por | 30 Jun, 2021 | Cultura, Louzadense com Alma

Ângelo Teixeira Marques, um artista dos festejos populares

Por José Carlos Carvalheiras

Nesta época em que se celebra os santos populares, proponho recordar nos Louzadenses com Alma desta edição um devoto confesso dos santos populares, sobretudo de São João, o santo que se festejava em Lousada antes do Senhor dos Aflitos. Chamava-se Ângelo Teixeira Marques, mas ficou conhecido pelo carinhoso diminutivo “Ginho”.

No livro “Centenário da Festa Grande do Concelho de Lousada”, de Mário Fonseca et al. (2005), lê-se acerca da substituição dos festejos em honra das referidas entidades: “(…) Podemos encontrar em crónicas antigas referências à romaria de Lousada, e nelas descobrimos que os festejos não foram sempre efetuados em honra do Senhor dos Aflitos: “O galhofeiro e popular S. João foi o primeiro santo que a piedade e fé lousadense resolveram festejar” (in O Heraldo, pág. 2, de 19 de Agosto de 1939). No Século XIX era esse o santo padroeiro festejado pelos lousadenses, mas não parecia reunir o consenso dos membros da Santa Casa da Misericórdia, entidade que se acabara de constituir. Esta entidade pretendia realizar festejos mais solenes e religiosos e assim passou a venerar o patrono do seu templo, o Senhor dos Aflitos (…)”.

Mas a ancestral tradição de festejar o São João não se apagou em Lousada, muito por força do empenho e devoção de Ângelo Teixeira Marques.

Este cidadão era natural de Idães (Felgueiras), onde nasceu em 29 de Fevereiro de 1897, mas foi registado no dia 28, para que pudesse celebrar aniversário no mesmo dia, todos os anos.

Ainda bastante novo, em data que não me foi possível precisar, veio com a família residir para Lousada, onde casou com Albertina Dâmaso Marques e de cujo matrimónio n. Teve uma primeira morada na Rua Visconde de Alentém e, mais tarde, na rua Dr. Pinto de Mesquita.

Foi um competentíssimo e estimado funcionário da Conservatória do Registo Predial de Lousada, que funcionava no rés-do-chão do edifício dos Paços do Concelho. Ali desempenhou diversos cargos, terminando a carreira profissional em 1967, como Ajudante do Conservador.

Ginho Marques era um aficionado dos santos populares e nos tempos livres dedicava-se à preparação de cascatas para os dias de festa dos santos populares, São Pedro, Santo António e São João.

Começou por fazer cascatas pequenas, mas estas foram aumentando de amplitude, ganhando fama e motivando a visita de muitos forasteiros, que nesses dias acorriam aos terrenos de sua casa. O êxito de tal empreitada levou a que a mesma fosse erigida no frontispício dos Paços do Concelho. As engenhosas cascatas de Ginho Marques eram enaltecidas por todos devido à sua graciosidade e movimento. Nessas construções repletas de miniaturas era possível encontrar moinhos de água, chafarizes, comboios, carrosséis, elevadores, coretos com bandas de música e, o mais interessante é que era tudo movido a água.

Ao mesmo tempo a sua arte e engenho foi posta ao dispor da Festa Grande, fazendo com que Ginho Marques ficasse na história local como um dos festeiros mais dedicados a este evento lousadense durante cerca de quatro décadas. Com a colaboração dos irmãos Barros (Alexandre, Gaspar, Rogério e Constantino), dos familiares mais próximos e de vários vizinhos, este artista promovia a confeção de balões e faróis de papel para iluminar as festas.

O lousadense Agostinho Barros, de 75 anos, recorda de ver o seu pai, Rogério Barros, e os seus tios, a colaborar com as empreitadas festivas e etnográficas de Ginho Marques. “Todo o trabalho de Ginho Marques deve ser enaltecido e recordado. Foi uma pessoa notável da cultura e do recreio em Lousada. É provável que as cascatas já existissem em Lousada antes da década de 1950, mas é desse tempo que tenho as primeiras memórias acerca disso. O que mais me impressionava era o movimento de várias peças, usando simplesmente a pressão da água, num complexo encadeamento de figuras e engenhos que ganhavam vida e a todos encantavam”, refere Agostinho Barros.

Além dos faróis e dos balões, Ginho Marques confecionava sebo e pavio para milhares de tigelinhas de barro que encandeavam o Jardim do Senhor dos Aflitos na noite de domingo da Festa Grande. Nos últimos anos de vida, Ginho Marques transmitiu os ensinamentos dessa arte a Pedro Renato Silva, que recorda assim esses tempos: “foi ele quem me transmitiu o gosto pela confeção de faróis que ainda hoje faço. O Ginho Marques era uma pessoa extremamente perfeccionista, tanto a fazer como a ensinar e por isso aprendi facilmente esta arte”.

“Dizem os mais antigos que, nas épocas em que a eletricidade era rara, aquele panorama luminoso visto ao longe fazia parecer que o céu estrelado se prolongava para a terra. De ano para ano aumentava o número de tigelinhas. Cartazes antigos da Festa Grande dizem que o jardim iria ser iluminado com… 50.000 lumes!” (in “Centenário da Festa Grande do Concelho de Lousada”, de Mário Fonseca et al. (2005), pág. 33).

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Foi hoje inaugurado, na Escola Secundária de Paços de Ferreira, um projeto inovador e sustentável:...

Lousadense Beatriz Ferreira mobiliza comunidade para apoiar escolas em Cabo Verde

A solidariedade volta a ganhar voz em Lousada pelas mãos de Beatriz Ferreira, jovem lousadense que...

Na última sessão da Assembleia Municipal de Lousada, perguntei ao executivo que estratégia tem...

“Contas certas não significam contas justas nem desenvolvimento real”

Na mais recente Nota de Imprensa do PSD Lousada, o partido "manifesta a sua profunda preocupação e...

Crédito Agrícola perde em tribunal

O Supremo Tribunal condenou a Caixa Agrícola a pagar e reintegrar Susana Faria, mantendo a decisão...

AGRADECIMENTO

COM ETERNA GRATIDÃO, eu, Maria Irene Monteiro, venho, através d’ O Louzadense, agradecer o imenso...

Montalegre voltou a ser palco de mais uma jornada intensa do Campeonato Nacional de Rallycross...

Os maiores inimigos da liberdade, ironicamente, são, precisamente, aqueles que dizem ser os seus...

Editorial 163 | Pseudo Abrilistas

São 52 anos de Abril, 50 anos da Constituição da República e, muito em breve, 50 anos do Poder...

Quando a igualdade falha, a democracia enfraquece

Fala-se frequentemente de democracia e liberdade como valores adquiridos, quase garantidos, em...

Siga-nos nas redes sociais