por | 4 Out, 2023 | Canto do saber, Opinião

A imanência da guerra

George Orwell, autor da famosa obra “1984”, inicia o seu ensaio intitulado“ O leão e o Unicórnio”, dizendo que no preciso momento em que o escrevia, “seres humanos altamente civilizados sobrevoam os céus” tentando matá-lo. Observa que não são pessoas más, mas sim gente cumpridora da lei, que em circunstâncias da vida privada, nunca lhes passaria pela cabeça assassinar alguém. Mas a guerra é assim, há que “cumprir o dever”[1].

No entanto, como bem nota Friedrich Nietzsche [2], a guerra é imanente à humanidade : uma ideia contrária é própria de sonhadores e gente piedosa. Mesmo no senso comum se tem a impressão que a guerra acaba por estimular um conjunto de energias que, sobretudo, quando se toma, por exemplo, o ocidente, servem de catalisador do progresso. Não se conhecem outros meios pelos quais comunicamos a outros povos “aquele profundo ódio impessoal, aquela insensibilidade homicida com boa consciência, aquele ardor comum, organizador da aniquilação do inimigo, aquela indiferença ante pesadas perdas, ante a própria existência e a dos amigos”. São palavras capazes de nos martelar o cérebro, de tão contemporâneas e lúcidas que são. Voltamos à guerra no ocidente, uma guerra na qual as redes sociais não nos poupam a qualquer tipo de pormenor: a verdade nunca interessou numa guerra, tampouco interessa nesta, apenas as cenas da morte em direto, dos membros decepados, do resultado dos ataques de drones”, misseis e outras armas de destruição industrial. Está lá sempre um “drone”, uma qualquer câmara, nem que seja a daquele que morre.

Porém, a cultura continua a não dispensar, de maneira alguma, as paixões, os vícios e as maldades. Entre as guerras os seres humanos arranjam sempre um sucedâneo : tudo cansa até a guerra. Há que arranjar sempre um recurso para se reconstituir esse tipo de forças que se desvanecem. Não deixam de se inventar esses sucedâneos, muitos, na forma de jogos com regras cada vez orientadas à barbárie, que, no fim, nos torna mais naturais : para a cultura este entorno é um sono donde o ser humano sai mais vigoroso para o bem ou para o mal [2].

A guerra, deste modo, esteve sempre lá, está lá neste aqui e agora. Neste sucedâneo da guerra fria – talvez ela nunca tenha terminado , é sempre pouco avisado determinar finais quando se trata de história e não de estória -, onde a Europa de rabo entre as pernas realiza uma política que nada beneficia os seus, por indicação de uma potência tida como o epíteto da democracia liberal. Contudo, a realidade a isso obriga, a disparidade de força bélica é tão grande tão gerador de pânico, que a cobardia impele à escolha de um lado e lá vem o argumento, que confirma a cobardia, de escolher os que se parecem mais connosco: é uma absoluta quimera. No meio de tanta cobardia, impreparação e incompetência política só pode prevalecer a infantilidade de achar que a política trata das escolhas entre o bem e o mal. A arma cara e de difícil produção é despótica, as outras – a que todos ou quase todos podem aceder – permitem algum equilíbrio, por isso, acabam por existir vários níveis de guerras: a que pode constituir-se como guerra de grande escala, a de pequena escala e aos sucedâneos que se dão em tempos de “paz que não é paz”, por haver sempre a possibilidade de alimentar pequenas guerras, como, apesar de tudo, parece estar a acontecer nesta Europa que é também a nossa [3,4].

A guerra acaba por ser necessária, sem que seja uma coisa boa ou sã, tampouco as eleições são um espetáculo agradável ou edificante. Não obstante, se tiver que se participar em qualquer dos processos, e, tal como Orwell, penso que sim – exceto que se esteja isento por velhice, estupidez ou hipocrisia -, há que manter inviolada uma parte de nós, aquela parte que nos permite discernir as coisas do mundo à maneira que é nossa e de mais ninguém: no fim, talvez não seja um mau conselho a quem comanda os nossos destinos [3].

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1. Orwell, G. (2020) O leão e o Unicórnio, in Ensaios (eds.Matos, J.M.), Edições 70, Lisboa, pp. 335–419.

2. Nietzsche, F. (1997) Humano, demasiado humano, Relógio d’Água, Lisboa.

3. Orwell, G. (2020) O escritor e o Leviatã, in Ensaios (eds.Matos, J.M.), Edições 70, Lisboa, pp. 61–71.

4. Orwell, G. (2020) Nós e a bomba atómica, in Ensaios (eds.Matos, J.M.), Edições 70, Lisboa, pp. 41–46.

Opinião de Eduardo Moreira da Silva, Eng.º Civil

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