Hoje é comum haver a referência ao termo populismo, como se de uma corrente política se tratasse, como algo até que tivesse aparecido nestes tempos e nas nossas democracias. A verdade é que esta imagem é criada pelos políticos do establishment, que dispõem, de forma pouco cuidada, do termo para classificar tudo o que politica e socialmente não lhes agrada ou que até desafia a sua ação.
Populismo assume assim quase a auréola de um princípio moral, corrompido por todo aquele que se atreve a alvitrar algo mais consentâneo com o senso comum, diferindo do poder instalado.
Este termo, “populismo” junta-se na retórica política às palavras “democracia”, “igualdade”, “liberdade”. Termos de uma força inabalável quando chamados, em constante ressonância pelos meios de comunicação, a influenciar aquilo que se denomina como opinião pública.
Na verdade, se observamos com alguma atenção, perceberemos que existem de facto vários populismos, o populismo de esquerda, o populismo de direita, o populismo “mau”, o populismo bom, como por exemplo o do nosso Presidente da República. Nesta visão não há populismo, existem populismos.
No entanto, o termo tende à unificação pela falta de efeito político, isto é, o sentido do conceito político de populismo está vazio. Na formulação de Carl Schmitt, qualquer conceito político possui um caráter agonístico, em que este, só toma forma na medida em que existe um outro conceito político que se lhe opõe. O populismo, pelo seu caráter aparentemente inorgânico é intrinsecamente uma não política, pois não existe forma política de refutação apenas a classificação.
No clima atual, onde paradoxalmente, o debate político está praticamente arredio, em que os políticos assumem mais o papel de fornecedores de produto de conforto às populações, com comunicação através dos media e das redes sociais, todo aquele que se pretenda porta-voz do povo ou que a ele se dirija, é um populista acusado de apelar aos instintos primários do povo.
O povo que não tem instrução para ser consultado, para saber o que quer, quem sabe são os políticos, os pseudointelectuais, os especialistas em tudo e em nada. O povo é infantil, tal como uma criança, deve ser protegido de toda a espécie de demagogia, do seu caráter obtuso, simplório, ingénuo e de credulidade. Algo, que não acontece com as elites instruídas, de grande inteligência, nada que se assemelhe a essa massa informe e acéfala que é o povo.
Mas o que é povo do populismo? Na nossa tradição ocidental, o conceito de povo assumiu sempre um carácter muito ambíguo, como aparece descrito segundo António Bento, por um lado o “ Povo” como sujeito constitutivo que designa o conjunto dos cidadãos de uma determinada comunidade política e por outro o “povo” como aquela “classe” de pessoas, oposta à “classe” dos cidadãos, que inclui os pobres, os deserdados e os miseráveis de uma comunidade política, a “classe” dos excluídos da política e da cidadania.
Trata-se de uma ambiguidade semântica, que traduz a impossibilidade de agregação dos indivíduos num só corpo de representação.
Estamos a tratar de populismo e nessa vertente o conceito genérico de “povo” recebe três aceções: i) o povo político (demos); ii) o povo definido pela sua própria história e costumes (ethnos); iii) o povo miúdo, feito de pessoas vulgares e classe populares miseráveis ou “desfavorecidas” (plebs). O povo como plebs é a parte mais numerosa do “povo” histórico ou político, o “povo “ que existe de facto.
Desta maneira se percebe, que a grande dificuldade na análise dos “populismos” está na continuada mistura destas três aceções, bem como da reiterada procura da sedução destas mesmas três componentes, numa agregação artificial que transcende as características diferenciadoras entre elas.
Outra forma de ver o populismo é o de o assumir como uma ferramenta. O populismo, que se apresenta nos dias de hoje não só com a função de desvalorizar o discurso dos adversários, mas também numa espécie de “prestação de serviço” pelos políticos aos “clientes” que são o povo sob qualquer forma. O combate político esbate-se, o político passa a ter um sistema de call center turbinado pelas redes sociais, onde ele procura dar resposta às reclamações do momento. A transparência é o desiderato que corrói a negatividade tão necessária à perceção do “ser”. Há um problema, um anseio, uma ansiedade? A resposta surge tendencialmente no reforço da posição do fornecedor. Hoje todos podem tudo. A resposta, mesmo que não sirva, não nega a perceção da falta de limite ao anseio, pelo contrário, a resposta torna-o igual e até se calhar superior porque obrigou alguém com poder a responder-lhe. Ambas as partes ficam alegres com esta espécie de fusão, que retira ao ser humano a sua singularidade e o junto numa massa disforme. No fim, o populismo, visto desta forma, não é mais que uma ferramenta de dominação.
A ética de uma ferramenta destas assenta num princípio moral, que de forma alguma pode ser tomado como errado, pois vai ao encontro da sua vertente consequencialista, em que à boa maneira Maquiavel, se vai medindo a qualidade das ações pelo seu resultado.












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