por | 7 Dez, 2021 | Louzadense com Alma

Ângelo Ribeiro Neto Coelho (1939-2017)

Louzadenses com alma – por José Carlos Carvalheiras

A serenidade era uma característica proeminente neste lousadense de origem pacense, mas por trás disso estava um espírito sindicalista destemido e até mesmo temerário. Nasceu em São Pedro da Raimonda (Paços de Ferreira) em 6 de janeiro de 1939, mas estabeleceu-se e deixou raízes em Lousada. O “Ângelo da Pacense”, como Lousada o conhecia e estimava, foi uma pessoa que se fazia notar pelo interesse associativo e espírito democrático.

Um sindicalista destemido

Desde tenra idade Ângelo Coelho foi profissional da empresa Auto Viação Pacense, levado pelo seu pai, Ivo Coelho, um antigo e muito conceituado revisor e condutor daquela empresa de transporte público.

Um colega de trabalho e amigo de quase toda a vida, António Meireles Coelho, recorda que “o pai do Ângelo era tão estimado e considerado que os próprios patrões obedeciam mais a ele que a qualquer outra pessoa. Às vezes parecia que ele é que era o dono da empresa”.

Ângelo seguiu as pisadas do pai. Entrou para ajudante de mecânico, nas oficinas de assistência aos autocarros, passando para revisor aos 18 anos. Nos fins-de-semana também era condutor. “Era um profissional excelente, muito vaidoso, diga-se de passagem, mas muito competente e simpático. Todos gostavam dele. Era impossível não gostar do Ângelo”, recorda o antigo colega.

“Um dia, a vir do Porto, eu a conduzi e ele a cobrar bilhetes, tivemos um acidente. Foi talvez o mais aparatoso e complicado que tivemos. Saímos do Porto às 18:30 e quase meia hora mais tarde, em Alfena, o autocarro caiu a um campo. Um carro que vinha de frente, no sentido Santo Tirso – Porto, despistou-se e eu desviei-me o mais possível. A estrada estava molhada e o autocarro derrapou para a berma, caindo por cima de uma ramada. O Ângelo magoou-se e teve que receber tratamento no hospital, onde levou três ou quatro pontos”, relata António Meireles.

Um Socialista em família de Direita

Embora fosse pessoa de modos discretos, Ângelo Coelho era um fervoroso defensor da justiça social e da sua classe profissional. Por isso se sindicalizou e se tornou dirigente do extinto Sindicato do Norte dos Revisores de Transportes Públicos. A filha mais velha, Ângela Coelho, recorda que “certo dia, em 1980, ao sair dos escritórios do Dr. Brochado Coelho, onde eu trabalhava, fiquei espantada com uma grande manifestação sindical em frente à garagem da Pacense, na Avenida dos Aliados, no Porto. O meu espanto foi ainda maior quando vi o meu pai, com uma bandeira na mão, a incentivar os colegas a manifestarem-se por melhores condições de trabalho”.

O ativismo cívico de Ângelo Coelho estendeu-se a várias entidades lousadenses. Foi militante da concelhia de Lousada do Partido Socialista, onde, segundo o seu compadre, José Santalha, “era uma formiga trabalhadora, sempre disponível para ajudar e nunca procurando os protagonismos dos lugares cimeiros das listas”.

A filha Ângela lembra-se de “ir com uma bandeira, às cavalitas do meu pai, assistir a comícios do Partido Socialista logo após o 25 de Abril de 1974, no Porto”.

Mas a política era um assunto complicado no seio familiar e Ângela Coelho explica porquê: “o meu avô Ivo, e toda a família em geral, era muito conservadora e muito simpatizante do CDS. Mas o meu pai era o oposto disso e, como tal, chocavam nesse aspeto. A política era assunto proibido nas conversas lá de casa e assim tudo corria bem nos encontros familiares”. 

Esteve também em várias direções dos Bombeiros Voluntários de Lousada, entidade à qual devotava uma estima muito grande. De igual modo, nutria um gosto especial pela música filarmónica e foi com natural satisfação que aceitou o convite de Paulo Afonso da Cunha para integrar a direção da Associação de Cultura Musical de Lousada. Por via disso acompanhou com especial entusiasmo e interesse muitas das deslocações da Banda Musical de Lousada.

Falecimento trágico do irmão gémeo

As origens familiares e geográficas de Ângelo Coelho remontam a Raimonda, onde ele e seus cinco irmãos nasceram. Ângelo teve um irmão gémeo, que se chamava Nélson e faleceu aos 10 anos de idade na sequência da queda do cimo de um muro. Esta tragédia marcou profundamente a família. Um dos seus descendentes haveria de ser batizado com os nomes daqueles dois irmãos gémeos, legado esse que coube ao atual vereador da Câmara Municipal de Lousada, Nélson Ângelo Coelho Oliveira.

Antes de rumar a Lousada, Ângelo viveu dez anos em Freamunde, no lugar de Talhô, após casar com Beatriz da Gloria Rego Alves, em 17 de outubro de 1962. Deste matrimónio nasceram três filhas: a já referida Ângela, a jurista Isabel e a professora Paula.

Do núcleo familiar fez sempre parte a sogra de Ângelo, Olinda Rego, que tinha uma tecelagem caseira, chegando a dar trabalho a duas ou três pessoas. As mantas que confecionava e, sobretudo, os métodos e técnicas empregadas na sua confeção chamaram a atenção de empresários industriais. A pequena unidade fabril de Olinda Rego viria a ser adquirida por Luís Teles Menezes, de Freamunde, que a partir dali criou a famosa fábrica de fiação e tecelagem de Luteme.Ângelo Ribeiro Neto Coelho (na foto com sua esposa) faleceu em 27 de Setembro de 2017.

1 Comment

  1. Maria Isabel Fernandes Ribeiro da Silva

    Os meus grandes amigos! Dois irmãos que a vida me deu, irmãos de coração! Sim! eram pessoas exemplares dos quais eu tenho tantas saudades, e que não vou esquecer nunca. Estes Senhores, eram amigos, francos, verdadeiros, raros nos tempos de hoje.

    Reply

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