Parte 2: Serão os jovens os futuros guardiões do artesanato de Lousada?

No domínio da promoção do artesanato, da estratégia de valorização e credibilização das artes, ofícios e produções artesanais e da dignificação do setor, o jornal O Louzadense continua – nesta edição – a segunda e última parte de: “Serão os jovens os futuros guardiões do artesanato de Lousada?”.

Com a mesma predisposição e satisfação que entrevistamos os quatro artesãos da edição nº70, e mantendo a mesma estrutura e sequência, procedemos a mais entrevistas com pessoas de diferentes artes. As evidenciadas são: espingardaria, tamancaria, tecelagem em linho e crochê. 

O propósito é dar conhecer as pessoas que outrora fizeram do artesanato vida e, dessa forma, contribuir para a sua recuperação e enriquecimento por via, nomeadamente, da renovação de saberes. 

Nunca é demais explicar em que consiste o artesanato e – naturalmente – evidenciar os artesãos.  A atividade artesanal consiste na atividade económica, de reconhecido valor cultural e social. Predominantemente, todos os ofícios possuem raiz tradicional ou contemporânea. 

Osvaldo Guimarães, Abel Silva, Milinha da Rocha e Engrácia Pacheco são os artistas da segunda parte. Dominam saberes e técnicas que lhe são inerentes, bem como auferem de um apurado sentido estético e perícia manual. Além disso, a fidelidade aos processos tradicionais é predominante em todos os produtos. 

O mercado das espingardas e dos tamancos

O termo espingarda, em Portugal, é popularmente conhecido como designação genérica de todas as armas longas. Contudo, nos dias de hoje, legalmente apenas são classificadas como “espingardas” as armas longas de cano de alma lisa. As espingardas com um único tiro disparam diversos projéteis que se espalham por uma área maior, diferentemente dos fuzis, cujo tiro atinge um único ponto.

Em 1980, foi fundada no concelho de Lousada a “Espingardaria Irmãos Guimarães” e, como o próprio nome indica, por dois irmãos: Armando Guimarães Oliveira e Osvaldo Guimarães Oliveira. Este segundo, respetivamente, foi entrevistado pelo O Louzadense para contar a arte que executa. 

O negócio estava situado na principal rua comercial de Lousada, a rua de Santo António. Comercializava toda a gama de artigos para pesca e armas de caça, sendo as mesmas de prestigiantes marcas. 

Os irmãos herdaram do seu pai, a arte da espingardaria o que levou, mais tarde, a especializarem-se para servir a população neste setor. Na época, estava bastante desprovida. E agora? Parece que os tempos são os mesmo de outrora.  

A oficina que laboravam no seu trabalho, transitou para o Parque Industrial de Silvares, onde atualmente apenas se encontra, Osvaldo e o seu filho a trabalhar. E, como anteriormente havia sido feito, o armeiro está a passar de geração em geração esta habilidade. A situação atual é esta, derivada de um infeliz acidente que Armando Oliveira, o outro sócio, sofreu que o impossibilitou de continuar a exercer e dar contar do(s) recado(s) na firma de família.  

A habilidade fantástica de Osvaldo é inúmeras vezes salientada e enaltecida pelos demais, tendo levado a que este se tornasse armeiro, apesar das inúmeras profissões que em tempos experimentou. O saber, deve-o ao pai, mas a continuidade que deu ao negócio apenas se deve à sua capacidade de trabalho e ao desejo insaciável de nunca estagnar nesta arte. 

Osvaldo Guimarães

Natural de Cernadelo, Osvaldo Guimarães, com 64 anos continua a perpetuar a sua arte. Ser armeiro requer muita perícia manual, por exemplo, Osvaldo reconhece o rigor que tem de ser colocado na afinação das armas. Mas não só. “Sou um especialista de restauro e reconstrução de armas”, afirma. 

No seguimento, existem muitas pessoas de variadíssimos pontos do país que se deslocam até à oficina de Osvaldo para auferirem das reparações deste, uma vez que, há realmente algumas pessoas a trabalhar nesta arte, mas são escassas aquelas que reparam.  

Ademais, o mercado das armas está a colocar os armeiros num ponto difícil. O que mais aflige este setor é o facto das imposições que são estabelecidas aos possuidores de armas serem – cada vez mais – crescentes. “O mercado encontra-se em baixo graças às exigências colocadas na aplicação das leis”, sustenta Osvaldo visivelmente entristecido por esta ser uma realidade sem fim. 

Oficina de trabalho de Osvaldo

Todavia, a dificuldade em se obter licenças e a instabilidade vivida, não permite que Osvaldo esqueça o valor que a arte oferece. O sentimentalismo a par do raro talento que possui proporcionam que este continue a trabalhar naquilo que mais gosta – ser armeiro. 

Neste mundo em que os ofícios artesanais se encontram com muitos obstáculos e contratempos, abordamos também o mercado da tamancaria. Sendo assim, não existe melhor pessoa na vila para falar acerca desta arte senão Abel Magalhães da Silva.

Osvaldo e o filho
Espingardas

A história deste artesão na tamancaria não começou desde pequeno, ou diga-se, por seguimento de tradição existente na família. Abel trabalhava na CP – Comboios de Portugal – e quando dispunha de algum tempo livre não sabia o que fazer. Desta forma, lembrou-se do pouco conhecimento que tinha acerca desta arte e “arregaçou mangas” – como popularmente se utiliza – e comprou material para iniciar a prática deste ofício.

Abel Silva

Preliminarmente, fez um par de tamancos para si e depois para os seus colegas de trabalho. Neles refletia a mestria do artista, verdadeiramente devoto de uma arte com história. E, assim sendo, as encomendas começaram a aparecer. As pessoas dos ranchos folclóricos eram clientes assíduos de Abel, continuando a ser ainda hoje apesar da diferença de pedidos. 

Antigamente, os tamancos eram usados como calçado, pelos mais desfavorecidos, ou por aqueles que trabalhavam diretamente com a terra. Porém, o traje domingueiro era também acompanhado pelas tamanquinhas envernizadas. “Antigamente, as pessoas iam à missa de tamancos, mas essa moda deixou de se usar”, reforça Abel, um pouco descontente por já quase ninguém utilizar tamancos.

Exemplos de tamancos realizados por Abel

Não obstante, o descontentamento passa e o artista continua a perpetuar esta arte. “Até que a saúde me permita, farei sempre isto e darei a conhecer a quem assim o deseje”, afirma Abel. Como resultado, o artesão dirige-se a várias escolas, a convite destas, para mostrar um pouco do seu trabalho aos mais novos que se encontram sempre bastante entusiasmados ao assistir. 

A alegria, a satisfação, o entusiasmo presente na cara das crianças deixa Abel feliz, mas – especialmente – esperançoso que esta arte não acabe. “Eu acho que os jovens podem pegar nestas tradições mais antigas”, afirma, acreditando que pode surgir alguém da geração mais nova que teime em conservá-la. 

Apesar de tudo isto, Abel está ciente que realmente gosta daquilo que faz, embora o tenha realizado com maior frequência no passado. “Considero que tenho arte nas mãos, até à data tenho me desenrascado”, conclui o artista. 

O tamanqueiro a exercer a sua arte

O ensinamento das irmãs

A transmissão de costumes, hábitos, crenças, memórias e outros fatores foram adquiridos e mantidos ao longo dos anos e é altamente usual entre famílias. Passadas dos pais para os filhos ao longo das gerações, as tradições têm grande peso na formação de todas as pessoas. Todavia, as duas artesãs que O Louzadense teve a honra em entrevistar, aprenderam as suas artes através dos ensinamentos das irmãs mais velhas. 

Maria Emília da Rocha Teixeira ou Milinha da Rocha – ambas as designações congruentes – é natural de Caíde de Rei e durante mais de 60 anos fez do tear o seu instrumento de trabalho. Quem passa pelas ruas da freguesia onde a artista reside pode averiguar a sua notoriedade na mesma. Dona de um sentido de humor aprimorado, de uma agilidade única, de um talento diferente que não deixa ninguém indiferente. 

Milinha da Rocha

A sua paixão pela tecelagem em linho surgiu por conta das suas irmãs serem tecedeiras quando esta ainda era uma adolescente. Aos 16 anos de idade, começou a observar atentamente o trabalho e derivado à sua abundante vontade em aprender fez desta arte o sustento durante longas temporadas. 

“Esta arte linda, modéstia à parte, representa muito para mim”, declara Milinha visivelmente desconsolada por considerar que a mesma está a acabar, na medida em que os jovens não querem aprender e se encontram mais focados noutras artes. Segundo a artista, com 81 anos de existência, está disposta a ensinar qualquer pessoa. 

O ensinamento não é de agora. Outrora, Milinha, auxiliou diversas senhoras a tecer, tendo oferecido para uma melhor realização da arte várias peças do seu tear que possui mais de 500 anos de histórias, porém “ainda dura outros iguais”, sublinha a artesã. 

Milinha quando era nova na sua atividade que a levou a ganhar vários diplomas

“Numa feira de artesanato em Lousada, na Praça das Pocinhas, uma senhora de Valongo encontrou-me e pediu-me que a ensinasse”, salienta Milinha que detém um enorme gosto em ensinar a sua arte. 

Nos dias de hoje, a sua máquina de trabalho encontra-se no Cais Cultural de Caíde de Rei, bem como, peças, diplomas e medalhas. “Com muito orgulho e gosto ofereci o tear”, finda Milinha. 

Exposição da Milinha no Cais Cultural de Caíde de Rei
Cantinho da Milinha Rocha no Cais Cultural de Caíde de Rei

Engrácia Pacheco, residente em Casais, aceitou falar e mostrar a sua arte. A par de Milinha, também a paixão desta artista surgiu em criança através dos ensinamentos da sua irmã. No entanto, não faz do croché vida, encontrando-se a trabalhar durante o dia numa fábrica. 

Engrácia Pacheco

Nos seus tempos livres que considera escassos aproveita para meter “mãos à obra” e fazer várias peças que lhe proporcionam um enorme prazer. “Fazer crochê, o trabalho artesanal que mais gosto me dá, funciona como uma terapia”, afirma Engrácia. 

Casa em miniatura personalizada por Engrácia

A artista, que desde os 12 anos pratica esta arte, tem recebido um bom feedback por parte dos seus clientes. Desta forma, o seu nível de vendas é abundante, em contrapartida, ao que se observa no mercado artesanal. 

Mãe de três rapazes e avó de duas crianças que, nos dias de hoje, são a sua maior alegria e fonte de inspiração para vários trabalhos.

“Serão os jovens os futuros guardiões do artesanato de Lousada?”, a questão preliminar das duas partes. Agora, deixamos ao encargo dos nossos estimados leitores a resposta ou interpretação que queiram dar a esta pergunta. Da nossa parte, fica um agradecimento aos 8 artesãos entrevistados que demonstraram disponibilidade e amabilidade para abordarem as suas artes, no sentido, do apelo e da promoção.

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