por | 22 Jan, 2024 | José carlos Silva, Opinião

Espero que seja preservada

A pressa com que vivemos a vida e a absurda recusa de estacarmos para apreciarmos o que de bom ela encerra, leva-nos, quase sempre, a não reparar na beleza das coisas que nos envolvem e nos remetem para o passado, para a memória coletiva que fez de nós o que somos e nos faz recuar, por vezes, à nossa primeira infância e reconhecer que essa memória permanece, vincando com mais intensidade a sua imemorabilidade. Recuo, portanto, a um tempo distante, à primeira vez que vislumbrei Louzada, ao final da década de sessenta do pretérito século. Tinha completado seis anos há poucos meses e pontificava o tórrido agosto, quando o meu pai me comunicou que na tarde da véspera da festa em honra de Sant’ Ana, o primeiro sábado do citado mês, iriamos ver o doutor Abílio Moreira, pessoa que eu desconhecia em absoluto. A minha tinha-me dito: é melhor médico que há no concelho de Louzada. Ia conhecer a Vila, sítio que nunca estivera, mas ouvia falar dela os meus pais e os meus irmãos mais velhos. Diziam que era bonita, diferente de todas as outras Aldeias do concelho, que, também já fora Aldeia do Torrão e rua muito importante que a rainha D. Maria II elevara a Vila denominando-a de Louzada.

Nesse sábado de boa memória lá fui ladeado pelo meu pai o que me conferia segurança e importância, apesar da roupa coçada que herdara de um dos meus irmãos mais velhos, mas muito vaidoso dos meus sapatos engraxados e brilhantes, também uma herança, cozidos e recozidos, velhos, de solas gastas e um número acima do meu tamanho, e cambados, mas um luxo para mim. Calcorreamos carreiros e caminhos de cabra, dissemos adeus a Sant’ Ana serena no seu trono e na sua capela asseada e de portas escancaradas, de festeiros afadigados e altifalantes do senhor Moreira de Macieira dando música ao monte, às nuvens brancas e ao céu azul brindados com fados e guitarradas. As bermas do caminho embandeiradas, o monte engalanado com luzinhas multicolores e alegria a rodos.

Passamos o cruzeiro ereto no monte do mesmo nome e aportamos a Boim. Num instante ultrapassamos o cruzeiro dessa freguesia e alcançamos Arcas e daí, num pulo, a casa do médico do povo, assim chamado pela sua bondade e desprendimento pelos mais pobres. Uma simpatia. Receitou uma pomada milagrosa que arrumou de uma vez por todas com as arreliantes remelas que há meses não deixavam os meus olhos em paz. O meu pai ainda tentou, mas o bom doutor não aceitou o dinheiro da consulta, dizendo-lhe que os pobres tinham sempre a porta aberta, que fosse comprar a pomada milagrosa. Fiquei a gostar daquele médico bom. E depois partimos em busca da farmácia. O meu pai disse que íamos à que ficava na rua de Santo António.

Iniciamos a caminhada pela rua Visconde de Alentém, que foi um homem muito importante para Louzada, morreu há muitos anos. Elucidou-me o meu pai. Poucos metros percorridos e viramos à direita penetrando na vetusta rua que deu o nome a Louzada. Afinei o olhar e apreciei aquela estreiteza, as casas altas e telhadas quase colidindo umas com as outras. Umas mais nobres do que outras, de pátio fechado, e outras rústicas e de aspeto pobre, mas todas diferentes das que eu conhecia. Rejubilei. Pela primeira vez podia apreciar a memória antiga e que pertencia a todos os Louzadenses e também a mim. Senti-me um privilegiado por fazer parte da história de Louzada.

Há dias senti-me imensamente triste quando me informaram que mais uma memória seria arrancada àquela imemorial rua. Falo da casa que durante muitas décadas foi uma das tascas mais procuradas da Vila de Louzada e que se ergue logo a seguir à Câmara de Lousada, dos velhos Paços do Concelho, à esquerda para quem se dirige à farmácia Fonseca. Esta casa remonta a 1731, data insculpida na fachada principal sob um vetusto nicho, sinal claro de que presenciou as múltiplas memórias que contribuíram para a Louzada que todos conhecemos atualmente. Independentemente do que ali for construído pela municipalidade, dona e senhora da propriedade, que seja preservada de forma que todos os Louzadenses não esqueçam o seu passado. Portanto, espero que não seja derruída mais esta parcela da nossa identidade.

José Carlos Silva

Professor / Historiador

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