por | 9 Mar, 2021 | Louzadenses Lá Fora

Trilhar o caminho para dar asas a um espírito livre
Natural de Lustosa e com um espírito aventureiro, Patrícia Martins embarcou no desafio de sair de Portugal. O objetivo era ficar na Europa, mas os horizontes foram mais longe. A viver no Brasil desde dezembro de 2019, criou o seu próprio negócio, “A Portuguesa”, com peças pensadas e confecionadas pela própria.

Patrícia Martins é uma apaixonada por conhecer o mundo, normalmente a pé. Mais recentemente, já no Brasil, encontrou a paixão pela bicicleta, que tem utilizado para conhecer o país. A vontade de conhecer o mundo vem desde muito cedo e, em Portugal, praticava Trekking, que significa seguir um trilho ou percurso pedestre. “O facto de praticar trekking e ser peregrina dos caminhos de Santiago fez-me estender os horizontes e a vontade de andar pelo mundo”, conta Patrícia.

A chegada ao Brasil aconteceu em dezembro de 2019, pouco antes de ser declarada a pandemia de covid-19, que, “atrasou um bocadinho os planos”, lamenta. Embora sem grandes planos, Patrícia embarcou na aventura, “Quando somos aventureiras, gostamos de conhecer novas culturas e andar pelo mundo, atiramo-nos um pouco de cabeça, acho que as coisas não são muito planeadas. Então, às vezes, quando acontece alguma coisa na nossa vida que nos deixa mais perdidas, quem é aventureira procura sempre ir para novos horizontes”, refere.

“Quando decidi mudar de Lousada para outro país, a minha ideia era a Europa, mas aí as coisas não correram como eu queria, porque na Europa é outra língua, não ajuda muito.”

“Eu estava a pensar em ir para outro país e nunca sonhei vir para o Brasil, não era dos meus países de eleição, nunca fui aquela pessoa que tinha o sonho de fazer uma viagem ao Brasil. Quando decidi mudar de Lousada para outro país, a minha ideia era a Europa, mas aí as coisas não correram como eu queria, porque na Europa é outra língua, não ajuda muito”, afirma.

À medida que o sonho ia aumentando, iam surgindo palavras de apoio de todos os amigos. Em 2019, quando decidiu terminar os estudos no Centro Qualifica – Profisousa, encontrou uma equipa que alimentou a vontade de viajar e fez com que se “atirasse de cabeça para o mundo”.

E como acredita que ninguém consegue nada sozinho, a partir daí, “comecei a entrar em contacto com amigos que estavam na Europa e a resposta que me deram foi que não era uma boa altura para eu sair de Portugal, porque a crise estava a afetar toda a Europa a nível de emprego”.

Nos caminhos de Santiago acabou por conhecer a amiga que viria a ajudar com a tomada de decisão. “Ela também é uma viajante como eu e chegamos a fazer algumas férias juntas. Nessas viagens formou-se uma cumplicidade, ela deu-me aquela confiança de ouvir o que ela me dizia, aceitar as informações que ela me passava. Como não estava a conseguir ter trabalho na Europa, que eu queria muito sair de Portugal e ir para outro país, ela abriu-me as portas. Pensei pouco sobre o assunto”.

A adaptação ao novo país

A vontade de viajar e os conhecimentos que já tinha no Brasil falaram mais alto. “Já tinha estado em S. Paulo, em 2018, já conhecia a vida da Camila, a família dela e outros amigos que conheci através dela. Marquei encontro com pessoas que tinha contacto aqui, através de um grupo de poesia que fazia parte na internet, e quando vim de férias formou-se logo um contacto com quem falava virtualmente e isso deu-me força para aceitar a sugestão da Camila”, confirma.

E a decisão foi fácil de tomar: “vendi os meus bens materiais em Portugal e resolvi começar uma nova vida num novo país e com novas culturas. Para dar oportunidade a outras pessoas para entrarem na minha vida”.

Patrícia acabou por partir para a aventura sem contrato de trabalho ou familiares.  “Atirei-me como uma verdadeira viajante, vim sem trabalho, por isso é que me desfiz dos bens materiais e fiz dinheiro para trazer para cá. Depois de chegar cá é que ia decidir o que fazer. Lógico que com tudo isto veio a vontade de conhecer a América Latina, veio e continua a estar cá. Continuo a fazer turismo por cá, embora com algumas restrições devido à pandemia”, conta.

“É tudo diferente quando vimos de férias e quando vimos para começar uma nova vida, porque de férias é tudo perfeito, quando começamos uma nova vida as dificuldades aparecem.”

O primeiro passo foi regularizar a situação do visto e um emprego. No primeiro mês, optou por instalar-se e tentar conhecer a cidade. “É tudo diferente quando vimos de férias e quando vimos para começar uma nova vida, porque de férias é tudo perfeito, quando começamos uma nova vida as dificuldades aparecem. Entretanto, o meu visto demorou um pouco para sair. Assim que saiu o visto, duas semanas depois entrou a pandemia”, lamenta.

Pandemia que veio dificultar todo o processo de adaptação. “Fiquei assustada, perdida, sem saber que decisões tomar. Todo mundo ficou perdido, então quando é uma pessoa que ia começar uma vida do zero num país muito longe, as coisas pioraram, o medo aumentou bastante”, revela a jovem.

“As pessoas que tenho aqui deram-me a maior força e disseram ‘não, tu vais-te reinventar. Trabalhas com a costura, porque não começares a criar as tuas peças?’. Embora tivesse aqui, no início da pandemia, dava para conseguir trabalho, mas ia expor-me, porque eram trabalhos temporários, de entregas ao domicílio. Para além de não estar tão adaptada à cidade, ia-me expor demais, ainda não sabia o à vontade que eu podia circular na cidade”, recorda.

Por isso, começou a trabalhar e reinventou-se com a ajuda da colega de casa. “Eles disseram-me: ‘porque não fazes umas bolsas, que em Portugal fazias as tuas próprias bolsas para ires de férias, porque não?’. Faço as coisas sem pensar muito e aceitei essa sugestão. Comprei uma máquina doméstica e comecei a fazer bolsas básicas para colocar livros. De seguida, comecei a fazer máscaras”, conta.

A criação de um negócio

Apesar de todas as adversidades da pandemia, Patrícia Martins acredita que “foi o que deu o arranque ao meu projeto. Comecei a vender máscaras e foi isso que me sustentou nos primeiros meses aqui em S. Paulo”.

Mais tarde, começou a confecionar bolsas, carteiras e, agora, fabrica produtos de ioga. “Criei o meu pequeno atelier ‘A Portuguesa’ com a ajuda das pessoas daqui. Aqui tem muita gente que acolhe muito o povo português. Por isso é que surgiu o nome ‘A Portuguesa’, porque aqui chamam-me assim, não me chamam pelo nome. E deram-me muita força, os amigos começaram a comprar os meus produtos, começou-se a espalhar e pedi parceria a esta minha amiga na parte do marketing e design”, explica.

“É tudo feito a partir de casa. É tudo feito por nós. Eu faço a parte da costura e a minha amiga a parte do design e divulgação. Foi-se espalhando e já tenho clientes no Rio de Janeiro. E estou super feliz. As minhas encomendas durante a pandemia têm viajado por quatro estados e isso deixa-me satisfeita”, conta.

Porém, a jovem tem consciência que “não é um país para ganhar dinheiro para chegar rica a Portugal, porque há a diferença de câmbio. Mas, para viver cá, deixa-me satisfeita e chega” e sonha com mais, “muito mais, mas, considerando que comecei um projeto no meio da pandemia, para mim é o suficiente da forma como está”.

Embora nunca tivesse sonhado ir para o Brasil e, muito menos, ter o seu próprio projeto, “aqui estou eu, em S. Paulo, no melhor estado do país, na cidade que traz as melhores oportunidades, a cidade onde podemos ter a melhor qualidade de vida a nível financeiro, porque a nível de segurança há outras cidades fora do centro que têm uma melhor qualidade de vida”.

“Não tenho aquela vontade de ficar aqui o resto da minha vida. Apaixonei-me por S. Paulo e quero ficar cá, porque foi a cidade que me trouxe oportunidades e me abriu as portas e me acolheu.”

E, por isso, continua a sonhar. “Cheguei aqui e o que quero agora é conhecer o máximo possível da América Latina. Estou a aproveitar para conhecer aquilo que posso aqui mais próximo. Assim que as coisas forem melhorando, dá-me mais abertura para ir a outros estados e fazer viagens mais longas, para conhecer outras culturas. E o Brasil tem muitas, não é apenas uma. E levar para a frente o meu projeto”, conta, referindo que nunca imaginou, mas que pretende consolidar o projeto e levá-lo mais além e, até, para Portugal.

“Não tenho aquela vontade de ficar aqui o resto da minha vida. Apaixonei-me por S. Paulo e quero ficar cá, porque foi a cidade que me trouxe oportunidades e me abriu as portas e me acolheu. Nunca tive tanto tempo longe de Portugal e a saudade vai aumentando. Tenho muita vontade de levar o projeto para Portugal e ficar entre os dois países”, explica.

De Lousada, restam as saudades da mãe e sobrinhos. “Incuti muito aos meus sobrinhos a vontade de conhecer a natureza, de fazer turismo, embora que, com a idade deles, não sei se eles dão valor ou não, mas pelo menos eu fiz a minha parte e deixava-me muito feliz eles acompanharem-me. É o que me deixa mais saudosa”, termina.

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