por | 15 Jul, 2020 | Cultura, Grandes Louzadenses

Rute Cruz: Primeira mulher a integrar a banda de Monção ensina em Lousada

Rute Cruz é professora no Conservatório Vale do Sousa. Sem familiares próximos ligados à música, foi ela própria quem manifestou muito cedo, com cerca de 7 anos, o desejo de estudar esta arte: “Lembro-me de pedir aos meus pais para me deixarem estudar numa escolinha de música que tinha aberto em Monção. Entretanto a banda de música de Monção também tinha uma escola de música e eu gostava mais dos sopros e fui para a escola da banda”, recorda. Mas, na altura, os estatutos da banda não previam a existência de mulheres. Assim, Rute Cruz começou os estudos na escola e, mais tarde, com a alteração dos estatutos, tornou-se a primeira mulher integrar a banda de Monção. Durante muitos anos, foi mesmo a única mulher.


Os anos foram passando e Rute Cruz estava a concluir o nono ano quando começou a ganhar a convicção de que a sua vida profissional passaria pela música. “Convenci os meus pais a deixarem-me estudar no Porto, que, na altura, não ficava a estes 150 km, mas sim a quatro horas de viagem e eu nem 15 anos tinha feito”, conta. Ainda assim, os pais autorizaram os estudos no Conservatório do Porto. Viveu sozinha na Invicta, num quarto alugado. “Fiz o meu percurso no liceu Carolina Michaelis. Ainda fui dar uns passinhos à universidade, pelo Direito, que depois abandonei quando fui admitida na Escola Superior de Música do Porto, onde concluiu, em 2000, a minha licenciatura”, relata.


Numa altura em que os professores profissionalizados na área da música eram poucos, uma vez que a Escola Superior de Música era ainda muito recente, alguns colegas que tocavam na Banda de Lousada sugeriram-lhe a lecionação na Academia de Música de Lousada, atual Conservatório Vale do Sousa. “Fui ter com o senhor maestro da Banda de Lousada, o senhor Alberto. Na Vila Praia de Âncora, numa festa onde a Banda de Lousada estava a participar, ofereci-me para lecionar na Academia de Lousada, que tinha meses”, conta. Entrou no corpo docente da instituição e aí permanece até hoje, estando prestes a completar 25 anos ao serviço.


Recorda que, na altura, aceitou o compromisso de tocar na banda lousadense, à semelhança do que acontecia com todos os professores da academia. “Durante uma época fui flautista da Banda de Lousada. Pelo facto de ser de Monção, no final dessa primeira época, pedi dispensa dessa obrigação e fiquei só como professora”, explica.

Ensino articulado da música é um marco na vida do Conservatório

Ao longo destes 25 anos, a professora viveu momentos bons e menos bons, mas há marcos muito importantes. Assinala: “O primeiro marco importante foi quando meia dúzia de visionários, encabeçados pelo Sr. Paulo Cunha, tiveram esta visão de abrir uma academia em Lousada com o propósito de terem a escola de música da banda. Na altura, era importante, pois não havia mais academias”. O segundo marco que destaca é o ensino articulado da música: “Esse foi importante, tanto para o Conservatório como para o concelho de Lousada. Não teríamos tantos alunos se não tivéssemos o ensino articulado com esta vertente gratuita. É um marco importantíssimo”, considera. Rute Cruz destaca ainda a “abertura de portas” do Conservatório, que tem levado músicos a grandes palcos, como a Casa da Música, trazido grandes nomes a Lousada, proporcionado boas relações com outras associações e originado novos projetos, como a música para bebés e para a terceira idade. “Estamos a querer expandir a toda a gente esta vivência porque a música é importante ao longo de toda a vida. Todas as idades têm a oportunidade de vivenciar através do Conservatório a nossa música”, diz.

A professora fala com entusiasmo do projeto da música para a terceira idade. No início, parecia impossível, mas começa a ganhar corpo e a tornar-se uma realidade.

Estágios da orquestra proporcionam crescimento dos jovens músicos
Os estágios da orquestra fazem parte de um projeto ao qual está diretamente ligada e lhe diz muito. “Todos os anos, por volta da paragem do ano letivo, na Páscoa, um maestro com algum nome, nacional ou internacional, é convidado e vem trabalhar durante uma semana com a nossa orquestra de sopros. Mas também temos alunos de outras escolas que se inscrevem para vir trabalhar connosco durante uma semana. Chegamos a ter cerca de 80 jovens a dormir, jantar, almoçar e a ensaiar”, explana. Esta azáfama termina com um concerto oferecido à comunidade, para mostrar o trabalho desenvolvido. “É um trabalho muito interessante. Os alunos evoluem, tanto a nível musical, nas suas competências, mas também a nível social e comportamental. É trabalhoso, mas é muito importante”, salienta.
A professora Rute fala ainda do orgulho que sente quando vê um aluno terminar o ciclo de estudos no Conservatório. “Não temos só orgulho naqueles que vão para fora, não temos só orgulho naqueles que continuam a ser instrumentistas, temos orgulho em todos e, principalmente, naqueles que nós percebemos que passaram pela nossa casa e passaram a ser melhores adultos, mais bem preparados, com mais competências”, refere.
O convívio no Conservatório cria laços para a vida, alguns dos quais se mantêm mais apertados. É o caso dos ex-alunos, que regressam no papel de professores. “Gosto da sensação de nós próprios nos irmos renovando, através da nossa imagem, daquilo que nós produzimos”, dia, com satisfação.

“A música também é uma escola da vida em relação à formação de homens e mulheres”.

Rute Cruz mostra-se convicta da verdade desta afirmação e explica porquê: “O músico, desde tenra idade, enfrenta um público e que tem a responsabilidade de preparar o que quer que seja para apresentar o melhor que é capaz (às vezes sai menos bem, outras sai melhor). O estudo de um instrumento é muito exigente, é preciso um espírito de sacrifício, de insistência, de perseverança”, refere, salientando que, por vezes, nem o estudo de horas faz com que se atinja o nível desejado, o que faz com que seja necessário aprender a gerir frustrações.

Apesar de o projeto do Conservatório ocupar a maior parte da sua vida, neste momento, Rute Cruz faz parte da direção da Associação de Flautistas de Portugal, que tem vindo a desenvolver algumas atividades, entre as quais o Festival de Flautistas, que envolveu 14 flautistas profissionais do mundo inteiro. “Vieram dar aulas, fazer concertos masterclasses, tivemos exposições das melhores marcas de flautas… Uma preparação de um festival dessa dimensão ocupou-nos mesmo muito tempo”, conta. Infelizmente, a conjuntura atual não permite a realização de mais atividades.

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