Enfermagem e voluntariado: a vontade de servir o outro
A mais velha de quatro filhos, Emília Carvalho é fruto do amor entre uma moleira e um empregado fabril. Com eles aprendeu os valores da família e o respeito pelo outro. Nasceu em 1970, em S. Miguel, em sua casa. Pessoa simples, que acha que a sua missão na terra é estar ao serviço do outro. É enfermeira e pretende deixar a sua pegada, “nem que seja uma sementinha pequenina”. 

Amiga do seu amigo, aprendeu na família a respeitar o outro, o espírito de entreajuda e a distribuição de tarefas, através das longas conversas que mantinham às refeições. Muito nova, foi viver para a Alemanha, onde aprendeu o significado de saudade e o acarretar as consequências das suas escolhas. 

“A minha infância passei na Alemanha, dos três até aos 10 anos. Às vezes sinto que sou daqui, mas não sou daqui, sou de todo o lado. Conheço a realidade do que é ser emigrante. Conheço a realidade do que é uma criança crescer afastada dos seus familiares. Tenho ideias muito atuais de quando vínhamos cá de férias, era a liberdade total. Naquela altura, a vida de emigrante era complicada”, explica Emília Carvalho.  

E é essa experiência que acredita ter transformado a sua mentalidade, “em termos de evolução do ser e do estar em sociedade, porque saía de Portugal onde se vivia em casas em que o chão era terra e ia para um país onde já era tudo alcatroado, luminosidade, a que estamos habituados hoje”. 

“O ser emigrante é pertencer a todo o lado e não pertencer a lado nenhum.” 

“O distanciamento entre as pessoas e a falta de pensar no bem comum entre todos, sempre mexeu um bocadinho comigo. O ser emigrante é pertencer a todo o lado e não pertencer a lado nenhum. Quando vínhamos cá, as pessoas daquela altura achavam sempre que as raparigas que eram emigrantes que eram ‘mais à frente’, que eram ‘mais fáceis’. Era a cultura de educar as meninas para o casamento, não havia aquela cultura de investir na educação”, afirma. 

Desde muito nova que aprendeu a ser responsável e independente. “Aos sete anos aprendi a cozinhar com o meu pai e a tratar dos meus irmãos. A forma de vida na Alemanha era diferente. Ao fim-de-semana fechava tudo, que isso era tempo dedicado à família”, conta. 

Também a escola primária alemã já era diferente. “Eram várias salas e vários professores para as diferentes disciplinas. Quando, aos 10 anos, voltei para cá e fiquei na casa da minha madrinha, era tudo muito diferente, era mais duro. Não havia água canalizada, lavávamos a roupa no fontanário. Aqui, com a minha madrinha, aprendi a ser mulher”, revela.  

A dedicação à enfermagem e o voluntariado 

Licenciou-se na Escola Superior de Enfermagem do Porto, mas nunca sonhou ser enfermeira. Hoje adora o que faz e considera que o seu contributo é “dignificar a classe pelo saber ser, saber estar e saber fazer com o foco sempre no utente, valorizando a sua autonomia e fazer valer o seu papel numa equipa multidisciplinar”. 

O percurso profissional começou no Hospital de Fafe, onde permaneceu durante 15 anos. “Foi o prolongar de tudo o que tinha aprendido no curso. Naquela faculdade já nos incutiam o dignificar a profissão e a autonomia da enfermagem. Era como se fosse uma escola. Ainda hoje recordo com muita saudade aqueles anos”, expressa.  

“Não quero ser escrava das coisas, quero é viver a vida e ajudar os outros.”

“Não sou materialista, quero é uma profissão que me permita uma estabilidade para suportar o essencial, porque nunca liguei a altas marcas. Não quero ser escrava das coisas, quero é viver a vida e ajudar os outros”, confessa.

E é com a vontade de ajudar os outros que acaba por surgir na sua vida a Juventude Mariana Vicentina (JMV). “Encontrei a minha missão na Terra. A JMV é uma cultura de vida a nível mariano, seguir o exemplo de cultura de vida de Maria a quatro níveis: vicentino (promover e fazer caridade organizada) , missionária (missão nos vários campos nacionais) e ad-gentes eclesial (pertencemos à comunidade, somos Igreja)”, conta. 

Uma das grandes marcas que deixou no voluntariado foi a missão que realizou em Moçambique, de 16 de abril a 15 de julho de 2001. Após alguns anos na JMV, julga que essa é a sua missão: “dar motivação aos jovens e conseguirmos fazer várias coisas na vida em prol do bem comum com organização e entrega. Sinto muito orgulho nos jovens que viveram esta filosofia de vida e hoje são licenciados e membros ativos na comunidade”. 

Entrada na política: a missão de mudar mentalidades 

Não se considera política, mas aceitou o desafio “para tentar mudar mentalidades e dar o meu contributo para a realização de ações e obras que promovam a segurança e a qualidade de vida de todos.  E que todos sejam responsáveis pela situação que vivemos em sociedade, gerindo bem os recursos”. 

“Fazer parte e ter visibilidade é ingrato, porque tão depressa somos colocados num pedestal como de repente somos bombardeados”, afirma. Desde 2017, é membro da Assembleia na União das Freguesias de Cernadelo e Lousada (São Miguel e Santa Margarida). 

“Faço as coisas porque gosto, por altruísmo, não esperando nada em troca. O que eu espero do outro é que pelo menos não digam mal. E quando precisamos que haja pelo menos respeito e não manifestem o ódio”, refere. 

“Falta-me melhorar cada vez mais o meu eu. Falta-me abanar a consciência das pessoas e fazê-las perceber que o que fazemos não é para termos visibilidade, mas para o bem de todos.” 

Emília Carvalho pensa que antes de ser enfermeira, antes de ser membro da Assembleia, é pessoa. “Para ser melhor enfermeira e para ser melhor membro da assembleia, eu tenho de ser melhor pessoa ainda. Falta-me melhorar cada vez mais o meu eu. Falta-me abanar a consciência das pessoas e fazê-las perceber que o que fazemos não é para termos visibilidade, mas para o bem de todos”, garante. 

“Queria trazer para a política local esta forma de estar: o executivo que ganha é o que faz, mas temos a Assembleia que também deve estar envolvida, mesmo sendo elementos da oposição. Devíamos fazer em conjunto algo para o bem comum”, afirma. 

Neste momento, “estou na fase da vida em que estou a trabalhar a minha flexibilidade pessoal para ultrapassar a falta de noção do ridículo do que se diz”, expõe. Na vida, acredita que cada um é responsável pela sua felicidade e o que pretende “é incutir nos jovens que temos de estar nos locais por mérito e não pelo fator cunha”. 

“Com a covid-19, devemos aprender a cumprir com os direitos e deveres cívicos, respeitando o ambiente e promover o humanismo”, termina. 

1 Comment

  1. Manuel Sousa.

    A minha grande admiração por esta Lousadense. Uma grande mulher uma grande enfermeira que põe os interesses dos outros acima de tudo. Um bem haja.

    Reply

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