Um professor que se tornou gestor de escolas

LINO FERREIRA, CIDADÃO DE GRANDEZA ESPIRITUAL E FÍSICA

Na grandeza do seu tamanho físico transborda um humanismo notável neste cidadão que hoje O Louzadense destaca.  Nasceu no Brasil e vive no Porto, mas Lino Ferreira afirma-se “lousadense de Caíde de Rei”. Essa amplitude geográfica corresponde à imensidão do seu humanismo e interesse pelo desenvolvimento social e pedagógico. A docência, a direção e gestão escolar emergem num currículo que tem passagens notáveis pela vereação da Câmara do Porto, a convite do seu amigo Rui Rio; pelo governo português, onde foi adjunto do secretário de estado da educação; e gestor da Área Metropolitana do Porto.

Nasceu no Rio de Janeiro (Brasil), há 71 anos, filho de dois lousadenses: a sua mãe de Macieira e o seu pai de Vilar do Torno e Alentém. O seu pai emigrou para o Brasil, com 15 anos, em 1927. Foi comerciante sempre ligado ao ramo alimentar, com mercearias, restaurantes, cafés e bares. Na década de 50 veio a Portugal, de férias, já com algumas “patacas” no bolso. Comprou uma casa e uma pequena quinta em Caíde de Rei. Casou e voltou para o Brasil.

“Em 1952, nasci no Bairro de Laranjeiras do Rio de Janeiro, onde fiz a instrução primária”, refere Lino Ferreira. Em 1963, “viemos definitivamente para Portugal, eu fiquei encantado com Caíde de Rei. Ali eu era livre!”, exclama, explicando de seguida que “com apenas 11 anos, eu podia sair de casa e ir para a rua brincar com amigos. Não precisava de sair sempre de mão dada com o pai ou com a mãe, como no Brasil”.

Em Caíde viveu grande parte da adolescência e juventude: “quando estudava no Porto, ia todos (ou quase todos) os fins de semana para Caíde, a minha terra de adoção, que assim considero ainda hoje”.

“Formámos um Grupo de Jovens, que, semanalmente, no fim da missa de domingo, reunia e refletia sobre valores e desenvolvimento social. Criámos um jornal que, apesar da sua simplicidade e apresentação rudimentar, era lido e estimado por toda a população. Caíde era (e ainda é) de facto, a minha terra!”, destaca Lino Ferreira.

Estudou sempre no Porto e quando se deu o 25 de abril de 1974 já frequentava a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no curso de Filosofia. “Era o curso com os alunos mais politizados, que estudavam e discutiam ideias, regimes políticos e a atualidade do País, sobretudo matérias ligadas à guerra colonial. Não foi muito pacífica a vida académica durante o curso. Era altura do PREC e das greves estudantis”, recorda.

MAIS ADMINISTRADOR QUE DOCENTE

Terminado o curso, foi dar aulas: “comecei em Silves, no Algarve, depois Bragança e, mais tarde, fixei-me em Baltar, já bem perto do Porto. Durante esse período, senti muita vontade de experimentar a gestão escolar. Dirigi a Escola de Silves e, mais tarde, a de Baltar, durante vários anos. Eu gostava da administração pública e da gestão. Os colegas também pareciam satisfeitos com a minha direção. Verdade seja dita: eu gostava muito mais da administração do que de dar aulas”, confessa.

Como diretor escolar, destaca as “inúmeras reuniões com altos responsáveis do Ministério da Educação e com Autarcas” e salienta que “no início da década de 80, fui convidado, pelo então Secretário de Estado da Educação, para integrar um pequeno grupo, no Porto, para traçar os alicerces para a criação das Direções Regionais de Educação, que viriam a surgir mais tarde”.

Foi um período “muito rico na minha vida profissional, em que estudei, investiguei, experimentei e ajudei a operacionalizar grandes reformas. Trabalhei quase sempre no planeamento e na gestão da Rede Escolar. Foi o período do alargamento da escolaridade obrigatória que obrigou à construção de muitos novos edifícios e pavilhões desportivos, como é o caso da escola EB2,3 e do pavilhão desportivo de Caíde de Rei”, explica.

Entretanto, correspondendo “a um convite do Prof. Doutor Pinto Machado, Governador de Macau, integrei a sua comitiva e fui para aquele território, no sul da China, onde trabalhei, chefiando a Direção de Educação”.

Quando regressou a Portugal, foi para a Direção Regional de Educação do Norte e revela, de forma simples mas muito sentida: “foi onde fui mais feliz. E onde me senti mais útil à minha região e ao meu País. Dirigi aquela casa durante doze anos, nove como Diretor Adjunto, para as áreas do planeamento, das construções e do orçamento e três como Diretor Regional”.

Por inerência do cargo trabalhou com vários Ministros da Educação e Secretários de Estado e “independentemente da sua cor partidária” com todos se deu bem.

“Coordenei uma equipa de excelência de grandes técnicos. Era uma verdadeira equipa de engenheiros, arquitetos, técnicos de planeamento, responsáveis pelo setor pedagógico e da ação social escolar e conheci de perto os 86 municípios da Região Norte, os seus autarcas e a esmagadora maioria das suas escolas”, refere, com apreço e até saudade.

A SUA FELICIDADE NA DREN

Apesar de ter tido “alguns convites para entrar na política ativa”, para integrar equipas concorrentes à liderança de câmaras municipais, declara que nunca se sentiu verdadeiramente atraído por estas áreas da gestão. Contudo, em 2005, aceitou “um convite pessoal do Dr. Rui Rio, para integrar a sua equipa do segundo mandato na Câmara do Porto. Foi uma experiência muito enriquecedora e diversa face a tudo aquilo que tinha feito em termos profissionais. Fui vereador do Urbanismo e da Mobilidade na cidade do Porto. Agarrei mais esta experiência com todas as minhas forças”.

Depois disso, Lino Ferreira integrou durante os últimos anos da sua vida profissional, a Comissão Executiva da Área Metropolitana do Porto (AMP), que coordenou durante oito anos.

Na AMP, que tem 17 municípios, da Póvoa de Varzim a Arouca e até Paredes, a sua função “era essencialmente de acompanhamento desses municípios, sobretudo nas candidaturas a fundos europeus, de apoio ao desenvolvimento regional”.

Já no final desta entrevista, questionamos Lino Ferreira sobre o que mudaria se pudesse voltar atrás na sua vida profissional. Sem hesitar afirma que “se voltasse atrás, com muito prazer seguiria o mesmo caminho profissional. Agora, sabendo mais, muito mais, faria talvez as coisas com maior facilidade e sem tanto esforço. Seria gestor, sem dúvida, mas aproveitaria parte do meu tempo para estudar e investigar em novas áreas do saber no mundo das ciências humanas. Procuraria colher ensinamentos para partilhar com professores, pais e população em geral, para que melhor pudessem apoiar os nossos jovens na sua formação ao longo da vida”.

Da sua atualidade e do que poderá vir aí, Lino Ferreira revela: “ainda estou naquela fase de recém aposentado, a descansar, a usufruir do prazer de acompanhar o nascimento e crescimento das minhas netas e a arrumar papéis que fui colecionando ao longo da minha vida profissional”

No futuro, espera “ser mais ativo em ações de voluntariado junto dos jovens, nomeadamente nas áreas da literacia financeira e da inovação social, temas em que tenho vindo a aprofundar”.

No seu timbre pedagógico e preocupado com o desenvolvimento das localidades e das populações, Lino Ferreira deixa duas referências concretas a preocupações que o ocupam e preocupam: “é urgente apoiar a juventude, no início da sua vida profissional, nas questões de gestão do seu dinheiro, nos contactos com os bancos e com outras instituições de crédito, sobretudo as que emprestam dinheiro com “inúmeras facilidades. É também urgente ter outra visão da segurança social, incapaz de assegurar para sempre apoios unicamente dependentes do orçamento de estado. Temos muito a inovar nesta área. Há já muito bons exemplos de empresas sociais que materializam experiências inovadoras com grande sucesso”.

Muito mais haveria para dizer sobre este pedagogo notável, cuja aposentação não será certamente motivo para sair da cena pública.

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