por | 15 Out, 2021 | Louzadense com Alma

António Augusto de Castro Meireles, o lousadense que bateu em Mário Soares, em Paris

Por José Carlos Carvalheiras

Tal como o célebre realizador de cinema italiano Luchino Visconti, autor da obra-prima “Morte em Veneza”, também António Meireles foi um aristocrata que aderiu aos ideais marxistas. Daí a alcunha que o celebrizou, “Tony Comunista”, o lousadense que deu dois socos a Mário Soares em 1969, quando estavam ambos exilados em Paris.

António Augusto de Castro Meireles nasceu em 20 de Abril de 1937, na freguesia de Lodares, filho de Artur António de Rebelo Carvalho Meireles, da dita freguesia, e de Belmira Fernandes de Sousa Castro, do concelho de Ponte de Lima. 

O seu avô materno, António loureiro Pereira de Castro, foi um destacado republicano de esquerda, presidente da Câmara de Ponte do Lima e “um anti salazarista de gema, amigo ou quase irmão do General Norton de Matos, seu mentor e financiador na campanha eleitoral contra Salazar, tendo sido preso várias vezes pela PIDE”, relata Artur Meireles, seu bisneto.

António Meireles casou com Maria Teresa de Jesus Teles Fernandes e tiveram cinco filhos: Artur António, Rosinda Maria, Maria Emília, João Manuel e Isabel Maria, todos com os sobrenomes Teles de Castro Meireles.

A sua infância foi essencialmente passada em Lodares, Vila do Conde e Ponte de Lima, onde frequentou vários colégios. A adolescência foi passada em Lousada, convivendo com famílias aristocratas locais. Enquanto jovem, destacou-se como corredor de automóveis, caçador e atirador aos pratos, e nestas modalidades conquistou vários prémios nacionais e internacionais.

Filiou-se ao Partido Comunista em 1957 e sempre assumiu a sua ideologia perante a sociedade e o Estado. “Em Lousada, o meu pai depressa encontrou as devidas referências democráticas e revolucionárias. Na campanha eleitoral de Humberto Delgado (1958), por exemplo, na ida a um comício dele, na companhia do Dr. Abílio Alves Moreira, teve um acidente de carro em Covas”, relata o filho Artur. 

As suas ideias progressistas e democráticas motivaram que fosse apelidado de revolucionário e, como consequência, foi perseguido pela PIDE. Por isso teve que recorrer ao exílio político em 1962, refugiando-se em Paris.

Na capital francesa foi tradutor do prestigiado diário “Le Monde” e exerceu funções de apoio aos emigrantes portugueses na Câmara de Saint Dinis.

“Em França, mesmo sendo pequeno, recordo-me de estar com o meu pai em reuniões onde estavam importantes exilados do combate à ditadura portuguesa. Numa dessas reuniões a discussão ficou acesa e o meu pai a chamou «socialista democrático» a alguém, o que não era muito simpático para eles e pegaram-se fisicamente. O meu pai deu-lhe dois murros e só 25 anos mais tarde vim a saber que o tal «socialista democrático» era o Mário Soares”, revela Artur Meireles.

Combativo e distraído

“A nossa casa era ponto de passagem de vários camaradas de luta e exilados, Luís Cília, Padre Francisco Fanhais , José Mário Branco, entre outros”, acrescenta.

Tony Comunista, como era largamente conhecido, era uma pessoa aristocrata e, como tal, com modos urbanos e postura cordata, embora fosse combativo e argumentativo, sobretudo no âmbito político. Marcou presença destacada nas tertúlias, que ocorriam de forma informal, antes e, sobretudo, após o 25 de Abril de 1974, na Assembleia Lousadense, no Café Avenida e na Confeitaria Colmeia.

Também a cordialidade destacava-se sobremaneira na sua conduta. Fazia questão de salientar que não misturava política com amizade. Por isso, era respeitado e estimado por vários quadrantes políticos e sociais lousadenses, onde era visto como um democrata. “Quando se tratava de amizade, a política passava para segundo plano”, sublinha o filho Artur, salientando que “poucos podem gabar-se de ter tido um jantar numa casa brasonada de Lousada (temos Brazão tanto da parte do meu pai como da minha mãe) com Alpoim Calvão, o General Spínola, ambos em fuga e perseguidos pelas força armadas, e o meu primo Pedro Menezes (que foi do ELP-Exercito de  Libertação  Portugal).

Foi um homem muito dedicado às questões sociais e não se furtou a participar no associativismo de forma ativa, conforme aconteceu durante a sua presidência na Associação Desportiva de Lousada.

Nas características pessoais mais salientes neste lousadense destacava-se a distração: “era uma pessoa que se distraía facilmente e não raras vezes o vi a procurar os óculos que estavam subidos na cabeça ou as chaves que tinha na mão”, recorda o filho com um sorriso de saudade.

António Augusto de Castro Meireles faleceu em 6 de Abril de 1995.

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