Entre as imagens silenciosas da Guerra e uma vida dedicada aos outros
Belmiro Pinto Sousa, mais conhecido por “Miro Rola das Portas”, alcunha pela qual é carinhosamente tratado, trata a madeira por “tu”, foi carpinteiro, militar, empresário, autarca e caçador. Cada ruga do seu corpo guarda 80 anos de vivências, nem sempre fáceis, mas, hoje, orgulha-se da família que construiu e de ter superado uma das fases mais difíceis da sua vida, a Guerra do Ultramar. 

É véspera de ano novo e as temperaturas negativas fazem-se sentir em Lousada. Belmiro Sousa, o penúltimo de cinco irmãos, nascido em Nogueira, espera-nos à porta com um olho na rua e outro nos preparativos do almoço. Apesar das dificuldades em caminhar, que se agravam a cada dia, recebe-nos com um sorriso e uma boa disposição que lhe é característica. 

Com a voz trémula, recorda os seus tempos mais jovens quando, aos dois anos, acaba por perder o pai. “Naquele tempo era muito difícil, passamos muitas dificuldades. A minha mãe trabalhava de dia e de noite para nos criar. Eramos cinco irmãos e dormíamos todos debaixo de um cesto. Assim se foi passando a vida e, aos 12 anos, comecei a servir até ter idade de ir para a tropa”, conta. 

Em 1961, aos 21 anos, foi chamado a prestar serviço militar na Guerra do Ultramar, em Angola, que provocou mais 10 mil mortos e 20 mil soldados inválidos, que ficaram com deficiência permanente, física ou psicológica. “Foi muito difícil” e ainda hoje recorda esses momentos. 

“Morria um colega à nossa beira e nem ligávamos nenhuma, fazíamos de conta que não morreu ninguém. Estávamos tão drogados com medicamentos, que fazíamos de conta que não se passava nada.”

“São recordações que nunca mais passam, era melhor que passasse. Nesta idade, dormimos mal e tudo vem à ideia. Estive sempre na zona de risco e às vezes sonho com essas coisas que são complicadas. Querer disparar a arma e a arma não disparar, claro que não dispara, porque não a temos, mas é uma aflição”, conta.  

As imagens da Guerra do Ultramar fazem parte da memória coletiva da sociedade portuguesa nas últimas décadas e Belmiro Sousa não fica indiferente ao ler o livro que guarda sobre estes tempos, admitindo que lhe deixa “muita tristeza por todos os colegas que lá morreram e lá ficaram que nunca mais ninguém os viu”.

“Morria um colega à nossa beira e nem ligávamos nenhuma, fazíamos de conta que não morreu ninguém. Estávamos tão drogados com medicamentos, que fazíamos de conta que não se passava nada”, lamenta. 

Em 1964, regressa a casa da mãe, em Nogueira, onde seguiu “nova vida” e começou a “servir na agricultura”. 

Trata a madeira por “tu” 

Depois de uns anos a trabalhar como agricultor, Belmiro decide dedicar-se a outras artes. “Fui trabalhar para Paços de Ferreira e foi ali que consegui estar até ao tempo de me estabelecer por minha conta”, confessa. Apaixonado pela carpintaria, criou a sua própria empresa que, até hoje, visita todos os dias. 

“Era marceneiro, mas decidi criar uma empresa de carpintaria. Foi sempre a minha profissão, sempre fui muito ligado a isso e, hoje, entreguei ao meu filho. Já trabalhei anos que chegasse e com os problemas de saúde não posso”, expressa. Mas nem os problemas de saúde lhe tiram a madeira das mãos. Durante o dia, aproveita para ir até à fábrica “para passar um bocadinho de tempo”. 

A paixão pela carpintaria começou muito cedo por força das dificuldades. Quando queria brincar, montava os seus próprios brinquedos com as madeiras que encontrava. “Já não me lembro como os fazia, mas fazia carros e motas sem ferramenta nenhuma”, assegura. 

“Na altura era muito difícil trabalhar na agricultura, que não havia semeadores, tratores, era tudo semeado a lanço. Ao domingo, nos tempos livres, entretinha-me a fazer um arado para lavrar a terra”, recorda. Atualmente, já não dedica tanto tempo à agricultura, embora continue a gostar muito da profissão. “Gostava muito, então se fosse hoje é que gostava, porque hoje há tudo, temos máquinas para tudo”, brinca. 

Todos os carros de bois eram feitos manualmente, recorda, referindo que não havia qualquer máquina na freguesia, “o primeiro a pôr aqui uma máquina fui eu”. 

Vida ligada ao associativismo 

Durante o seu percurso, deixou algumas marcas na comunidade lousadense. Pertenceu à Junta de Freguesia de Macieira, durante oito anos, e à Junta de Freguesia de Nogueira, durante 12 anos, como Presidente da Assembleia. 

Admite ter abandonado quando o presidente pelo qual foi eleito saiu. “Só estávamos a criar problemas com os amigos. A política é uma coisa muito ridícula, porque tudo o que se faz tem um efeito. Nós tentávamos fazer o melhor para a Junta, para toda a gente, mas a oposição estava sempre a deitar a abaixo”, justifica. 

“Gostava muito de estar na Junta de Freguesia, mas com a minha situação profissional na carpintaria não queria estar a arranjar problemas com os amigos, então desisti”, menciona. Enquanto carpinteiro, foi também Belmiro que construiu a Sede da Junta de Freguesia. 

Mas não só de política foi feita a vida pública de Belmiro. Embora não dance, há 40 anos que pertence à Direção do Grupo Folclórico de Santa Eulália de Barrosas. Quando foram renovados os órgãos sociais, pretendia sair, mas não permitiram. “Disseram que só saía quando acabasse, quando morresse”, justifica. 

“São 40 anos, é uma vida. E estas coisas deixam saudades. Temos uma sede do Rancho que podem correr o país todo que não encontram. Fazemos lá grandes festas, jantares, temos um museu de 120m², que tem tudo o que é antigo. E estas coisas deixam-me muitas saudades”, expõe. 

Podia ter pertencido, ainda, a uma associação de futebol, mas também não aceitou. “O futebol não é a minha paixão, não quis”, revela. 

A paixão pela família 

Belmiro Pinto Sousa foi casado, criou três filhos e tem três netos. “Os meus filhos foram criados de outra forma. Nunca lhes faltou nada. Foram criados com todo o conforto, não com o mimo que é hoje, mas com muito conforto. A minha falecida esposa era muito dedicada aos filhos e nunca lhes faltou nada. Tendo possibilidades, nunca devemos dar maus tratos aos filhos ou abandoná-los.”, manifesta, garantindo que preferia passar fome a ver um filho com dificuldades. 

“Fiquei sem a minha companhia, o ambiente é outro. A minha alegria parece que acabou, gosto de conviver com as pessoas, fazer as minhas brincadeiras, mas sem ela mudou muito. Não tenho palavras para definir isso.”

“Como se vê, há muitas mães a abandonarem os filhos, isso não se faz, é um crime”, lamenta, lembrando que “antigamente, quando aparecia uma senhora grávida era o fim do mundo, hoje ninguém liga, e ainda bem”. Homem de família, gostava de ter tido mais filhos, mas a vida não permitiu. 

Quando ficou viúvo, há cerca de três anos, sente que perdeu a alegria de viver. “Fiquei sem a minha companhia, o ambiente é outro. A minha alegria parece que acabou, gosto de conviver com as pessoas, fazer as minhas brincadeiras, mas sem ela mudou muito. Não tenho palavras para definir isso”, conta emocionado. 

Com o apoio da família, “não me falta nada”. “Tenho as minhas filhas, os meus netos só estão bem aqui, não me falta nada, mas, ao mesmo tempo, falta tudo”, expõe.  

Belmiro garante que fez tudo o que desejava. “Fiz praticamente tudo aquilo que era da minha paixão, não me deixa nada saudades para trás, tudo o que optava por fazer, fazia. Lutei sempre por aquilo que queria e transmiti os ensinamentos profissionais ao meu filho. Se fizermos só o que aprendemos nunca vamos a lado nenhum, e a nossa arte é muito difícil aprender, porque nunca se faz sempre a mesma coisa”, termina.

2 Comments

  1. José Carlos Oliveira.

    Grande homem, grande Amigo. Sempre bem disposto e comentário positivo. Votos de vida longa.

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  2. Antonio pereira

    Este senhor teve Uma Vida como todes coisas boas e mais gue fazer Eu sou acoreano da terceira ja com 70 Anos vivo no Canada desde 1980 ja fui pratrais 2 Anos com comtentor pra ser de ves o meu trabalho em Portugal era carpinteiro e nao gostei porgue ere mais trabalho e viver pior gue agui no Canada por isso voltei pra triais com 2 filhos e agui estor e gosto ja nao a Portugal a 21 Anos tem Ido a Cuba etc os tempos mudem Portugal pra min e sempre o mesmo so mudou o tempo agora com respeito a esse senhor de dizer gue teve em Angola e nao de esguese pra min e estorias Eu TiVo em Mozambique 1970 a1974 na Jona de teto era jover condusia na Mata muitas Mina’s rebentava na Picada algumas pessoas morem e guerre e a Jona era De 100 por cento Perro da barajem de Cabora Bassa mas agora nem Penso nisso e passado o governo gue se lixo ele gue VA pra puta gue pario Eu tem mais em gue pemsar agora e so be very televisao e ficar em Casa por cuaze da Corona e presiso e saude de resto o passado passou o Dia de home e gue canta Tony

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