por | 13 Abr, 2021 | Opinião

“Eu, tu, ele, nós, vós, eles”

Opinião de Vítor Silva – militante da JS Lousada

Com a notícia mais badalada da semana passada, a absolvição de José Sócrates de 25 crimes a si imputados, surge uma questão: a corrupção só deve ter relevo quando se trata de corrupção política e quando esta se envolve com o tráfico de influências? O que é corrupção?

Segundo o código penal, corrupção resume-se a ”Quem, por si ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, der ou prometer a funcionário, ou a terceiro por indicação ou com conhecimento daquele, vantagem patrimonial ou não patrimonial (…)” quer do lado ativo, quer do lado passivo.

Já o priberam ou qualquer outro dicionário, no formato físico ou digital, corrupção significa o “comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio “, isto é, eu ou qualquer um dos comuns dos mortais poderá ser considerado corrupto, tal como um político, quando, por exemplo, simulo o dano involuntário de um objeto para ativar o seguro sobre esse, quando “desvio” uma caneta do meu local de trabalho, quando uso o carro da minha entidade patronal para uso pessoal para poupar combustível da minha viatura própria… Bem sei que os exemplos que acabo de dar não são corrupção pura na acepção do direito, mas refiro-me a todo o ato que tem índole corrupta e que pode fazer de nós corruptos no prisma leigo da sociedade.

Na acepção do direito e no que diz respeito à corrupção , sabem quantas milhares de pessoas criticam e julgam Sócrates, mas deram a chamada “gorjeta” ao engenheiro, de forma a assegurarem a sua aprovação, no seu exame de condução? Demoramos dias a contabilizar.

Mas falemos na acepção geral e no que se dissemina em ato corrupto.A corrupção está entranhada na sociedade e não é somente um hábito da esfera política. O que me faz ter uma introspecção: com os acessos e influência de José Sócrates, bem como o desempenho do seu cargo, alguém de nós que assistimos e julgámos faríamos diferente? “À mulher de César não basta parecer séria, é preciso ser”.

Tudo começa no nosso dia a dia e com o ato mais diminuto que possamos ter. Além do mais, a corrupção não deve ser realçada quando provém do clube ou do partido da nossa oposição. Não deve interessar apenas quando é cometida por outrem ou pela classe política e com o pretexto de que é dinheiro do Estado ou fundamentada com a máxima de que “o Estado somos nós”.

A corrupção começa com o ato mais insignificante no nosso dia a dia e que nós temos proveito próprio. E lembrem-se: o mesmo que julga nas redes sociais um político corrupto, é o mesmo que comete o crime de evasão fiscal ao não declarar os seus rendimentos na íntegra, é o mesmo que compra roupa contrafeita, é o mesmo que vê filmes em plataformas clandestinas, é o mesmo que ouve música num Spotify pirata, etc..Numa sociedade cheia de podridão, não basta ser sério, sejam também coerentes.

Atentem que a corrupção não deve ser contábil, ou se é corrupto ou não se é. E, no fim, já fomos ou somos todos corruptos com atitudes inconscientes. Se o Estado somos todos nós, contribuintes, não sejamos José Sócrates. Vamos todos pensar individualmente nas nossas condutas diárias, com vista a agir conjuntamente para o que se vislumbra como o melhor para um Estado que é de todos nós.

Coloquemos a primeira pessoa do plural acima da primeira pessoa do singular e não deixemos que a “nossa” chico espertice nos leve a cometer atos que prejudicam o resto da sociedade.

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