por | 12 Jun, 2020 | Grandes Louzadenses, Sociedade

Miguel Bessa Machado encontrou na Colômbia terreno fértil o empreendedorismo

Miguel Bessa Machado é um lousadense que está na Colômbia há alguns anos, depois de ter viajado pelo mundo. Formado no Porto em Engenharia Civil, conheceu mais de trinta países e realizou negócios com a Europa e a Ásia, até uma viagem ao Brasil lhe mudar o norte. Foi para o país com a ideia de ficar uma semana, mas aí permaneceu um mês. Na segunda vez, foram quatro meses e à terceira foi mesmo de vez, fazendo jus ao ditado popular.

O curioso é que nunca pensou sequer visitar o Brasil. O que é certo é que, depois de, no final de 2007, ter já viajado por todo o Brasil e conhecido todos os estados brasileiros, a 9 de janeiro de 2008, partiu para o Brasil para lá ficar.

Empreendedor, sempre procurou novas oportunidades, que encontrou no Brasil, onde começou do zero e onde tinha apenas dois amigos. Trabalhou em televisão, cinema, desportos eletrónicos, estádios de futebol e reabilitação urbana, sempre na área da consultadoria, apoio às empresas e desenvolvimento de negócios.

A adaptação não foi fácil, por duas razões, a primeira das quais tem a ver com a separação da família. “Viver longe da família é muito, muito duro, mesmo para mim, que já vivia sozinho desde os 19 anos e tinha ido a mais de 30 países”, explica, acrescentando que fazem falta os momentos de partilha, que as experiências virtuais não substituem.

Além disso, aponta as diferenças culturais como obstáculos que têm de ser ultrapassados. A América do Sul é descrita por Miguel como “um mundo à parte”. Explica que, no Brasil, para os portugueses, que diz serem conservadores, criar raízes é mais complicado, pelo menor valor que é dado à família. No mundo dos negócios, há ainda a salientar um aspeto transversal à sociedade brasileira, que é a corrupção: “Quando vamos aos negócios, então a corrupção é a nível político, público e privado…”.

Os colombianos procuram ser corretos

Convidado para ir a Bogotá para apresentar um projeto de reabilitação urbana e infraestruturas desportivas, descobriu na Colômbia um país muito parecido com Portugal em termos dos valores da família, que atenuou a imagem que temos do país, muito ligada ao tráfico de droga. “É um país muito afetado pela guerra com um potencial muito superior ao do Brasil”, caracteriza. Sem negar que há corrupção, narcotráfico e o legado de Pablo Escobar, Miguel Bessa Machado diz que, ao contrário dos brasileiros, os colombianos procuram ser corretos.

A Colômbia é um país, tal como o Brasil, de grande desigualdade social, onde as pessoas dos diferentes estratos sociais não se misturam: “Na América do Sul, há uma espécie de racismo social. Não há misturas… As pessoas sentem-se mal ao ir a um restaurante da classe alta sendo de classe baixa. É o maior choque na América do Sul… O pobre acha que não tem o que falar com o rico”, explica. Apesar de tudo, de todos os países da América do Sul, a Colômbia é “o mais equilibrado, independentemente dos problemas”, afirma.

A Colômbia apresenta desafios empresariais grandes, mas Miguel esclarece que o país não quer investimento sem raízes e acrescenta que quem investe no país tem de compreender isso. Reconhecendo a humildade como uma das suas características, considera que isso o ajudou a ser reconhecido, pois sempre disse que não estava na Colômbia para ensinar nada. No país por “mero acaso”, é atualmente diretor de um grande grupo imobiliário, comparável à SONAE. Administra meio milhão de área rentável e tem 1200 arrendatários. Na cidade onde trabalha durante a semana, o grupo empresarial é o maior empregador.

Já na Colômbia, casou com Andreia, de quem está separado há uma semana, por razões profissionais, regressando a casa ao fim de semana, o que implica 45 minutos de voo.

A Covid 19 afetou duramente a sua área de negócios, não tanto os supermercados, que continuaram a vender, embora menos, em função da entrada controlada de clientes, mas sobretudo as lojas que a empresa tem arrendadas. “No imobiliário, caiu 60%”, afirma.

Governadores e presidentes de câmara têm mais poder na Colômbia
Falando do comércio de rua, esse foi mais afetado no país, o que está a criar dificuldades às pessoas. Apesar da miséria, Miguel reconhece que o Presidente do país, que “política e economicamente não vinha fazendo muito”, com a crise, tomou atitudes importantes, que tiveram o apoio dos governadores e presidentes da câmara, que na Colômbia têm grande poder, sobretudo sobre as forças policiais, tomando pedidas imediatas para o “lockdown”.

Além disso, explica que o país já estava preparado para esta paragem, devido à violência vivida no final do ano passado, com assaltos e tiroteios. As pessoas sabiam que as regras eram para cumprir: “Ninguém saía porque se saísse ia para a cadeia e tu aqui não queres ir para a cadeia”, explica.
Miguel está há dois meses sem ver a família. Na altura em que foi ordenado o encerramento de quase tudo, ainda pensou em seguir de carro até à morada da família, mas temeu não conseguir fazer a viagem a tempo e ficar retido nalguma localidade pelo caminho.

Assim, forçado a permanecer na cidade onde trabalha, tratou de pôr toda a sua equipa em teletrabalho. “O trabalho presencial passou a virtual em duas semanas. Tenho 40 pessoas a trabalhar desde casa e funcionamos perfeitamente. A Colômbia está bem a nível de Internet”, refere.

Relativamente à recuperação da economia, o Governo tem dado ajudas importantes: “Aqui, está-se a fazer mais do que na Europa”, diz, acrescentando que uma medida importante foi isentar de IVA o pequeno comércio durante 180 dias. Assim, os arrendatários das lojas que gere pagarão menos 18 %, o que considera bom. “Inclusivamente, o que faturamos e não foi pago, o governo vai deixar anular as faturas”, acrescenta.

A empresa de Miguel, sendo o terceiro maior grupo imobiliário da Colômbia, foi chamada para, juntamente com o Governo, estudar a forma como deveria ser reaberto o comércio, o que considera positivo. “Não é algo imposto pelo governo e isso tem mitigado o impacto da crise, que é grande”, defende. Pelo que vai acompanhando, em Portugal diz não haver essa associação entre o governo e o mercado.

Os impactos da crise são brutais nas classes mais baixas. Miguel dá o exemplo dos 2,5 milhões de venezuelanos que vivem nas ruas, pedindo nos semáforos, para conseguirem algum dinheiro e que, agora, não têm essa fonte de receita.

Onda de solidariedade

Também na Colômbia a solidariedade tem sido fundamental para apoiar os desfavorecidos. “Houve uma onda social de apoio dos privados”, afirma. Sendo o seu grupo o maior empregador da cidade, juntamente com as outras empresas, também contribuiu para essa ajuda às pessoas dos estratos mais baixos.

Em termos de comportamentos de prevenção, Miguel acha que os latinos afrouxam quando já não sentem tanto o perigo e, nesse aspeto, os colombianos são como os portugueses, pois já se vê gente nas praias, festas, gente na rua…

“Aqui, polícia militar mata mesmo”

Em termos comportamentais, tendo em conta a educação e o desenvolvimento de Portugal, o país deveria ter um comportamento diferente do dos colombianos, nas isso não acontece, segundo Miguel, acrescentando que o período de isolamento e quarentena foi mesmo mais respeitado na Colômbia que em Portugal, em parte devido às medidas rígidas e à ação da polícia e dos militares: “Aqui, polícia militar mata mesmo. Tentaram assaltar uma loja e três soldados mataram dois miúdos. Estavam a fazer mal, levaram um tiro e pronto”, conta. “Eu não sou a favor da ditadura, mas há coisas que funcionam e as regras tem de se cumprir. Se uma pessoa de estrato seis (dos mais altos) não cumprir vai para a cadeia porque não está a cumprir”.

“O presidente colombiano “disse aos bancos que se tivessem lucro ia atrás deles”

Numa altura em que os negócios começam a reabrir, porque a “economia não aguenta mais”, cada setor está a ter medidas específicas. Relativamente aos bancos, “o presidente colombiano “disse que se tivessem lucro ia atrás deles. Não vejo o António Costa ou o Marcelo Rebelo de Sousa a dizer isso em Portugal”, diz.

Miguel vem a Portugal todos os anos, às vezes duas vezes, mas sente falta da família. Quanto a um regresso definitivo a Portugal, “nunca se sabe, tudo pode acontecer”.

Sente saudades da vila de Lousada, que deveria ser cidade, na sua opinião. A Lousada falta-lhe também ser “visionária e tecnológica e apoiar aqueles que são inovadores”, o que não aconteceu consigo, vendo-se obrigado a concretizar os seus projetos fora da sua terra. “Devia apoiar mais o que é seu. Pode ser-se um louco, mas ter uma ideia pode, mudar muita coisa”, diz, acrescentando que Lousada não deve deixar sair os talentos.

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