António Quintela é um apaixonado pelo colecionismo. Dentro de casa, guarda tesouros e relíquias do passado e uma paixão pela arte de colecionar e comprar novas peças. Nasceu em Lodares, mas desde tenra idade que faz a sua vida em Nespereira e foi lá que desenvolveu a sua vida social, sendo membro da Junta de Freguesia e presidente do Rancho Folclórico Flores da Primavera de Nespereira.
O calendário marcava o ano de 1949 quando nasceu António Quintela, na freguesia de Lodares. Define-se como uma pessoa feliz e grata à vida pelas experiências que lhe proporcionou. Aos 15 anos, ingressou no Rancho Folclórico Flores da Primavera de Nespereira, onde conheceu a sua esposa, Maria Emília Leal, e decidiu ficar até aos dias de hoje.
“Fui um criado de servir, trabalhei na lavoura das seis da manhã até à meia-noite. Ia para os campos com os cestos às costas. Deitávamos-nos à uma da manhã e às seis tínhamos de levantar e ir cortar marto. Uma vida que eu passei amarga, mas que me fez dar mais valor às coisas”, refere António Quintela.
“Fui um criado de servir, deitávamos-nos à uma da manhã e às seis tínhamos de levantar e ir cortar mato.”
Ainda antes de completar a 4.ª classe, na Escola de Lodares, o falecimento do seu pai viria a mudar o rumo da sua vida. “Com 17 anos já era um criado de servir numa grande quinta, a Quinta da Lavandeira, em Nevogilde, era a arte desse tempo. As pessoas já confiavam muito em mim e no meu trabalho”, confirma.

“Preocupava-me em fazer sempre o melhor em tudo o que fazia. Hoje, sinto-me feliz por tudo o que passei. Fui um criado de servir abandonado pelos pais, porque o meu pai faleceu e a minha mãe não conseguiu orientar a quinta e vendeu tudo, mas sinto-me feliz por ter feito o que fiz”, recorda.
Cumprir o serviço militar
Em 1970, com apenas 20 anos, cumpriu o serviço militar obrigatório na altura, em Angola. “Tirei a especialidade, fui para Angola e fui condutor de camiões. Tirei a carta de condução civil ainda lá”, revela António, acrescentando que “estive lá 26 meses, amarguei muito e hoje não tenho direitos nenhuns. Passamos lá muitos sacrifícios, muita fome e muita sede. Passei dias sem comer”.
O ex-militar acredita que “há cada vez menos pessoas que lutaram naquele tempo pelas colónias portuguesas e era mais do que altura de dar um benefício a quem lá esteve. Tínhamos de aguentar tudo. Ter de atravessar um rio de camião não é fácil, os colegas colocavam árvores e não me podia descuidar. Passamos coisas terríveis. Não há ninguém que dê valor ao sacrifício que todos passamos. Não éramos voluntários”
“Perdi muitos colegas, outros ficaram sem pernas, outros sem braços. Foi terrível. Hoje ninguém imagina o que passei por lá.”
“Perdi muitos colegas, outros ficaram sem pernas, outros sem braços. Foi terrível. Hoje ninguém imagina o que passei por lá. Vem-me muitas vezes à cabeça aquilo que lá passei”, lamenta Quintela.

Regressado a Portugal, depois de cerca de dois anos, “segui outro caminho que não a lavoura. Ingressei na Portugal Telecom, hoje Altice Portugal. Tirei o 12.º ano de noite e tirei o curso de eletrotécnico, na Escola de Telecomunicações da Universidade de Aveiro”, revela.
“Depois de fazer essa formação, fui coordenador administrativo. Sinto-me feliz por ter chegado onde cheguei depois de ter sido um criado de servir. Depois de trabalhar duro, nos bois, na terra. Além do sacrifício que tive, tive depois esse benefício”, orgulha-se.
Se voltasse atrás, gostava de ter realizado o curso de Engenharia, “não para exercer, mas pela vaidade de ter conseguido. É aquilo que hoje me arrependo de não ter ido fazer. Mas aprendi muito e sinto-me satisfeito”, conta.
Paixão pelo colecionismo
Como trabalhava na agricultura desde criança, assim que regressou do serviço militar tinha muitas saudades do campo. “Começaram a aparecer os tratores e máquinas agrícolas e eu comecei a arrecadar os carros de bois e tudo com que trabalhava antigamente. Então, num cantinho, tinha tudo isso, onde guardava os materiais depois de os utilizar no meu terreno, no final do verão. Um dia, um amigo entrou aqui e disse ‘isto parece um museu’”, conta o colecionador.
“Aquilo ficou-me na cabeça. Passado uns meses, realizou-se a festa do São Braz em Nespereira. Naquele tempo, vendiam-se prendas para se fazer algum dinheiro, onde encontrei esta famosa chave. O leilão começou em 50 centavos, e foi subindo até terminar em 121. Naquela altura, a minha mulher ia à mercearia e não gastava esse dinheiro nos produtos para todo o mês”, revela.

“Pensei que aquela fosse a chave para quando tivesse um museu”, explica, e assim começou a aventura de guardar um verdadeiro museu dentro de portas, com mais de 60 mil peças. Começou por colecionar tudo o que conhecia da agricultura: “carros de bois, semeadores, limpadores, máquinas de sulfatar, tudo o que seja da agricultura e que foi substituído pelas máquinas”.
“Comecei a colecionar apenas por prazer meu, nunca fiz isto para que me procurassem.”
Para além da agricultura, “comecei a guardar objetos de outras profissões como a máquina de costura e a bomba de tirar água manualmente”, afirma, explicando que foi sempre “apenas por prazer meu, nunca fiz isto para que me procurassem. Fiz apenas pelo gosto próprio”.
“Hoje louvo o Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Nespereira, José Oliveira Nunes, que fez uma feira aproximada ao século XIX e me convidou. Foi o primeiro Presidente de Junta que me procurou e divulgou a minha arte. Foi a partir daí que o meu museu começou a ter mais visibilidade e as coisas foram evoluindo”, lembra.
Para além do museu, que pode ser visitado, António Quintela já marcou presença em exposições organizadas pela Câmara Municipal e diversas Juntas de Freguesia e tem lugar marcado na Feira de Velharias e Colecionismo de Lousada, que acontece no segundo domingo de cada mês.

Os fins-de-semana são ainda marcados pelas corridas a todas as feiras de norte a sul em busca de novas peças raras e que “tenham sido usadas para aquilo que nasceram, não quero fazer nada de novo”, afirma.
Mas não é apenas pelas antiguidades que António Quintela nutre um sentimento especial. Também a música faz parte dos seus dias e, aos 15 anos, aprendeu a tocar a viola braguesa. Apesar de hoje em dia guardar uma na sua coleção, “infelizmente não é a primeira que tive. Teria muito gosto em tê-la hoje”, afirma, referindo que passa os seus dias a tocar para os seus objetos e peças.
O colecionador alerta, ainda, para a diferenciação entre peça e objeto, exemplificando: “um motor é um objeto que tem várias peças. Se eu disser que isto é uma peça não pode ter mais nada. Se for um objeto, tem de ter várias peças. Há pessoas que confundem as duas coisas”.

“Neste momento não me falta peça nenhuma, não me falta nada. Como eu estou em todas as feiras, apenas à procura de coisas raras, tenho tudo daquilo que imaginava ter e que tive conhecimento ao longo dos anos. Tudo o que imaginava ou que conhecia eu tenho tudo. Simplesmente vou encontrando coisas que desconhecia”, enuncia.
Entrega ao associativismo
Sendo um apreciador de música, a sua vida associativa começou com o ingresso no Rancho Folclórico Flores da Primavera de Nespereira, aos 15 anos. Nesta associação foi dançador, secretário, tesoureiro e, por fim, presidente.
“Tive muito trabalho, mas foi a associação que mais me deu prazer dirigir. Assumi a presidência quando ainda estávamos no prédio antigo, que tinha poucas condições para o rancho ensaiar”, conta.
“Antes de aceitar, fiz o meu relatório, onde mostrei vontade de federar o rancho e colocar senhoras na direção. Assumi e fiz tudo o que entendi e devia fazer.”
Embora não pensasse aceitar de imediato, decidiu abraçar o desafio e fazer o seu projeto. “Não queria ir, mas o presidente ia sair e não tinha pessoa à altura para lá ficar. Então fiz o meu projeto. Precisávamos de fazer remodelações, precisávamos de ter um telefone na sede do rancho. Antes de aceitar, fiz o meu relatório, onde mostrei vontade de federar o rancho e colocar senhoras na direção. Assumi e fiz tudo o que entendi e devia fazer. Atualmente, o rancho continua federado na Federação do Folclore Português”, refere.
Foi, ainda, presidente das Festas de São Braz, em Nespereira, em 1984 e membro da Junta de Freguesia durante quatro anos. Fez parte das primeiras direções da Associação “Vidas em Cena”, foi Diretor Sindical na Portugal Telecom e Diretor da Comissão de Trabalhadores.
“Tenho muito orgulho e foi com muito gosto que participei em diversas atividades. Tive muitos dissabores, como toda a gente, mas, por exemplo no Rancho, tinha um secretário e um tesoureiro que sempre me apoiaram em tudo. Lancei a primeira cassete que o rancho teve oficial e sinto-me satisfeito por ter passado pelo rancho. Só sinto pena de não ter sido presidente da junta”, revela.
Na questão sindical, “o que mais me custou foi as viagens entre o Porto e Lisboa quando participava nas conversações para melhorar as condições dos trabalhadores”, afirma, revelando que “só me faltou tirar um diploma de Engenharia, mas, ainda assim, estudei muito. Tirei, ainda, uma formação em psicologia, que me fez muito jeito na vida pessoal”.
Atualmente, o seu sonho passa por aumentar o espaço do museu “para ter condições para que as pessoas visitem e consigam ver tudo o que está mais escondido”, lamenta. O “Museu Lutiano” já recebeu diversas excursões e visitantes, é de livre visita e, para isso, basta contactar António Quintela através do 963 005 129.












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