por | 30 Jun, 2021 | Canto do saber, Opinião

O luto como exposição da resistência

Opinião de Eduardo Moreira da Silva

As pessoas na contemporaneidade apegadas ao desenvolvimento que é confundido com progresso, deixam-se igualar. Uma igualação que assenta em estereótipos, em lugares-comuns que servem de padrão de nivelamento. Um nivelamento feito por baixo.

Note-se que falo em igualar e não em obter igualdade. Igualdade, aquela que diz respeito a considerar todo o ser humano como um indivíduo que se distingue de todo outro, isso é outra coisa, aí há progresso. Um progresso no sentido de eliminar as desigualdades radicais que subsistem neste nosso mundo.

É comum ouvir-se reclamar pelos valores. No entanto, passando à frente de que a esses valores correspondem considerações de ordem moral do indivíduo que as profere e dificilmente com algum critério ético de facto, a verdade é que, sem se aperceber, o indivíduo vai perdendo cada vez mais propriedades humanas, no sentido do humanismo que aponta à essência do que é ser humano.

Há falta de perceção da perda de humanidade em prol do desempenho, da falta de resistência à transparência digital e não só, da modelação do sujeito a partir de algoritmos e ações destinadas à docilidade, etc. Nesta ausência de perceção é que reside o problema, pois há uma morte, uma mortificação do ser. Morte que consuma sem luto.

O luto é algo que dignifica a morte, dá importância à vida que desaparece, perda que considera como inaceitável e até injusta. Algo que choca e indigna. Sem luto não há dignidade, apenas incerteza e uma espécie de entorpecimento que não permite o avanço, a referência perde-se. O ser humano vive de referências.

Desta maneira, voltando à população, constituindo-se ela seja de que forma for, a mesma só poderá constituir-se de enlutabilidade, como diz Judith Butler (pensadora e ativista) quando esta característica é atribuída por algum grupo ou comunidade, quer no âmbito dos termos de um discurso, quer no âmbito dos termos de uma política ou instituição. No entanto, esta característica só pode ocorrer enquanto a perda puder ser reconhecida. Reconhecimento que só de dá a partir de condições criadas a partir de uma língua, de um meio de comunicação social, de alguma categoria de domínio cultural e intersubjetivo de qualquer tipo. O reconhecimento pode também acontecer quando forças culturais trabalham no sentido de o evitar, como acontece muito na contemporaneidade, mas tal exige uma forma de protesto que possa quebrar a norma obrigatória e triste de negação, ativando a perceção pública da enlutabilidade, conferindo-lhe novos limites e estabelecendo novos termos de reconhecimento e resistência.

Está fácil de ver, que a literacia, em todos os casos, é absolutamente necessária. O recurso a toda a categoria de ação cultural é fundamental, mas não chega. Há que construir toda uma capacidade de perceção daquilo que nos rodeia e nos leva à aceitação sem questionamento de formas de castramento crescente da qualidade que temos de seres humanos. Uma perceção que possui as suas bases no luto, no luto que dignifica aquilo que podemos perder. Perda que, repito, é não só inaceitável como injusta, porque vemos um mundo cada vez mais desigual. É um luto pela igualdade, pela verdadeira igualdade entre indivíduos diferentes na sua humanidade. Igualdade que é uma utopia, mas que só é utopia enquanto a reconhecermos como tal. Quando desistirmos completamente da utopia, então a morte consumou-se… Sem luto! 

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