Casa da Bouça

A casa está envolta em arvoredo e belos jardins, fontes ornamentais e estatuetas (algumas da autoria do escultor Teixeira Lopes).

Entra-se na casa da Bouça por um portal alpendrado, com um portão para a passagem de veículos e dois portais mais pequenos por onde passam as pessoas. Os três portais são de madeira e o alpendre tem uma estrutura de barrotes, também em madeira, coberto com telha curva; as telhas inferiores são côncavas, largas e estão colocadas -próximas umas das outras: as junções são cobertas por telhas convexas muito mais estreitas (juntando telhas côncavas e convexas num só bloco temos a telha curva). O alpendre apresenta-se com um desnível entre o portão do meio e os secundários, sendo o do meio mais alto. Colunas de granito sustentam a estrutura central do alpendre, enquanto as laterais são em cantaria – técnica do cadeirado almofadado – coroadas por urnas fechadas. De ambos os lados do portal, um muro de cimento, com moldura em granito, terminando em mais duas colunas de cantaria encimadas por urnas abertas. (OLIVEIRA, 99).

Portal – Casa da Bouça.

Acede-se, pois, à casa da Bouça por este portal percorrendo-se, depois de o atravessar, uma alameda de terra batida ladeada de arvoredo de variadas espécies. Algumas dezenas de metros percorridos deparamos com um belo chafariz: «De granito, em cantaria fina, situado num espaço aberto, mesmo na parte central da fachada principal da casa da Bouça. Tem um pé direito que termina num pináculo com ponta em esfera, e ao longo do tronco encontram-se bicas com feitio de rosetas, por onde sai água, a qual cai para uma taça e desta para um tanque de formas redondas.» (OLIVEIRA, 99).

Casa da Bouça – Chafariz – Implantado no terreiro  fronteiro à fachada principal. 

António Cabral de Noronha Menezes, foi juiz ordinário do concelho de Lousada e seu administrador em 1852, tendo Felisberto Cabral de Noronha Menezes, em janeiro de 1858, presidido à Câmara de Lousada. Em 1861, Joaquim Cabral de Noronha e Menezes, é Deputado da Nação e Bacharel em Direito. Todos foram proprietários da casa da Bouça, de que foi também seu senhor Agostinho Pinto de Azevedo, que, em 1719, mandou edificar a capela de Santo António.  Por ele foi dito «ser de propria e livre bontade que elle e sua mulher Jacinta Francisca da Costa, tinham feito a sua capela de Santo António sita no dito lugar da freguesia, quinta da Bousa, por hiransa que recebeu de sua mulher (…) de instituir este vincollo como seue da bontade della de juntar em seu testamento com que faz este seo pedido no anno de mil setecentos e dezanove, aos nove dias de Mayo a pedido della testadora pello dito padre Manoel de Sousa Pinto do lugar da heira freguezia de Santa Christina deste dito concelho(…)».1 

Inicialmente era uma casa de lavoura que foi evoluindo, tornando-se num “solar apalaçado.” Contudo, não é fácil precisar a época dos diferentes corpos que constituem esta casa, pois a sua estrutura foi submetida a múltiplas reformas e acrescentos. Existe uma ala mais antiga edificada em granito e rusticada, e uma outra de construção mais recente e mais sumptuosa – segundo o proprietário, à época, da Casa da Bouça, Dr. João Diogo Cabral de Noronha e Meneses.  O mesmo referiu que «(…) os diferentes riscadores dos diversos acrescentos desta residência foram os seus antepassados e os seus construtores foram os pedreiros da região. Assim, no início do século XIX, primeiro quartel, o trisavô do atual senhor da Casa da Bouça constrói um novo edifício, e em meados do século XIX, o bisavô faz-lhe um novo acrescento; entretanto, no primeiro quartel do século XX, o avô executa o acrescento do alpendre, da torre e da escadaria.

Arquitetonicamente é uma casa quadrangular com capela adossada no topo esquerdo da fachada Oeste, e torre a Norte. O corpo da fachada principal, virado a Sul, foi dividido verticalmente por pilastras, em três zonas, criando dois panos de parede simétricos que flanqueiam um pano central, o frontispício; este apresenta no rés-do-chão uma portada com lintel curvilíneo e fecho ao centro, e a ladeá-la duas janelas de peitoril, gradeadas e molduradas.2

No andar nobre, três janelas de sacada molduradas sobrepujam cachorros: «do tipo largo e baixo, terminando em espiral virada para baixo e voltada para fora. (GALHANO, 45), e a rematar o frontispício, um frontão triangular com a pedra de armas dos «Castelo-Branco, Cabral, Araújo e Menezes.» (- NÓBREGA. 26).  Em cada pano da parede, no rés-do-chão, há quatro janelas (duas no pano direito/duas no pano esquerdo), de peitoril e gradeadas, e no andar nobre seis janelas de sacada molduradas (três no pano direito/ três no pano esquerdo), sobrelevam cachorrada, todas ladeando o frontispício.

A fachada Norte, parte da casa, no rés-do-chão, patenteia uma porta moldurada e gradeada, dois óculos moldurados, duas janelas de peitoril gradeadas; no primeiro andar, mostra duas janelas de sacada. Na fachada Este, no rés-do-chão, vêem-se duas portas molduradas, e uma escadaria de dois lanços, com volutas na parte terminal, que permitem o acesso a uma varanda alpendrada. A qual remonta ao início do séc. XX, segundo o Dr. João Cabral.

No primeiro piso, apresenta um alpendre com quatro colunas e três portas molduradas, sendo o lambril de azulejo monocromático e em azul-cobalto, com representação figurativa, executado em painéis de grandes dimensões. À esquerda da varanda alpendrada, no rés-do-chão, existem quatro janelas de peitoril, gradeadas, vendo-se no primeiro andar quatro janelas de peitoril e duas janelas de sacada, que sobrepujam cachorrada; as pilastras são sobrelevadas por pináculos. 

A fachada Oeste, do corpo primitivo, tem uma escada de um só lanço e uma portada. Na fachada Sul, no primeiro piso, podem ver-se, quatro janelas de peitoril, e o portal é sobrepujado por três merlões. O rés-do-chão da fachada Norte apresenta três pequenas janelas gradeadas, uma portada grande e umas escadas de um só lanço que permitem o acesso à torre, e no primeiro andar são cinco as janelas – a torre, o alpendre e a escadaria foram construídos no primeiro quartel do século XX, pelo avô do atual proprietário da Casa da Bouça. Na fachada Norte, no rés-do-chão, existe uma portada e duas janelas de peitoril, gradeadas, e no primeiro andar, vêem-se duas janelas de pinázio. Na fachada Este, há, igualmente, uma janela de pinázio e uma portada.

Nesta casa o jardim estrutura-se num largo terraço – século XIX – com passagem direta para as salas do primeiro andar

Desenho de Carolina Ribeiro
Fachada principal e capela de Santo António.        

A capela foi adossada à fachada Este em 1719.3 No rés-do-chão exibe duas janelas de peitoril molduradas, sendo uma gradeada, enquanto no primeiro piso mostra duas janelas de peitoril também gradeadas e uma moldurada. 

A fachada principal da capela, apresenta um portal moldurado com lintel curvilíneo, ladeado por dois óculos; tem ao centro um óculo, encimado por um frontão triangular, que é coroado por uma cruz octogonal, enquanto as pilastras são sobrelevadas por duas urnas fechadas; na fachada Sul vislumbra-se um campanário de lintel curvilíneo. Na fachada Norte, no rés-do-chão, há uma portada moldurada, e no primeiro andar, existe uma janela de peitoril. A pilastra do extremo Oeste, é rematada por um pináculo. 

1 – A.D.P., Secção Notarial, Livro n.º 7, 1728, fl. 82 a 83.

2 – Não se ajustam em termos de rigor arquitetónico e de espaço na fachada, com os restantes elementos que a estruturam, mas basta olhar para os cachorros que sustentam as sacadas do andar nobre e reparar que as janelas do rés-do-chão não têm um alinhamento correto.

3 – A.D.P., Secção Notarial, Po -1,1ª Série, Livro n.º 7, 1728, fl. 82 a 83.

Obras consultadas e seus autores:

– Livro de registo das atas, acórdãos e vereações do concelho de Lousada., 1828, fl. 1.

– Presidentes da Câmara Municipal de Lousada Desde 1838 até 1900, p. 40.

– VIEIRA, José Augusto – O Minho Pitoresco, Vol. 1, p. 358. 

– Jornadas Europeias do Património, p.18; 

– À Descoberta do Vale do Sousa – Rota do Património Edificado e Cultural, p. 106.

– Lousada Terra Prendada, p.108-109;

– O Nosso Concelho, p.16. 

– OLIVEIRA, Rosa Maria – Portões e fontes do concelho de Lousada, p. 117.

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