por | 3 Jan, 2024 | Abril Louzadense, Cultura

A revolta da fome em São Miguel (parte 2)

ABRIL LOUZADENSE (VI)

Este é o seguimento do que aqui escrevemos na edição anterior sobre o evento que ficou conhecido como “a revolução do pão” ou “a revolta da fome”, ocorrida a 1 de Julho de 1944, junto à ponte de São Miguel (Lousada). Foi uma tentativa de assalto ao armazém de pão e impedimento do transporte de cereais para fora da freguesia. A PIDE prendeu mais de uma dúzia de pessoas, entre elas Maria de Jesus, que estava grávida, e outras mulheres. Só foram julgadas mais de um ano depois da detenção, embora tivessem sido postas em liberdade condicional a meio.

As mulheres que participaram direta ou indiretamente na revolta de São Miguel (Lousada) a 1 de julho de 1944 tinham pelo na venta. Ou então era o desespero provocado pela falta de pão que as motivava para a luta contra as autoridades e grandes proprietários, que açambarcavam os cereais, cuja maioria ia para países em guerra, mormente a Inglaterra e a Alemanha. Parece ser caso para dizer que Salazar jogava nos dois lados. O mais irónico, como aqui referimos na edição anterior e nunca é demais sublinhar, as exportações de cereais seguiam nos comboios e nos navios com os dizeres “Sobras de Portugal”.

Voltando às mulheres detidas na referida intentona, a Maria de Jesus, na altura com 32 anos, foi presa com o seu marido, Artur de Sousa Neto, de 41 anos, ambos de São Miguel. Já estaria grávida na ocasião. Deu à luz a 17 de fevereiro de 1945 uma menina, Maria Angelina de Sousa Neto, que, entretanto, já faleceu. O nascimento terá ocorrido durante a liberdade condicional de Maria de Jesus, que voltaria a ser detida a 30 de junho para ser levada ao Tribunal Militar Especial, para responder pela acusação de “participação em motim e desordem pública”, em julgamento realizado a 6 de agosto, tendo sido “condenada à pena de 30 dias de prisão correcional, dada por expiada, pelo que foi restituída à liberdade”. Parece que cumpriu mais que a pena a que foi condenada, pois somando os períodos de detenção, esta totaliza quatro meses. Mas isso não abonou a seu favor de qualquer jeito ou feitio, nem a qualquer outra das pessoas detidas nesta contenda.

Maria de Jesus_1944

A ficha de Maria de Jesus, lavrada pelos serviços da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), à qual tivemos acesso no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (de onde são as fotografias que acompanham este texto), nada diz acerca da gravidez. Na freguesia, um neto de Maria de Jesus e Artur de Sousa Neto, afirma que o nascimento ocorreu na cadeia, mas a julgar pelo dito documento, haverá um lapso acerca disso pois refere que a criança nasceu durante a liberdade condicional e em rigor o nascimento terá ocorrido “entre prisões” (a primeira detenção, para interrogatório, durante dois meses; e a segunda, também durante dois meses, para ir a julgamento).

Curiosamente, na ficha prisional de outra mulher detida na mesma ocasião, Isaura de Jesus Faria, 32 anos, consta que a 2 de setembro daquele ano foi levada para o Hospital de Santo António, no Porto, de onde teve alta sete dias depois, voltando à cadeia da PIDE, não se sabendo (ainda) o motivo do internamento hospitalar.

Isaura de Jesus Faria

Esta Isaura “era mãe solteira de um rapaz de cinco anos”, recorda Maria Elvira Ferreira de Vasconcelos, de 93 anos, residente em Caíde de Rei. “Os meus pais, que residiam em São Miguel, acolheram o filho dela enquanto esteve presa”, declara aquela testemunha dos, que na ocasião tinha 13 anos de idade e recorda-se “muito bem de tudo o que aconteceu”, que foi conforme relatado na nossa edição anterior. Acrescenta que “foram presas uma dúzia de pessoas, mas houve muitas mais que fugiram e foram perseguidas e a freguesia ajudou a esconder, como foi o caso da casa do Muro, que acolheu um Orlando que era casado com uma Laurinda”.

Emília Martins

Também Emília Martins, de 23 anos, de Santa Margarida (Lousada), mãe de dois menores, esteve cativa nos mesmos modos e duração. Outra mulher levada na comitiva foi Carolina Pereira de Magalhães, de 44 anos, viúva.

Carolina Magalhães
© copyright 2023 O Louzadense / Helena Oliveira

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

Lousada ultrapassou os 50 mil habitantes, devido ao aumento da população estrangeira

Análise do jornal O Louzadense aos mais recentes dados provisórios e preliminares do Instituto...

Equipa de Shinkyokushin conquistou seis pódios

O WIBK Dojo Verdadeiro Espírito, do lousadense Paulo Rente Silva marcou presença no Torneio...

Atleta de Lousada convocada para Jogos do Eixo Atlântico

A jovem Daniela Pereira, natural da freguesia de Pias, em Lousada, foi convocada para integrar a...

"Talvez seja por isso que gosto tanto das nascentes. Porque, ao contrário dos rios, que toda a...

Campeões Nacionais de Natação Adaptada

Os atletas lousadenses do clube Lousada Século XXI estiveram em grande evidência no Campeonato...

A bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, Paula Franco, foi uma das convidadas do...

Forte internacionalização do Inferno das Febras

O Inferno das Febras regressa ao Parque de Lazer e Merendas de Casais, em Lousada, nos dias 28 e...

O treinador penafidelense João Paulo Guedes Silvestre, de 36 anos, é referido por várias fontes...

Protocolo para projeto de turismo cultural assinado entre a CCDR-N e Vidas em Cena

A Associação Vidas em Cena, de Lousada, está entre as dez entidades culturais da Região Norte...

A celebração dos 100 anos dos Bombeiros Voluntários de Lousada constitui um momento de...

Siga-nos nas redes sociais