Jorge Vieira: veterinário por vocação
Filho de pais lousadenses a viver em Angola, desse país trouxe uma infância feliz e boas memórias da juventude. Gosta de passar discreto e ter a capacidade de reconhecer qualquer erro. Define-se como sociável e honesto e acredita que é assim que deve educar os seus filhos. Jorge Vieira, que já se sente um lousadense, é veterinário e esteve na direção da Assembleia Lousadense e da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada. 

Jorge Vieira nasceu em Angola, em 1955. Passou grande parte da sua infância e juventude em Sá da Bandeira, onde frequentou a escola primária e o liceu, mais conhecida por Lubango, no distrito de Huíla, até à independência de Angola. Um mês antes da independência, regressaram a Portugal Continental. 

“A minha mãe era oriunda da freguesia de Alvarenga e o meu pai em Vilar do Torno e Alentém. Fiz novos amigos, porque todos os amigos da adolescência desapareceram. A partir daí, fui conhecendo pessoas e criando novas amizades e fez com que me agarrasse a esta terra que gosto muito. Hoje considero-me um lousadense”, conta. 

Após a mudança, decidiu voltar a estudar e, por isso, mudou-se para Lisboa onde concluiu os estudos em Medicina Veterinária, na Escola Superior de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa. 

Apesar de hoje se sentir um lousadense, nem sempre foi assim: “no início não, não conhecia ninguém. Tinha vindo com os meus pais a Portugal Continental, mas tinha cinco ou seis anos, durante as férias. Não me recordava praticamente de nada. Nunca mais visitei Angola, nem tenho vontade. Acho que se fosse lá ficava muito dececionado, por aquilo que me contam e pelas imagens da comunicação social, daquilo que eu vivi lá e do que é agora. Há muita coisa destruída, as condições sanitárias não são as melhores e está muito diferente. Eu quando vim ainda sentia saudades, porque era a minha terra, mas vi tanta adversidade e fizeram tão mal aquele povo que me levou a nunca mais pensar em regressar”, lamenta.

Vocação para ser veterinário 

O gosto pelos animais, refere, vem desde muito cedo e sempre teve essa vocação: “tive a sorte de ir para o curso que gostava. Hoje é um bocadinho diferente, nem todos conseguem frequentar o curso da sua vocação até porque as circunstâncias são outras”. 

Terminados os estudos, regressa a Lousada, em 1983. Começou a trabalhar por conta própria, exercendo clínica de grandes animais, porque “na altura não havia consultórios e as pessoas não cuidavam muito ou quase nada dos animais de companhia. Os animais de companhia vieram mais tarde e só nos últimos 15 anos é que as pessoas começaram a olhar de outra forma para estes animais. Hoje em dia as explorações agro-pecuárias (vacarias) praticamente desapareceram”, revela. 

“Os animais de companhia vieram mais tarde e só nos últimos 15 anos é que as pessoas começaram a olhar de outra forma para estes animais.”

“Como éramos pouco veterinários, eram os produtores que nos procuravam. Começávamos a fazer consultas e a palavra ia passando. Nesse aspeto, a integração foi fácil”, acrescenta. Em 1984, concorreu à Câmara de Mesão Frio e tomou posse do cargo nesse ano como veterinário municipal, onde esteve cerca de cinco anos e foi, ainda, diretor do Matadouro Municipal. 

Em 1989, o Município de Lousada abriu um concurso público para veterinário municipal e Jorge Vieira tomou posse nesse mesmo ano. Aí, o veterinário fixa-se definitivamente em Lousada. “Tomei posse na câmara, tinha o meu emprego aqui e conheci a minha esposa, que era daqui. Acabamos por casar em 1987, nasceram os dois filhos e cá fiquei. Gosto de Lousada, é uma terra onde se vive com qualidade de vida, não mudaria”, assevera. 

Prestou, ainda, serviços na Cooperativa Agrícola, onde foi constituída uma organização de produtores pecuários, tendo assumido a coordenação e execução desse Agrupamento de Defesa Sanitário (ADS) que, explica, “cuja função era proceder a colheitas de sangue em animais da espécie bovina – peripneumonia contagiosa e brucelose e tuberculinização- e em pequenos ruminantes (caprinos e ovinos) – brucelose”, desde final de 1989 até dezembro de 2007. A partir dessa data, manteve apenas as funções de veterinário municipal.

A partir de 1990, começou a fazer clínica de animais de companhia, tendo aberto o seu consultório, que mantém até hoje. 

“Hoje temos os canis municipais que, com esta vaga que há de animais vadios ou errantes, estão cheios. Infelizmente, não temos capacidade de resposta para a resolução deste flagelo . Mesmo com o programa de adoção da autarquia, que oferece a vacina antirrábica, a aplicação de microship, o registo na base oficial de dados (SIAC) assim como a esterilização dos animais adotados, há poucas adoções”, alerta. 

Ainda assim, o veterinário lamenta que continue a haver mais entradas do que saídas: “se não forem lá buscar, se não forem adotar, não há espaço, mantendo, quase sempre, o canil sobrelotado e não podemos recolher mais animais.” No entanto, “enquanto for responsável pelo canil tenho de zelar pelo seu bem estar , alojamento e alimentação”, garante. 

“Quem adquire um animal hoje, primeiro tem que pensar se tem condições para o ter, porque isto engloba despesas, de alimentação e veterinárias, e as pessoas que adotam um animal têm que partir desse pressuposto: ‘só vou adotar este animal porque tenho condições para isso’”, alerta. 

“Sou do tempo em que havia muitos bovinos e muitas vacarias que nos ocupavam muito tempo.” 

Com a chegada e fixação em Lousada, foi criando novos amigos e, com eles, novas experiências e convites. “Fui convidado para colaborar com a Associação Desportiva de Lousada (ADL) e pertenci às camadas jovens de futebol, mas só estive lá um ano. Tive muitos anos sendo o único veterinário e o tempo não era muito. Sou do tempo em que havia muitos bovinos e muitas vacarias que nos ocupavam muito tempo”, esclarece. 

Passagem pela Assembleia Louzadense 

Depois da rápida passagem pela ADL, foi convidado para pertencer à direção da Assembleia Louzadense juntamente com mais três dirigentes. “Tivemos um trabalho árduo. Na altura, a Assembleia estava com as instalações muito degradadas e numa situação em que precisava de novas atividades. Por isso, começámos a enveredar esforços obtendo alguns subsídios de várias entidades e foi quando ampliamos as instalações, onde ainda hoje funciona o espaço AJE (Artes, Juventude e Europa). Quando as obras ficaram concluídas e o espaço reunia as condições de funcionamento, retiramo-nos”, lembra

“Foi um trabalho que nos ocupava muito tempo, porque tínhamos de ir bater a muitas portas para conseguir o que conseguimos.” 

No que diz respeito à gestão, garante que “foi muito difícil, porque não havia recursos, partimos praticamente do zero. Para além da ajuda da Câmara, tivemos a ajuda do Governo Civil do Porto, mas foi um trabalho que nos ocupava muito tempo, porque tínhamos de ir bater a muitas portas para conseguir o que conseguimos. As instalações estavam mesmo degradadas e foi um trabalho árduo de todos os elementos. Acabei por me afastar e há muito tempo que não vou lá”. 

Bombeiros marcam o seu percurso

Em 1994, decidiu abraçar a causa da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Lousada, onde esteve cerca de oito anos, seis como vice-presidente e dois como presidente. “Estive lá com gosto, porque realmente é uma entidade que merece que façamos alguns sacrifícios”, recorda. 

“O tempo que estive lá, estive com gosto e hoje faria o mesmo, foi uma instituição que me marcou, porque tem uma atividade louvável.” 

“Quando entramos para a direção, coincidiu com a ampliação do quartel, aquela parte onde têm hoje os autotanques estava em grosso, foi tudo remodelado e fizemos os salões. Ao fim de oito anos, vim embora, porque também achava que já tinha dado o meu tempo aos bombeiros e, como digo, também não tinha muito tempo livre. O tempo que estive lá, estive com gosto e hoje faria o mesmo, foi uma instituição que me marcou porque tem uma atividade louvável”, confirma o veterinário. 

Hoje, continua sócio e revela que foi das associações que mais marcou o seu percurso, tendo em conta o trabalho humanitário. Durante o seu mandato, o que mais recorda é “a homenagem ao Antigo Comandante dos Bombeiros, o senhor Amílcar Neto. Foi um homem que deu a sua vida aquela casa. Foi um marco e uma homenagem merecida”.

 “O resto, tudo o que demos e podíamos dar para o corpo ativo funcionar, tudo o que estava dentro das nossas possibilidades, nós demos. Tivemos de renovar alguma frota, tanto em autotanques como em ambulâncias, porque quando chegámos o parque automóvel era antigo e teve de ser renovado”, expõe. 

Questionado sobre se voltaria a abraçar uma nova associação, não hesita: “depende, o problema sempre foi o tempo livre que nunca tive muito. Mas acho que já dei o meu contributo a este concelho”.

1 Comment

  1. IDALINA DE MAGALHAES

    A este actual Lousadense e ex Angolano de coração, a admiração de uma Angolana de nascimento e Cascalense de coração!

    Reply

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