por | 20 Mar, 2023 | Opinião

Saúde Mental no Ensino

O mundo em que vivemos agora é muito diferente do que era há 100 anos. No último século, conseguimos acompanhar uma série de mudanças significativas e rápidas em praticamente todas as áreas da sociedade. A tecnologia foi uma das principais responsáveis nesta evolução por ter atuado em áreas como a medicina (desenvolvimento de novas técnicas e medicamentos para curar ou prevenir doenças, influenciando, portanto, a longevidade vital do ser humano); o mundo dos negócios (criação de novos modelos de negócios que mudaram a forma como as empresas operam; a globalização e abertura de mercados permitiram que as empresas expandissem as suas operações em todo o mundo); na política (com a queda dos regimes autoritários e o crescimentos de regimes democráticos que dão primazia aos Direitos Humanos e a própria criação da União Europeia que é um exemplo de evolução política); e, entre outras, na área da comunicação (com o aparecimento da internet e dos smartphones, a forma como nos conectamos, trabalhamos e comunicamos mudaram radicalmente a forma como nos relacionamos).

No que diz respeito à educação, notamos também evoluções no sentido em que se tornou mais generalizada e abrangente, levando ao aumento do número de pessoas com acesso à educação básica e superior. Para além disso, as técnicas de ensino foram também progredindo através da aprendizagem ativa e cooperativa que enfatiza a participação dos alunos e a colaboração entre eles. Houve uma maior atenção à inclusão de alunos com necessidades especiais, bem como a valorização da educação como um meio de desenvolvimento pessoal e social.

Contudo, apesar de se notarem evoluções, existe ainda um longo caminho a percorrer.  

O ensino é uma das áreas fundamentais para o desenvolvimento e o progresso da sociedade, é o nosso elevador social. No entanto, acredito que em Portugal, não lhe é dado o devido valor. O nosso Governo deixa transparecer que tem preocupações maiores do que investir e dar melhores condições aos nossos alunos, uma vez que na escola pública existem sérios problemas estruturais (uma elevada escassez de recursos e de financiamento adequado) que prevalecem com o passar dos anos. Como é de esperar, isto arrecada várias consequências, quer para os alunos, quer para as pessoas que “fazem trabalhar a máquina”, podendo influenciar a vários níveis a vida e a saúde mental dos intervenientes (alunos, professores, assistentes operacionais, entre outros). 

Um estudo realizado pela Universidade de Évora indica que 20% dos estudantes que frequentam o ensino superior sofrem de algum tipo de doença mental e que, praticamente, metade foi diagnosticada após a pandemia. Apresenta-se como um valor elevado, mas que não é de todo surpreendente. Uma das principais razões foi a pandemia, período onde as crianças e jovens se viram fechados em casa, privados de ter contacto e criar laços com outras pessoas, o que é algo fundamental sobretudo nestas faixas etárias. Apesar do nosso Governo ter implementado algumas medidas para o combate da doença mental na educação como: a) Criação de equipas multidisciplinares nas escolas; b) Introdução de aulas de educação emocional; c) Disponibilização de formações sobre saúde mental para os professores; e d) Disponibilização de serviços de psicologia – estas medidas , para além de insuficientes são ineficazes, uma vez que, a maior parte delas não atingiu grande parte da população alvo (alunos), muito devido ao reduzido número de psicólogos nas escolas (segundo o relatório “Estado da Educação 2021” existe 1 psicólogo para cada 744 alunos) e aos baixos salários que auferem (segundo o Jornal Expresso 60% dos psicólogos escolares são precários). Para além disso, os professores, devido ao extenso programa das disciplinas acabam por ter pouco tempo para deter um papel mais pedagógico no que toca à saúde mental.

Acredito que Portugal é um país cheio de potencialidades: desde a apetência das pessoas para o trabalho como a nível de infraestruturas. Destarte, seria importante que houvesse uma reflexão sobre estes temas, por parte dos nossos governantes, no sentido de criar um sistema de ensino português mais robusto e eficaz, no desenvolvimento de pessoas.  

Algumas medidas que acho que poderiam ser positivas para a evolução do ensino são:

a) Maior investimento financeiro na educação: é importante que haja um maior investimento financeiro na educação, de forma a permitir a melhoria das infraestruturas, a aquisição de novos equipamentos e tecnologias e o recrutamento de mais profissionais qualificados para o ensino; b) Aulas mais interativas e práticas: as aulas devem ser mais interativas e práticas, permitindo que os alunos participem ativamente no processo de aprendizagem, em vez de apenas ouvirem o professor durante horas a fio;

b) Redução da carga horária e dos trabalhos para casa: os alunos precisam de tempo livre para praticar atividades físicas, sociais e de lazer, o que é importante para o seu desenvolvimento físico e mental;

c) Introdução de consultas individuais de psicologia na escola: é importante oferecer um maior apoio psicológico para os alunos, com consultas individuais de psicologia na escola, de forma a ajudá-los a lidar com questões emocionais e mentais que são comuns nestas faixas etárias; e

d) Melhoria das condições de carreira dos professores: é importante valorizar e incentivar a carreira docente, oferecendo condições de trabalho adequadas e o reconhecimento pelo seu trabalho. Isso pode ajudar a atrair mais profissionais qualificados para a área (no último ano letivo houve 26 mil alunos sem aulas devido a falta de professores, segundo o relatório “Estado da Educação”) e a motivar aqueles que já estão a exercer.

Estas são apenas algumas das medidas importantes que poderiam ser implementadas para a evolução do ensino, tendo em conta o panorama atual macroeconómico do país.

É importante salientar que uma educação de qualidade é fundamental para o desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos, bem como para o progresso da sociedade como um todo. Através do ensino, as pessoas adquirem conhecimentos e habilidades que são essenciais para alcançar os seus objetivos pessoais e profissionais, da mesma forma que lhes permite contribuir positivamente para a sociedade como um todo. Logo, devemos exigir um ensino de qualidade que seja capaz de responder com sucesso às necessidades do presente e do futuro.

Fontes:

https://expresso.pt/sociedade/2023-03-15-60-dos-psicologos-escolares-sao-precarios-pedidos-de-apoio-dos-alunos-triplicaram-SNS-nao-da-resposta-e-jovens-estao-desprotegidos-41ba7506

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2023-01-26-faltam-psicologos-nas-escolas-racio-e-de-um-para-744-alunos/

João Pires
Vice-Presidente da JSD Lousada

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