Emília Sapateira, uma mulher que quebrou barreiras e preconceitos

Por José Carlos Carvalheiras

Às portas do dia internacional da mulher deste ano (8 de março), trago aos Louzadenses com Alma a história de uma mulher que foi um exemplo de defesa dos ideais femininos. Maria Emília Coelho Alves, do lugar de Moreira, da freguesia de Sousela, em Lousada, ficou conhecida por Emília Sapateira ou pelo diminutivo “S’Mila”, que era a abreviatura de Senhora Emília. 

Foi casada com José Gonçalves da Costa, industrial de calçado de Sousela, que faleceu em 12 de setembro de 1965, aos 39 anos de idade, num acidente de motorizada que chocou a população daquele lugar, pois além de ser pessoa muito estimada deixava seis filhos todos menores (a mais velha com 14 e a mais nova com 1 ano de idade): Dina, Teresa, José, Ernesto, Leonardo e Laura. A viúva Maria Emília, que tinha 35 anos, viu-se de repente com seis crianças para criar e um negócio para gerir. Não se deixou atemorizar e empreendeu sozinha a função de mãe e de trabalhadora, com uma estoicidade e empenho notáveis.

Desde muito nova que Maria Emília deu a entender que seria uma mulher destemida e determinada. Começou a namorar com José aos 15 anos e casou aos 20. Eram ambos progressistas no pensar e nos ideais. Ajudou José Gonçalves da Costa a instalar uma oficina de reparação de calçado usado e produção de calçado novo, nos fundos da casa, em Moreira, dando seguimento a uma atividade que já vinha da família dele. Além do empreendedorismo laboral, José ficou conhecido por ser um democrata e contestatário do antigo regime. Dizem os seus contemporâneos, que em certas noites ele juntava-se com alguns empregados e amigos para ouvir às escondidas a Rádio Portugal Livre, que atacava a ditadura de Salazar. A esposa partilhava desses ideais e com o marido chegou a ir a um comício de Humberto Delgado, em Guimarães, em 1958.

O futebol foi uma das paixões de José Gonçalves da Costa, que contribuiu decisivamente para a construção do campo de futebol de Moreira, que tem o seu nome. Tal como o marido, também Maria Emília gostava de futebol em geral e do Freamunde em especial. Em finais da década de 1950 era difícil ver uma mulher a assistir a um jogo de futebol em Portugal e diz quem sabe que em Freamunde a primeira foi Maria Emília, que a convite do marido foi com ele de motorizada, mas não sem que antes ele a avisasse que não havia mulheres a assistir ao jogo, mas nem por isso ela se conteve. Também iam ao cinema ao Porto, igualmente de motorizada, eventos esses que figuraram entre as memórias prediletas desta senhora.

Poucos anos depois de enviuvar, Maria Emília decidiu mudar a estratégia do negócio: passou a dedicar-se ao comércio e deixou a indústria do calçado, embora tenha mantido a oficina de reparação, onde trabalhava o seu filho Leonardo. 

Maria Emília orgulhava-se em dizer que, durante 22 anos percorreu a pé, com um saco na cabeça e outro no braço, desde Moreira (Lousada) a Sobrosa (Paredes), passando por Paços de Ferreira, Freamunde e Senhora da Luz. Vendia todo o tipo de calçado, que comprava à consignação em fábricas e fornecedores de Lousada, Felgueiras e até Guimarães.

Maria Emília Coelho Alves faleceu em 28 de novembro de 2019, a menos de um mês de completar 90 anos. 

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