por | 26 Jun, 2020 | Grandes Louzadenses, Sociedade

“Em tempo de pandemia os bombeiros foram excepcionais” José Carlos Aires

Há um ano no comando dos Bombeiros Voluntários de Lousada, José Carlos Aires faz um balanço deste primeiro ano à frente da Corporação Lousadense. Fala do trabalho realizado, das dificuldades e das expectativas para o futuro.

Qual é o balanço que faz do seu primeiro ano como Comandante da Corporação?

Faço um balanço bastante positivo. Consegui passar a mensagem de que estava cá para trabalhar, para colaborar com todos e desenvolver um projeto que eleve o nome do Corpo de Bombeiros. Não se faz num ano o que não foi feito em décadas. Temos que caminhar caminhando, todos no mesmo sentido e sempre com o objetivo de melhorar. Muito está por ser feito, mas é com passos pequenos e seguros que irei alicerçar o meu comandamento, porque cada corporação é uma realidade diferente, tem o seu ADN. Assento o meu comando para o coletivo em detrimento do individual, e tem sido bem acolhido no quadro ativo.

Como caracteriza o atual momento da corporação e a sua relação com o Comando?

O atual momento não pode ser analisado fora do contexto de pandemia. O desgaste emocional a que estão sujeitos é enorme, contudo existiu sempre uma forte ligação entre o quadro ativo e o comando, porque tiveram nele um exemplo de entrega, de estar ao lado deles, não se refugiando na sua qualidade de Comandante. É nestes momentos que se vê a fibra de que se é feito. A esmagadora maioria dos Bombeiros tiveram um comportamento excecional perante esta crise, e em devido tempo serão reconhecidos.

A pandemia trouxe um grande desafio para a Corporação. Descreva de que forma é que ultrapassaram este período?

Foi muito “violento” e stressante para os Bombeiros que desde o início estiveram na linha da frente, quando na altura o vírus era completamente desconhecido por todos. Fomos repetidamente enganados tanto pelos doentes, que nos omitiam dados importantes sobre o seu estado de saúde, como pelo CODU, que muitas vezes não dava a informação completa e nos colocava em perigo de sermos contagiados. Só no local ou a caminho do hospital, muitas vezes, é que descobríamos que transportávamos casos suspeitos e outros posteriormente confirmados. Foi tempo de “guerra”.
A luta diária para aquisição de EPI’s (equipamentos de proteção individual) a retalho a preços proibitivos, que graças ao esforço dos Bombeiros, Direção e Município de Lousada, conseguimos, fez com que, até à data, não tenhamos tido rutura de EPI’s. Foi talvez a maior dificuldade pela qual passamos. Com os transportes de doentes cancelados e atendendo ao perigo de contágio, decidi que metade dos funcionários/Bombeiros ficassem em casa intercalados de sete em sete dias. O que veio a ser eficaz quando tivemos um infetado no corpo de bombeiros.

Outra dificuldade foi o transporte de doentes não urgentes que nos solicitavam uma ambulância para os levar ao Hospital, mas muitas das vezes o CODU não justificava a saída de uma ambulância de socorro. O facto de não podermos atender de forma gratuita todos os transportes efetuados deixa-nos um amargo de boca. É certo que os Bombeiros têm limites e, como se diz, “quem dá o que tem a mais não é obrigado”. Fica aqui um agradecimento aos que demostraram compreensão. As associações humanitárias de bombeiros irão entrar em severas dificuldades financeiras devido à quebra abrupta de receitas e aumento das despesas sobretudo com EPI para o COVID19. Por isso, ainda não acabou o desafio, apenas está a começar.

Quais foram as maiores dificuldades que sentiu ao longo deste primeiro ano?

Sinceramente, não senti grandes dificuldades. É óbvio que quem chega de fora não conhece ninguém, ainda mais para ocupar o lugar de comandante, o que não é fácil. Diria mesmo que não é para todos, mas quem vem por bem não teme. O facto é que o corpo ativo dos Bombeiros de Lousada mostrou ser inteligente, maduro e respeitador, dando-me a oportunidade de mostrar o que tenho para lhes oferecer. Procedimentos e organização interna é natural que os tivesse de ajustar à minha forma de trabalhar, mas tudo com o apoio de todos.

Aquando da sua apresentação, mostrou algumas preocupações relativamente à corporação, tanto em relação aos meios humanos como materiais, nomeadamente em relação à falta de EPI’s, a algum desgaste de veículos e em relação às instalações. Após um ano, como estão estas necessidades?

Lamentavelmente, no início deste ano, perdemos uma ambulância com um acidente. Felizmente, sem danos físicos para o condutor. Ao abrigo do acordo com o INEM, já chegou a nova ABSC20 que irá entrar ao serviço muito em breve. Temos um outro veículo ligeiro (VTTP) cuja preparação se está a ultimar, que nos vai servir de apoio ao transporte tático de pessoal, tanto a nível operacional como também em deslocações de bombeiros nas mais variadas formações, muitas delas fora do distrito. Foi feita aquisição de material de desencarceramento e equipamento de comunicações. Os EPI’s urbanos estão em stand by, aguardando a passagem deste período dos incêndios rurais, em que pelo segundo ano consecutivo não temos o apoio da ANPC nem das CIM, facto esse que nos obriga a ter que comprar EPI’s para muitos bombeiros queb por desgaste do seu EPI, não têm condições de combater incêndios.

Um dos grandes objetivos da direção é criar uma equipa de comando. Como está a decorrer esse objetivo?

Não é fácil a escolha, atendendo que a minha relação com os bombeiros é recente, mas tenho a equipa praticamente escolhida. A pandemia levou a que a ENB este ano cancelasse os cursos de Quadros de Comando. Aguardemos.

Deixe uma mensagem neste aniversário para a população e para o seu corpo de bombeiros.

Uma mensagem de esperança, de que iremos ultrapassar esta crise, mas temos todos que ser atores de proteção civil, promovendo as boas práticas e a etiqueta respiratória, educando os nossos filhos nesse sentido e chamando a atenção aos nossos velhinhos, que devem proteger-se. Não baixem a guarda, caso contrário vai dar mau resultado.
Não se esqueçam que um município com um Corpo de Bombeiros forte e bem equipado garante um melhor e mais eficaz socorro à população. Prova disto é esta pandemia. O Corpo de Bombeiros de Lousada é de todos os Lousadenses e para todos, dignifiquem-no, acarinhem-no, não critiquem gratuitamente e sem conhecimento de causa, ajudem-nos a ajudar-vos. Não devíamos andar de mão estendida a pedir nos cruzamentos. Pelo facto de sermos BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS não devíamos ter que o fazer, mas fazemos e é por todos os Lousadenses que o fazemos. Está mais do que na hora de as forças vivas do Município de Lousada e todos os munícipes juntarem esforços e dizerem, adaptando a célebre frase de John F. Kennedy: “Não perguntes o que o teu país (Corpo de Bombeiros) pode fazer por ti, mas sim o que podes fazer por ele.

Se precisarem de mim, estou à distância de um telefonema. Bem-hajam, Lousadenses.

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