O espaço patenteado elege uma área única para a capacidade arquitetónica, onde se revelam diversos jogos de composição entre os elementos estruturais e decorativos.
Fachada, é a «face do edifício, constituindo o elemento mais mediático de toda a construção.»1 Ela é, numa análise redutora, o resultado, final, correspondente a esse ato criativo, onde o criador se exibe, dado que será a única referência visual, enquadrada na paisagem do dia-a-dia das pessoas que a contactam.
Observar uma fachada e procurar compreendê-la, da mesma forma que ler um poema e ficar a conhecer a sua mensagem, não é tarefa fácil. Por isso, tal como um poema nos dá prazer, a contemplação de uma fachada «pode deliciar quem seja sensível à arte da Arquitetura e consiga ultrapassar a mera constatação de um mero número de x pilastras, um número y de portas e janelas e um número z de volutas e cornijas.»2 Ela é, entre todas as partes da conceção dos elementos constitutivos do uno a edificar, uma das mais difíceis de concretizar. A operação de a delinear foi, é e será sempre uma das ocasiões mais inabalavelmente rigorosas do ato de construir, sem esquecer a mais-valia dos outros componentes.

A casa nobre lousadense do século XVIII insere-se nas características que Carlos de Azevedo refere para a casa nobre portuguesa em geral e que Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves adotou. As características que a particularizam resumem-se: «no esforço arquitetónico e decorativo concentrado na fachada; no desenvolvimento horizontal, criando longas fachadas, articuladas com pilastras lisas pouco salientes, e acentuadas, sobre os telhados, por ornatos (urnas, fogaréus, e pináculos); na existência de um piso dominante; o andar nobre, com janelas «quase sempre mais ricas do que no andar térreo»; na acentuação da linha superior do edifício (emprego de frontões); na importância da entrada nobre, «enriquecida com colunas e pilastras», sustentando «balcão com parapeito ou simples grade, continuada por uma janela central de tipo mais rico e rematada pelo brasão de armas da família», criando-se assim um eixo vertical que divide a fachada em duas zonas iguais.»3 De que são exemplo as casas da Bouça, Ronfe e Porto. E ainda há fachadas rasgadas por «janelas de sacada e janelas de peitoril, com ombreiras, peitoris e lintéis lisos. As portadas são também simples»4 – que podemos encontrar nas casas de Argonça, Cam e Cáscere.


As casas de Alentém, Bouça, Porto e Ronfe exibem fachadas muito semelhantes, apresentando frontão triangular e exibindo no tímpano a pedra de armas.

Na casa do Valteiro é visível uma fachada equilibrada e simétrica, com a entrada principal a servir de eixo de composição. Nas duas primeiras casas, as capelas não perturbam a composição, sujeitando-se tanto quanto possível «às linhas da fachada e repetindo elementos desta – portas e janelas.» 5 Na casa do Valteiro esta asserção é uma evidência: do lado direito a capela e do esquerdo o terceiro corpo é rematado por um frontão.


________________________________
1 – QUINTÃO, José César Vasconcelos – Fachadas de Igrejas Portuguesas de Referente Clássico. Porto: Edição da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. 2005, p. 34.
2 – QUINTÃO, José César Vasconcelos – o. c., p. 34.
3 – FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. – o. c.,p. 16.
4 – FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. – o. c.,p. 16.
5 – AZEVEDO, Carlos de – o. c., p. 83.
Obras consultadas:
– AZEVEDO, Carlos de – Solares Portugueses. Introdução ao Estudo da Casa Nobre. 2ª Edição. [s/l]: Livros Horizonte. 1988.
– Joaquim Jaime Ferreira-Alves, A Casa Nobre no Porto Na Época Moderna, Edições Inapa, abril de 2001
– QUINTÃO, José César Vasconcelos – Fachadas de Igrejas Portuguesas de Referente Clássico. Porto: Edição da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. 2005,
José Carlos Silva
Professor / Historiador












Comentários