por | 23 Jun, 2020 | Canto do saber

Sociedade da higienização

Nesta fase da primeira vaga da pandemia do covid, talvez na ânsia de acelerar a propalada “nova ordem mundial”, que segundo os pseudo-gurus, deve emergir depois de um facto histórico tão relevante, assistimos a um frenesim de higienização sem precedentes.

Se bem que o processo venha de trás, ganha um novo fôlego com os últimos acontecimentos, onde os seres humanos se parecem esquecer da sua condição sociopolítica e se refugiam em catalogações, em fundamentos.
A uma higienização anti covid, segue-se a higienização da sensibilidade apurada, pelos ditos de esquerda e a higienização do autoritarismo pelos ditos de direita.

Por um lado, higienizam-se termos, realidades históricas, património material e imaterial acumulado pela humanidade numa efervescência de hipersensibilidade hipocondríaca onde tudo é visto como uma doença. Tudo tem de ser politicamente correto. Por outro lado, a higienização atinge as estruturas dos estados, sendo saudáveis apenas a que asseguram a autoridade de quem governa. Mas não só! Atinge ainda o debate, o progresso humano e os anseios de igualdade no acesso às oportunidades. Limpo aqui, apenas a tradição, a ordem (que se aplica só aos outros) e a eficiência escravizante.

Criam-se ambientes asséticos, que como qualquer ambiente deste tipo tenta ser estanque, para que não haja contaminação e por isso o medo que impele ao fecho sobre si, o fundamentalismo.

A higienização nada constrói apenas mata, limpa aquilo que aceitamos como não saudável. Mas como mesmo em questões apenas de saúde, não é possível ser tão seletivo, quando se elimina o que é mau, não raramente se elimina o que é benéfico. O ambiente assético não se abre à reflexão, ao debate, à cooperação, ao progresso, apenas se encerra sobre o que pretende preservar.

Os políticos que desde há muito passaram a ser meros fornecedores que têm por missão manter a clientela agradada, demitem-se da promoção do regresso à lucidez da condição humana e tentam navegar na espuma das ondas.

O que a humanidade precisa é de lavradores. Remexer na terra, na sujidade, é preciso. Eliminem-se as ervas daninhas para promover o crescimento das diversas culturas que possam conviver e criar assim, não um ambiente assético, mas um onde a sujidade está presente até para nos lembrar que temos que evoluir como indivíduos.

O ser humano não é assético, a sua essência é contingencial. Contingência presente naquilo que é o fluir da vida em que, apesar de se querer muitas vezes pretender o contrário, nada é estanque, nada para, tudo é movimento, tudo se modela em cadeias de ação reação.

Ser humano, não é automatizar a sua vida em face desta ou daquela construção moral e/ou legal. É tomar a consciência de que cada um é um indivíduo que só assume a igualdade na sua dimensão socioeconómica, mas que no resto é um ser com os anseios e medos que são apenas seus, que deve de alguma forma moldar no sentido da melhor convivência no mundo que o rodeia.

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