A pandemia provocada pela covid-19 trocou as voltas ao mundo laboral, levando as empresas a fecharem temporariamente as portas, despedindo trabalhadores ou recorrendo a mecanismos de apoio do Governo como o lay-off simplificado para garantirem os salários. Contudo, ainda há quem consiga arranjar emprego devido à situação que o país atravessa.
Se, por um lado, a covid-19 trouxe ao mundo o desemprego ou a impossibilidade de trabalhar, por outro, trouxe novas oportunidades de emprego. As vidas de Fernando e Diana, dois jovens residentes em Lustosa, cruzam-se num ponto: a pandemia mudou-lhes a vida.
A Fernando Pontes, de 29 anos, deixou a vida em suspenso. Há 12 anos que trabalhava em Pirotecnia, uma das áreas mais afetadas pela pandemia. “Este é o único trabalho que tive”, resume. Atualmente em lay-off, vive dias incertos e sem saber o que esperar do futuro.
“Somos os primeiros a sentir, porque é a área dos eventos. Quando as coisas começam a correr mal os eventos são sempre os primeiros a fechar. Desde fevereiro de 2020 que estamos parados”, testemunha.
“Como fomos os primeiros a sentir, acho que vamos ser dos últimos a puder levantar o lay-off ou conseguir alguns trabalhos para manter a empresa a trabalhar.”
Após quase um ano de paragem, “é muito difícil não saber quando vai acabar. Quando dão previsões de melhorar, começam as coisas a ficar mal outra vez”, alega, acreditando que o regresso não estará para breve: “como fomos os primeiros a sentir, acho que vamos ser dos últimos a puder levantar o lay-off ou conseguir alguns trabalhos para manter a empresa a trabalhar”.

“É esse o ponto de situação deste ano, é difícil, mas não podemos pensar sempre no pior, tenta ver o melhor, mas o melhor ainda está longe”, relata.
A maior dificuldade foi adaptar a vida ao novo normal. “Foi reduzir, é muito tempo em casa, além de estarmos em lay-off não podemos andar por aí a passear, começa a cansar de não sentir diferenças. Tem de se apertar os cordões a tudo, porque o lay-off não é um salário e vai alterando”, revela.
O apoio que vão recebendo, nem sempre é certo e vai sendo diferente de mês para mês: “houve uma fase, a meio do ano, que tínhamos a 50%, depois já não tínhamos, nunca se sabia o que se ia receber. É estar sempre com o coração na mão”, confirma. “O Governo ia sempre adaptando conforme as coisas iam decorrendo, mas esquecem-se que há setores que não fazem mesmo nada, que é o nosso caso. Nós, funcionários, não vamos trabalhar se não temos nada para fazer”.
E se esta fase foi incerta, o futuro parece não ser animador. “Eu nunca fiz mais nada a não ser isso, é um bocado difícil ir procurar outra coisa, porque ficas sempre a pensar: será que um mês, dois, isto melhora e começas a poder fazer o trabalho que fazias ou arriscas, mas é muito difícil dar esse passo em falso, nunca se sabe com o que contar, o que vem a seguir”, esclarece.
A estes receios, junta-se a mudança de ramo, “que é complicada”. Não sabe como será, mas “estou atento e se for preciso, e se conseguir, vou, mas acredito que os outros setores também não tenham muita disponibilidade para empregar pessoas”.
“Nessa fase da vida, que começa a desenrolar tudo, tivemos que ficar por ali, porque não sabemos o que vem daqui para a frente, nem temos maneira, mesmo a nível de rendimentos, para poder prosseguir.”
Num ano que parecia ser de sonho, com o casamento à porta, a vida trocou-lhe as voltas. “Casei o ano passado. Para começar a vida com esta situação, não dá para ter projetos nenhuns. Queria fazer a parte religiosa, só fiz a parte do civil, porque não tinha sentido não poder levar pessoas à Igreja, optamos por fazer só o civil”, lamenta.
“Nessa fase da vida, que começa a desenrolar tudo, tivemos que ficar por ali, porque não sabemos o que vem daqui para a frente, nem temos maneira, mesmo a nível de rendimentos, para poder prosseguir”, revela.
O jovem alerta, ainda, a necessidade de “ter sempre aquela cautela, porque mesmo que vás fazer alguma coisa, tens um projeto de uma casa, ou uma casa em vista, mesmo que te aprovem as coisas, já vai ser difícil pela situação em que estás, ficas sempre ‘será que vou ser capaz de cumprir’, porque está muito instável.
Embora todos os trabalhadores em lay-off continuem a ser registados como empregados, “de um momento para o outro podes ficar sem emprego”, anuncia. “Se fosse uma pessoa que já tem experiência em vários ramos, mas só na pirotecnia é que tenho essa experiência, não era fácil arranjar outro emprego.”
A viver uma vida completamente nova, define esta fase como “a pior que já tive, nunca imaginei uma coisa destas”, termina.
A covid como uma oportunidade
Se, para quem sai da universidade, encontrar um emprego nem sempre é tarefa fácil, a dificuldade acresce ainda mais em tempos de pandemia. Mas, para Diana Duarte, de 24 anos, parece não ter sido nenhum entrave. Recém-mestranda em Engenharia Biomédica, fez do problema uma solução.
Licenciada em Engenharia Biomédica pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), terminou o Mestrado, na mesma área, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), em outubro passado. Numa semana entregou a tese final, na seguinte começou a formação para realizar testes de rastreio à Covid-19. Atualmente, é técnica de laboratório e integra a equipa de testagem da SARS-COV-2.
“Pelos testemunhos de colegas e empresas com quem fui tendo contacto durante o curso, era uma área em que saíamos e era fácil arranjar emprego. Com isto, ficou completamente parado.”
Quando imaginou o mundo laboral no final do curso, nunca sonhou que atravessaria uma pandemia e seria tão complicado arranjar emprego na área. “Pelos testemunhos de colegas e empresas com quem fui tendo contacto durante o curso, era uma área em que saíamos e era fácil arranjar emprego. Até nas próprias feiras de empresas que havia na universidade falavam connosco e garantiam o emprego. Com isto, ficou completamente parado”, conta.
Sem cruzar os braços, e aproveitando o gosto pela área laboratorial, aceitou o desafio e hoje enfrenta a Covid-19 de zaragatoa na mão. “Como gosto muito da parte de laboratório, e uma grande parte da Covid dá trabalho em laboratório, para resultados de testes e assim, consegui arranjar logo, porque quis ir para aquela área. Se quisesse ir para a área de programação e assim, seria mais difícil”, explica.

Para a jovem, a entrada imediata no mercado laboral “é sempre aquele choque de sair da universidade e começar algo novo. Por muito que aprendas a teoria, depois na prática é que vais ver realmente o que valeram aqueles cinco anos”.
“Ires para um meio em que sabes que está uma pandemia no mundo, vais testar estas pessoas, vais estar em contacto com o vírus, vais ter de vestir todos aqueles fatos, aquelas proteções, vais ter de aprender como fazer um teste sem magoar a pessoa, a meter na direção certa, foi um bocado assustador.”
E, de repente, viu-se na linha da frente do combate à pandemia. “Ires para um meio em que sabes que está uma pandemia no mundo, vais testar estas pessoas, vais estar em contacto com o vírus, vais ter de vestir todos aqueles fatos, aquelas proteções, vais ter de aprender como fazer um teste sem magoar a pessoa, a meter na direção certa, foi um bocado assustador”, descreve.
“No fundo, também foi bom, pelo lado em que comecei a ter mais cuidados ainda, porque se estou ali com aquilo tão fácil de progredir, por isso comecei a proteger-me ainda mais do que aquilo que fazia”, afirma, explicando que “fazia aos 150 testes por dia, era uma coisa mesmo diferente do que eu estava à espera do meu mercado de trabalho”.
Embora fora do imaginário, acredita que esta experiência “nos ajuda a ser mais desenrascados e a não ter medo de aprender coisas novas, porque vais ter sempre pessoas para te ajudarem. Tinha um pouco de medo do mundo do trabalho, porque via a rivalidade que havia na universidade e pensava ‘se isto aqui é assim, numa empresa vai ser pior’, mas não, apanhei profissionais excelentes”.
“A lição que eu levo deste primeiro impacto com o mundo do trabalho é boa e, sim, é preciso aprender rápido e à pressão, mas os chefes têm confiança em ti logo”, refere, garantindo que “isso ajuda do lado deles, que confiam mais em nós, e do nosso lado, que aprendemos mais rápido, mas temos mais confiança no nosso trabalho, porque estamos a fazer sozinhos”.
Depois da experiência em “cenário de guerra”, o objetivo de Diana Duarte, pós-covid, é integrar a equipa de laboratório a nível hospitalar.












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