por | 1 Ago, 2023 | Canto do saber, Opinião

A infâmia da integração

É comum, hoje, aparecerem na mesma frase as palavras discriminação e integração. Se não na mesma frase, pelo menos, no mesmo parágrafo, no mesmo discurso. A antinomia é por demais infame: a própria palavra integração implica discriminação. 

Integrar significa completar – tonar um só – , mas, mesmo quando falamos de humanidade, completamos o quê? Se alargarmos o âmbito e falarmos do mundo, completamos o quê? Está fácil de ver que integrar, implica a existência de domínio, na sua ambivalência de demarcação e poder: aquilo a que, por exemplo, Bourdieu , chama campo. Todo aquele que ser “integrado” vê-se constrangido pela necessidade da devida autorização. No fundo, falamos da necessidade de reconhecimento de dentro para fora e vice-versa : dentro deve reconhecer-se o que está no exterior ao domínio; o que está fora reconhece o domínio como objetivo de pertença. Autorização na forma de reconhecimento requer, assim , uma relação de subordinação, o domínio assume plenamente o seu significado de poder.

Significa então que, quando se fala de integrar, se discrimina porque o que vale é o domínio de quem integra. Paradoxalmente, o que ser integrado aceita, mesmo que tacitamente, esse domínio. Veja-se o que acontece com grande parte dos feminismos, das ideologias de género, das questões raciais, inclusive, das questões de condicionamento físico: pretende ser-se como aquele que se reconhece como dominante e não como se é: a aceitação exigida não é a de que “eu sou um humano, como todos somos”,“ eu sou um ser que constituo o mundo, o universo, como tudo o que me rodeia”, mas sim, “tenho o mesmo direito que aquele”, e ter o direito é o mesmo que ter poder. Não importa como se integra, seja por caridade – uma espécie de compaixão hierarquizada -, seja por uma série de compensações artificialmente induzidas. A dignidade humana, construída sob princípios abstratos, sofre derrota sobre derrota. Nessa perspetiva, o oxímoro da integração é bem evidenciado: o que, muitas vezes, se chama dignidade humana não passa de uma igualação, de uma massificação informe. 

O solipsismo imanente à formação do domínio é ilegítimo, porque a experiência do mundo de uns não autoriza à sua imposição a outros. Tem de ser ultrapassado. A necessidade de reconhecimento no outro, essa característica tão humana, terá que ser preenchida numa perspetiva universalizante. Esse ato de reconhecimento , que parece tão simples, mas que é de uma complexidade extrema, terá que, forçosamente, ser objeto de “treino”, “educação”, para que dualismos – relação que implica dependência – de qualquer espécie, portanto, situações de discriminação deixem de fazer sentido. A partir do momento que todos tenhamos capacidade de reconhecer “o outro” em qualquer ser de qualquer tipo e espécie que compõe o universo na sua singularidade, estou certo, de se escancarem as portas à solidariedade e, dessa maneira, gerar um humanismo, esse, sim, alicerçado nos princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Há animais que quase toda a gente gosta à primeira vista. A joaninha é um deles. Pequena, redonda,...

Sousela é campeão de futebol distrital do INATEL

A Colectividade Recreativa e de Ação Cultural de Sousela (CRACS) venceu a Final Four da fase...

Lousadense Marco Silva é campeão pelo FC Porto

O jovem futebolista lousadense Marco Silva conquistou hoje o título de Campeão Nacional de...

Foi hoje inaugurado, na Escola Secundária de Paços de Ferreira, um projeto inovador e sustentável:...

Lousadense Beatriz Ferreira mobiliza comunidade para apoiar escolas em Cabo Verde

A solidariedade volta a ganhar voz em Lousada pelas mãos de Beatriz Ferreira, jovem lousadense que...

Na última sessão da Assembleia Municipal de Lousada, perguntei ao executivo que estratégia tem...

“Contas certas não significam contas justas nem desenvolvimento real”

Na mais recente Nota de Imprensa do PSD Lousada, o partido "manifesta a sua profunda preocupação e...

Crédito Agrícola perde em tribunal

O Supremo Tribunal condenou a Caixa Agrícola a pagar e reintegrar Susana Faria, mantendo a decisão...

AGRADECIMENTO

COM ETERNA GRATIDÃO, eu, Maria Irene Monteiro, venho, através d’ O Louzadense, agradecer o imenso...

Montalegre voltou a ser palco de mais uma jornada intensa do Campeonato Nacional de Rallycross...

Siga-nos nas redes sociais