A Casa Nobre No Concelho de Lousada – Tipologias – Fachada

O espaço patenteado elege uma área única para a capacidade arquitetónica, onde se revelam diversos jogos de composição entre os elementos estruturais e decorativos.

Fachada, é a «face do edifício, constituindo o elemento mais mediático de toda a construção.»1 Ela é, numa análise redutora, o resultado, final, correspondente a esse ato criativo, onde o criador se exibe, dado que será a única referência visual, enquadrada na paisagem do dia-a-dia das pessoas que a contactam.

Observar uma fachada e procurar compreendê-la, da mesma forma que ler um poema e ficar a conhecer a sua mensagem, não é tarefa fácil. Por isso, tal como um poema nos dá prazer, a contemplação de uma fachada «pode deliciar quem seja sensível à arte da Arquitetura e consiga ultrapassar a mera constatação de um mero número de x pilastras, um número y de portas e janelas e um número z de volutas e cornijas.»2 Ela é, entre todas as partes da conceção dos elementos constitutivos do uno a edificar, uma das mais difíceis de concretizar. A operação de a delinear foi, é e será sempre uma das ocasiões mais inabalavelmente rigorosas do ato de construir, sem esquecer a mais-valia dos outros componentes.

Fachada principal da Casa de Ronfe, 2005

A casa nobre lousadense do século XVIII insere-se nas características que Carlos de Azevedo refere para a casa nobre portuguesa em geral e que Joaquim Jaime B. Ferreira-Alves adotou. As características que a particularizam resumem-se: «no esforço arquitetónico e decorativo concentrado na fachada; no desenvolvimento horizontal, criando longas fachadas, articuladas com pilastras lisas pouco salientes, e acentuadas, sobre os telhados, por ornatos (urnas, fogaréus, e pináculos); na existência de um piso dominante; o andar nobre, com janelas «quase sempre mais ricas do que no andar térreo»; na acentuação da linha superior do edifício (emprego de frontões); na importância da entrada nobre, «enriquecida com colunas e pilastras», sustentando «balcão com parapeito ou simples grade, continuada por uma janela central de tipo mais rico e rematada pelo brasão de armas da família», criando-se assim um eixo vertical que divide a fachada em duas zonas iguais.»3 De que são exemplo as casas da Bouça, Ronfe e Porto. E ainda há fachadas rasgadas por «janelas de sacada e janelas de peitoril, com ombreiras, peitoris e lintéis lisos. As portadas são também simples»4 – que podemos encontrar nas casas de Argonça, Cam e Cáscere.

As casas de Alentém, Bouça, Porto e Ronfe exibem fachadas muito semelhantes, apresentando frontão triangular e exibindo no tímpano a pedra de armas.

Fachada principal da Casa do Valteiro (2005).

Na casa do Valteiro é visível uma fachada equilibrada e simétrica, com a entrada principal a servir de eixo de composição. Nas duas primeiras casas, as capelas não perturbam a composição, sujeitando-se tanto quanto possível «às linhas da fachada e repetindo elementos desta – portas e janelas.» 5 Na casa do Valteiro esta asserção é uma evidência: do lado direito a capela e do esquerdo o terceiro corpo é rematado por um frontão.

Fachada principal da casa do Ribeiro, 2005

________________________________

1 – QUINTÃO, José César Vasconcelos – Fachadas de Igrejas Portuguesas de Referente Clássico. Porto: Edição da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. 2005, p. 34.

2 – QUINTÃO, José César Vasconcelos – o. c., p. 34.

3 – FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. – o. c.,p. 16.

4 – FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. – o. c.,p. 16.

5 – AZEVEDO, Carlos de – o. c., p. 83.

Obras consultadas:

– AZEVEDO, Carlos de – Solares Portugueses. Introdução ao Estudo da Casa Nobre. 2ª Edição. [s/l]: Livros Horizonte. 1988.

– Joaquim Jaime Ferreira-Alves, A Casa Nobre no Porto Na Época Moderna, Edições Inapa, abril de 2001

– QUINTÃO, José César Vasconcelos – Fachadas de Igrejas Portuguesas de Referente Clássico. Porto: Edição da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. 2005,

José Carlos Silva

Professor / Historiador

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

João Silvestre: “Temos um grupo que pode surpreender neste campeonato”

O novo treinador da AD Lousada, em entrevista exclusiva ao Louzadense, antevê o arranque da...

AMBIENTE & PATRIMÓNIO, POR ERNESTO GONÇALVES

A POUPA — A ave com uma crista de guitarrista punk-rock Há aves que até podem passar...

Segurança de cosmética: a conta que polícias e cidadãos estão a pagar

Durante décadas, a política de segurança pública em Portugal foi marcada por uma progressiva...

Entrevista: Cafi Sousa, do Inferno das Febras e a estrela americana Chris Lembrach

Esta é uma breve entrevista centrada na componente política, que está fortemente presente nos...

Paula Teles prepara álbum que mistura Rock e Fado

A vocalista Paula Teles, a artista lousadense com maior atividade no panorama rock e metal do...

Artista Leonor Afonso expõe na Contextile 2026

Uma jovem artista de Lousada apresenta em Guimarães uma obra inspirada no stress e na ansiedade...

Vindimas 2026: Adega Cooperativa de Lousada já definiu calendário para entrega de uvas

Campanha arranca a 1 de setembro e prolonga-se, previsivelmente, até 25 de setembro, com a receção...

Casais e o Seu Lado Lunar

Há lugares que se descrevem pela geografia. Outros, pela história. Casais, porém, pertence ao raro...

IL LANÇA “DADOS ABERTOS LOUSADA”

NOTA DE IMPRENSA DA Iniciativa Liberal Lousada de 17 de agosto de 2026A Iniciativa Liberal de...

PSD Lousada aponta “falta de ambição estratégica” e abstém-se na votação do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS)

Os vereadores do Partido Social Democrata (PSD) na Câmara Municipal de Lousada abstiveram-se hoje,...

Siga-nos nas redes sociais