por | 28 Jul, 2021 | Espaço Cidadania, Sociedade

Marta Moreira: artista em constante mutação

Nasceu em Meinedo, em 1990, embora tenha passado parte da sua vida em Boim. Marta Moreira é professora e define-se como uma artista multidisciplinar. Com uma forte ligação às artes, publicou, recentemente, o seu livro de contos “Humanário”, que será apresentado em Lousada no final do mês de julho. 

O seu percurso nas artes começa bem cedo quando, aos cinco anos, ingressa no Conservatório do Vale do Sousa, onde estudou piano. Mais tarde, teve oportunidade de experimentar o Teatro, na Nova Oficina de Teatro, dirigida pela professora Capitolina Oliveira, e tem vindo a dedicar a sua vida a diversas atividades no mundo das artes.

A sua infância foi entre a livraria e a biblioteca, onde passava grande parte dos tempos livres. “Conhecia as coleções todas e sabia quando é que chegava uma nova. Uma das coisas que gostava muito eram os clubes de leitores. A minha vida desenvolveu-se sempre em volta destas três coisas”, comenta. 

“Quando entrei no conservatório, não queria estudar piano, queria estudar violino. Ainda bem que não havia, porque hoje em dia não é um instrumento que aprecie. Naquela altura ainda só havia quatro instrumentos: piano, guitarra, flauta e acordeão”, revela. 

No 9.º ano, altura de escolher um rumo profissional, optou pela música. “Foi uma decisão muito complicada e esse foi um ano muito marcante, porque na escola, a pessoa responsável pela orientação vocacional, não compreendia a minha opção, porque tinha boas notas e entendia que tinha de seguir medicina. Isso para mim foi uma coisa muito violenta, porque nunca ninguém me tinha tentado impor um caminho, em minha casa não havia disso”, lamenta. 

“Isso para mim foi uma coisa muito violenta, porque nunca ninguém me tinha tentado impor um caminho.” 

Apesar das dificuldades, concluiu o ensino secundário em música, no Conservatório do Vale do Sousa. Mais tarde, licenciou-se em Piano, na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), no Instituto Politécnico do Porto, e realizou o mestrado em Ensino da Música. Ao longo dos últimos dez anos, apesar da formação como pianista, nunca se definiu como um pianista clássico, “como temos um bom exemplo em Lousada, o João Xavier”, refere.

“Nunca procurei esse percurso, fui procurando o meu caminho. Sou professora e a última definição que se enquadra melhor em mim é ser uma artista multidisciplinar. Sou alguém que está ligado ao campo das artes e que está sempre a tentar cruzar as fronteiras entre as diferentes disciplinas artísticas, nomeadamente a música, a literatura, a performance e as media artes”, confirma Marta Moreira. 

Percurso profissional 

Na vida profissional, é professora há cerca de dez anos. Começou por dar aulas nas Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) em diversas escolas e jardins de infância, ainda antes de terminar o curso. Mais tarde, lecionou nos Conservatórios de Música, em Famalicão e, recentemente, em Lousada, onde regressou em 2015. 

A passagem por Famalicão despertou em si uma nova atividade: o sindicalismo. “Sou dirigente sindical, além de ativista de causas várias e perdidas todas”, brinca. Esta ligação tornou-se oficial este ano, depois de ser eleita Dirigente Sindical há poucos meses. 

À escrita, dedica-se desde 2015. “Foi o ano em que decidi que ia deixar de escrever para ficar na gaveta, mas para publicar. Só consegui acabar alguma coisa que me satisfizesse em 2018. E só consegui publicar em 2021”, conta. 

Também recentemente, decidiu abandonar alguns projetos e dedicar-se ao que realmente acreditava. “A minha energia estava a ser canalizada para projetos que eu não acreditava muito. Mesmo que seja uma opção que me transtorna um pouco a vida, principalmente a nível monetário, ao mesmo tempo, não me consigo imaginar a voltar atrás, a voltar a ter um trabalho contratado das 9 às 17 horas. Já não consigo imaginar esse modo de viver”, reflete. 

“HUMANÁRIO” 

Apesar de não ser o primeiro livro que termina, é o primeiro publicado. “O Humanário é um ciclo de dez contos, neste primeiro volume estão três e, portanto, ainda há mais contos que serão agrupados num outro volume. Os contos surgem depois de um período a batalhar com as editoras e a tentar publicar. Contactei 30 editoras para o publicar, sempre com uma resposta negativa”, recorda. 

“Contactei 30 editoras para o publicar, sempre com uma resposta negativa.”

“Já tinha publicado em revistas, nomeadamente poesia. No meio de tudo isto, concorri a imensos concursos literários. O último, que já recebi a confirmação que venci, vai ser publicado no Brasil, só não sei qual, porque concorri às três categorias possíveis”, brinca. 

O livro foi apresentado na Feira do Livro, em Braga, dia 25 de julho. Em Lousada, será apresentado na Livraria Puro Flow, no próximo sábado, dia 30.  

Artista rica em experiências 

Com uma vida artística rica em experiências, entre a música e o teatro, a literatura e o ensino, mais recentemente, durante o primeiro estado de emergência, em março do ano passado, Marta Moreira fundou a “Plataforma do Pandemónio”, um coletivo de criação artística. 

“Realiza-me mesmo muito e foi uma coisa que não foi planeada, como a maioria da minha vida. Durante o primeiro confinamento juntei uma série de amigos que depois se transformou numa associação sem fins lucrativos, na qual sou Diretora Artística. Fazemos criação artística, programação e mediação cultural. Esse trabalho é uma coisa que me tem realizado muito”, reflete. 

Este é um lado criativo que já existia, mas que “só me apercebi agora. Nas escolas sempre organizei espetáculos, criei guiões, sempre produzi, mas não se chamava assim. Quando percebi que era uma coisa que sou boa a fazer, percebi que fazia sentido tentar torná-la uma forma de estar profissionalmente”, revela. 

“É importante crescer o suficiente para ter segurança naquilo que se está a fazer.”

Para quem sonha com o mundo das artes, Marta Moreira revela que o melhor conselho que pode dar é alertar que “é muito importante sairmos de nós próprios e sairmos da noção de que somos muito especiais. Isto é uma armadilha muito grande. A nós, fizeram-nos acreditar que somos muito especiais e, como somos muito especiais, temos direito a tudo. É verdade que temos direitos, mas não somos assim tão especiais, somos todos iguais. Acreditar nisso faz-nos sentir mais impotentes e faz com que não consigamos ouvir os ‘nãos’”. 

“É importante crescer o suficiente para ter segurança naquilo que se está a fazer. Para saber que o caminho é aquele, não importa quantas vezes nos digam que não. Isto só se consegue com muita experiência”, termina. 

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