por | 17 Dez, 2023 | Associativismo, Sociedade

“Há desinteresse dos filhos face às necessidades dos pais”

CENTRO SOCIAL E PAROQUIAL DE LUSTOSA (CSPL)

O padre António Teixeira é o presidente do CSPL e afirma que “em Lustosa há situações sociais bastante preocupantes” e que “hoje, mais que nunca, há um desinteresse generalizado dos filhos face às necessidades dos pais”. Lamenta a falta do Estado nas suas obrigações de Solidariedade e destaca o papel paroquial e da sociedade em geral na caridade.

Este dirigente e clérigo considera que “a maior crise que vivemos em Portugal não é a crise económica, mas sim a crise de valores, a qual está a causar a grave crise social que estamos a assistir” e explica que é comum ver familiares de utentes do Centro Social “descartarem-se completamente da responsabilidade social para com os seus idosos e doentes assumindo que esta responsabilidade é dos Centros Sociais «a quem pagam» para serem substitutos das famílias”.

Minorar ou resolver os problemas sociais é o propósito geral do CSP de Lustosa, que presta serviços sociais na área da Infância e dos Seniores. Tem três Creches, um Pré-escolar e um Serviço de Apoio Domiciliário. Estes serviços funcionam com uma equipa técnica que é formada por duas Assistentes Sociais (uma no SAD e outra nas Creches), nove Educadoras de Infância (seis nas Creches e três no Pré-escolar) e um Administrativo para o serviço de secretaria.

O padre lamenta que “há cerca de três anos, o CSP de Lustosa viu-se obrigado a fechar a valência ATL, por imposição da Segurança Social quando, devo referir, esta valência se encontrava no auge das suas boas condições e serviço de qualidade”. Desagradado com essa decisão, António Teixeira afirma: “não entendemos como o Estado (através da Segurança Social) se diz nosso “parceiro” quando a sua função fiscalizadora penaliza e multa quem faz e o substitui na sua função social”.

Apesar das suas valências e projetos, “o serviço que o Centro Social presta em Lustosa é francamente insuficiente para as necessidades existentes”, declara o reverendo. “Apesar de, pessoalmente, considerar os «Lares» como uma «prateleira de idosos», reconheço que existem situações onde não há outra, nem melhor, solução. Contudo, entendo que a Igreja já deu o exemplo – como, aliás, já o fez noutras situações (por exemplo na educação) – daquilo que se pode fazer na área social e no cuidado aos mais necessitados e descartados da sociedade”. Com isso quer dizer que “há, de facto, necessidade de Estruturas Residenciais Para Idosos no nosso concelho”.

Padre António Teixeira

António Teixeira lembra que os cristãos estão «obrigados» a praticar um valor que se chama «Caridade», e que o fazem através dos grupos socio-caritativos, por exemplo as Conferências Vicentinas. Mas chama a atenção para o facto de que isso não é a «Solidariedade», que é obrigação do Estado: “quem é Social é o Estado, e todos nós, os cidadãos portugueses, contribuímos com os nossos impostos para que o Estado desenvolva esta Solidariedade na sociedade”.

Perante isto, o padre salienta que os Centros Sociais e Paroquiais “são uma solução pioneira que a Igreja encontrou num determinado momento da história para fazer face às necessidades prementes da sociedade e para as quais não existia qualquer resposta; e, agora o Estado deve assumir a sua responsabilidade social e dar continuidade a este básico e fundamental serviço à sociedade”.

De outros problemas sociais António Teixeira afirma: “há pessoas isoladas, quase completamente abandonadas pelas famílias, e já não têm capacidade de desenvolver as tarefas de higiene pessoal e habitacional e de alimentação e há habitações sem condições de habitabilidade”. Estas situações “são, muitas vezes, agravadas por fracassos familiares nos descendentes, que ora regressam a casa dos pais com os filhos, ora com problemas de vícios, ora com dívidas, entre outros”.

Verifica-se, de forma generalizada, “a perda do valor da família, que traz associado o sentimento de infelicidade e de insatisfação com a vida, de desânimo e recurso aos «subsidiarismo», situação da qual não têm vontade nem sentem forças para sair”, conclui o representante do CSP de Lustosa.

O ESTADO É PESSOA DE MÁ FÉ

No respeitante a financiamento, o padre diz que “as IPSS’s, na sua grande maioria, são entidades financiadas pelo Estado (através da Segurança Social) que lhes «paga» para o substituírem no fazer a Solidariedade”. Acentua a sua perspetiva crítica ao dizer que “estes subsídios são parcos e insuficientes dados os rendimentos baixos e as miseráveis reformas que as pessoas, que necessitam destes serviços, auferem. A juntar a esta condição precária, sentimos que o Estado é pessoa de «má fé», assumindo uma postura extremamente fiscalizadora e penalizadora, apresentando-se intransigente e nada flexível, mau pagador (pagando tarde e a más horas) e pouco sensível às necessidades próprias de cada IPSS”.

Não obstante esta situação, “a maior fonte de sustentabilidade das IPSS’s continua a ser o Estado, ajudadas pelas comparticipações familiares dos nossos utentes. Felizmente vamos contando com o apoio de outras entidades como a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia, algumas empresas locais e até alguns beneméritos”. Além disso, “conta com o apoio da Paróquia e da comunidade de Lustosa, senda esta, muitas vezes, penalizada e chamada a contribuir duplamente (nos impostos e em angariações de fundos) para um serviço que deveria ser assegurado pelo Estado”, conclui António Teixeira.

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