Opinião de Marco Sousa
Psicólogo Clínico
São muitos os pais que apresentam o seu filho como uma criança difícil, revoltada ou desmotivada com a escola e/ou família. Ou porque gritam aos pais e colegas, ou porque não se abrem como deviam, ou porque tem comportamentos inaceitáveis ou queixas sintomatológicas sem qualquer razão aparente. Uma criança difícil é uma criança difícil. Devemos ter presente que não existe nenhuma criança igual à outra, e que nenhum de nós sabe sequer as necessidades que essas pequenas criaturas indecifráveis trouxeram quando vieram a este mundo. Só sabemos que desejamos o melhor para elas.
O teu filho ou filha difícil é único e especial, repleto
de potencial e brilho escondido, como um diamante indestrutível que guarda no fundo da sua psique, à espera por compreensão. Na maioria das vezes, são crianças que vivem encarceradas nas suas muralhas internas num espaço tão restrito, onde não conseguem abrir portas nem janelas para expressar as suas emoções ocultas. Por vezes, a emoção oculta encontra-se engenhosamente escondida. Por mais que lhes enchemos de atenção e boas intenções, é importante aprender a seguir a nossa intuição, soltando o nosso lado criativo.
Para facilitar a criança a expressar a sua emoção oculta, podemos: a) Sim ao poder do reforço positivo, como confiança e aceitação. (atenção: a criança tem um sensor incrível para detetar impostores. O reforço terá que ser coerente com o que acreditamos); b) Usar frases-chave repletas de sinceridade e coerência como: “eu confio em ti”, “eu sei que vais superar isto”, “eu sei que és uma criança forte e é por isso que gosto de ti.” PAIS: testem os vossos níveis de sinceridade ao dizerem essas frases. Se tiverem dificuldades, talvez vocês tenham, por sua vez, uma emoção oculta por expressar da vossa infância; c) Se a uma criança difícil recriminamos, castigamos ou desvalorizamos, vamos perpetuar os seus níveis de stress, raiva e ansiedade. Se as crianças difíceis já têm uma baixa auto-estima e se sentem desvalorizadas por se sentirem “diferentes”, o castigo ou reprensão vai alimentar o seu mal-estar.
COMO CHEGAR ATÉ À CRIANÇA DIFICIL?
- Observa, não questiones nem a obrigues a falar. Descobre qual é o momento certo em que a criança se sinta mais cómoda em comunicar.
- Dá-lhe confiança, compreensão e puxa-lhe por um sorriso. As crianças são muito sensíveis ao tom de voz que se coloca quando estamos a comunicar com elas. Procura usar um tom sereno, lento e pausado.
- Não demonstres sarcasmo nem uses risos irónicos na tua abordagem. As crianças sentem perfeitamente quando colocamos esses filtros de arrogância. Quando isso acontece, elas deixam simplesmente de comunicar. Para elas, é fundamental a empatia e compaixão.
Para potenciarem as crianças difíceis a serem uns adultos CONSCIENTES, é importante:
- Ensinar que cada emoção pode transformar-se numa palavra ou num desenho, que a raiva tem forma, que a tristeza pode-se partilhar para aliviar, chorar não é mau e que estás sempre ali para ouvi-la.
- Ensinar a respirar, a relaxar, a canalizar as suas emoções através de atividades físicas, lúdicas ou ar-livre. A natureza é sempre aliada à expressão da emoção.
- Aceitar a frustração (o mundo, por vezes, não é como nós queremos). Temos de aprender a encontrar o nosso lugar.
- Ensinar a ouvir e comunicar com assertividade. Ensinar que falar é tão importante como ouvir. Saber ouvir e saber falar.
- Ensinar que têm responsabilidades, reforçando todos os passos que conseguem dar sozinhos.
Uma emoção oculta bloqueada é como uma espinha entalada na garganta. Se não lhes dermos espaço nem as deixarmos respirar, ela acaba por se entalar e ser guardada bem no fundo da sua psique. Para ajudar uma criança difícil a comunicar, primeiro dissolver os muros com compreensão e aceitação.












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