por | 12 Nov, 2021 | Canto do saber, Opinião

A pobreza é mais do que escassez de rendimento

Opinião de Eduardo Moreira da Silva

No seu livro “O desenvolvimento como Liberdade”, Amartya Sen, conhecido economista e pensador, concetualiza a pobreza como carência de potencialidades básicas. Estas potencialidades são, ao fim e ao cabo, as liberdades concretas necessárias para levar a vida que cada um, no seu pleno direito, valoriza. Neste sentido, a pobreza não assenta apenas na escassez de rendimento, mas na falta do conjunto das potencialidades. Percebe-se, claramente, que na pobreza efetiva existem outras influências para além da pequenez do rendimento. Trata-se de uma relação instrumental entre o baixo rendimento e potencialidade. Relação esta que varia entre comunidades, entre famílias e diferentes indivíduos, isto é, como diz Sen, o impacto do rendimento nas potencialidades é contingente e condicional.

Com efeito, pudemos observar, durante as últimas crises, esta variação em termos de caracterização da pobreza. Facilmente se constatou, que esta é bem diferente dos grandes centros para aqueles menores. O papel da família na mitigação dos efeitos da pobreza parece ser mais efetivo nas pequenas comunidades, facto que esconde por vezes a circunstância da pobreza escondida das novas gerações que se fazem acolher junto dos pais. É um novo tipo de pobreza que faz perceber a perda de rendimento intergeracional. Algo que é ampliado pelas potencialidades que hoje se consideram básicas, as quais diferem daquelas que os nossos pais consideravam. Por exemplo, não ter um computador ou algo similar, hoje constitui, de alguma forma, um sinal de pobreza, quando há uns anos seria até um luxo. 

Mas, a variação a que aludi, pode ser observada no dia a dia de cada um, naquilo que tem a ver com o viver de cada indivíduo. Os exemplos de observação sucedem-se no trabalho, no café, no restaurante, nas escolas, etc. Por muito que relatórios oficiais vão dando conta desta carência de potencialidades, a verdade é que o senso comum continua a ligar a pobreza à indigência. A opinião pública é direcionada à consciencialização em massa da falta de rendimento de alguns, da possibilidade do número destes alguns aumentar, constituindo uma massa informe crescente que assusta e impressiona os não pobres. Algo que não despiciente, já que a pobreza se liga intimamente com os não pobres através deste efeito de choque. A resposta é a caridade, algumas vezes aliada à solidariedade, raras vezes atacando o problema de fundo que está na origem da pobreza que se observa no indivíduo, nesta ou naquela família, na comunidade. 

Este pequeno texto serve de tentativa de consciencialização não só da população, mas de todos os atores sociais que intervêm nesta zona do país e em concreto neste concelho, o de Lousada, publico alvo do “O Louzadense”, para que perante as nuvens que se vislumbram no horizonte, se posicionem no sentido de identificar a pobreza tal como ela é. Há que perceber que a consideração da pobreza a partir, apenas, do rendimento é incapaz de gerar as respostas que, efetivamente, contribuam para debelar desigualdades, para agregar a comunidade, para lhe trazer a necessária harmonia, portanto, de trazer as condições de vida que todos aspiramos. Obviamente que é algo que dá muito mais trabalho, que obriga a uma atenção maior, a uma solidariedade e sobretudo a um grau de fraternidade bastante mais intenso, mas que, estou certo, apesar de tudo, a nossa comunidade, como um todo, é capaz.  

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Vera Silva e Ana Sousa ultrapassam com êxito desafio do Hybrid Day em Beja 

Num ambiente com temperatura nos 38°, as atletas lousadenses Vera Silva e Ana Sousa lançam-se no...

AMBIENTE & PATRIMÓNIO, POR ERNESTO GONÇALVES ________________ A UVA — Entre a terra, o trabalho e a memória

A uva, o cacho, a vide, a videira, a ramada, o bardo, o esteio, a vindima, o vinho, o bagaço, a...

Casa do Rio: quando preservar o passado é também preparar o futuro

Há datas que ficam na memória de uma casa. Na Casa do Rio, em Torno, Lousada, a de 22 de agosto de...

Cool Dance levou dança e emoção ao Euro RX em Lousada

O grupo de dança Cool Dance, a convite do Clube Automóvel de Lousada (CAL), marcou presença no...

Chega setembro, regressam as aulas e, com elas, algumas das memórias de infância e juventude desse...

NOVOS BOMBOS EM LOUSADA (1)

Os Magnetenses: a tradição que ganha nova força Um novo grupo de bombos nasceu em Meinedo com 20...

O ESCUDO INVISÍVEL NO CIRCUITO INTERNACIONAL DE LOUSADA

ED4 levou a segurança no desporto automóvel ao patamar mundial Vamos falar de uma equipa que não...

Edifício da Adega nasceu há 70 anos

OBRA CUSTOU “DOIS MIL CONTOS” Assinalam-se este mês 70 anos do início de um dos projetos mais...

Grande Entrevista a LUÍS MARINHO (CAL)

“Não procuro ficar na história, procuro continuar a fazer mais e melhor” Aos 38 anos,...

JULIANA COSTA, UMA ARTISTA QUE SE REVELA FORA DE LOUSADA

Das raízes em Figueiras à afirmação na arte texturizada Natural de Figueiras, no concelho de...

Siga-nos nas redes sociais