se de um registo de normalidade muito próximo das rotinas anteriores. As crianças têm de ter esta noção e olharem para as suas referências, que são os pais. Com o normalizar das rotinas, passam a encarar as coisas com normalidade, pois, se olharem à sua volta e virem o caos, se calhar ficam perturbadas. Se seguirem as indicações, se acreditarem no sistema, continuarem com as rotinas, conversarem sobre o que está a acontecer, dependendo da idade das crianças, com informação adequada à sua idade… Somos bombardeados com informações sensacionalistas do que é a pandemia, é um exagero. Temos, como pais e educadores, de filtrar essa informação para lhes darmos essa tranquilidade.

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