por | 3 Fev, 2024 | Abril Louzadense, Cultura

O “General Sem Medo”

ABRIL LOUZADENSE (VIII)

O fascismo salazarista enquanto ideologia política nacionalista e autoritária, caracterizada por poder ditatorial, repressão da oposição por via da força e forte dominação da sociedade e da economia, sofreu um forte abalo em 1958.  A candidatura de Humberto Delgado a presidente da República fez a porta da democracia abrir uma frincha. Ela iria abrir totalmente 16 anos depois. Em Lousada, foi grande a falange de apoio ao “general sem medo”. Crê-se que também aqui houve (grande) fraude eleitoral a favor de Américo Tomás.

O ano de 1958 foi decisivo para o recrudescer da luta democrática em Portugal. O regime fascista sofreu o primeiro abalo digno desse nome, nas eleições presidenciais. Desde logo o presidente em funções (Francisco Craveiro Lopes) entrou em conflito com Salazar e não se propôs a novo mandato. O candidato do regime foi o almirante Américo Tomás. A oposição democrática apoiou o general Humberto Delgado. Houve também uma terceira candidatura (Arlindo Vicente) arquitetada pelo Partido Comunista Português, mas este desistiu a favor de Delgado, com o objetivo de reunir as forças da oposição em torno de uma única candidatura.

O seu nome ficaria de tal forma ligado à democracia portuguesa que são raras as localidades que não têm o seu nome numa rua ou avenida. Lousada perpetuou-lhe homenagem atribuindo o seu nome a uma artéria central da vila. Nesta localidade foram muitos os apoiantes de Humberto Delgado, com Manuel Pires Teixeira da Mota à cabeça de um amplo grupo de apaniguados como Clemente Ribeiro de Bessa, Artur Amorim, José Manuel Magalhães Barbosa, Jaime Correia, Antero de Sousa e Silva e, claro, Rui Feijó, da Casa de Vilar (Senhora Aparecida).

Vindo de comboio até ao Porto, no dia 14 de Maio, onde o esperava um mar de gente (certos analistas referem 200.000 pessoas), para fazer o seu primeiro comício da sua campanha. Foi de tal maneira recebido que declarou: “o meu coração ficará no Porto”.

Dias antes, em Lisboa, respondendo a uma jornalista da France Press, sobre o que faria com Oliveira Salazar no caso de vencer as eleições, disse: “Obviamente demito-o”, tirada esta que lhe valeu o famoso epíteto de “general sem medo” naquela que foi certamente uma das maiores afrontas de alguém ao ditador.
No dia seguinte (15 de Maio), Humberto Delgado visitou (demoradamente) Penafiel, acompanhado pelo penafidelense Rodrigo de Abreu, um dos principais apoiantes do General, em cujo carro Humberto Delgado fez campanha pelo Norte do país.

Um contemporâneo dessa época e apoiante indefetível do “general sem medo”, é José Manuel Magalhães Barbosa, lousadense de 98 anos. Recorda que em 1948, com 26 anos de idade, já tinha apoiado a candidatura do General Norton de Matos contra o candidato do regime, Marechal Óscar Fragoso Carmona, Presidente em exercício. “Acontece que nesse verão adoeci gravemente, com uma apendicite aguda. Por prevenção, me levou de urgência ao Hospital da Irmandade do Terço da Lapa, no Porto” e só pensava em recuperar para participar na campanha a favor de Norton de Matos.

“VIRAR PARA A PAREDE… E MIJAR!”

“Regressado a Lousada, e já mais robustecido, em Janeiro de 1949, andei envolvido, naquelas noites frias, na campanha eleitoral do General Norton de Matos, distribuindo propaganda e colocando cartazes, na companhia do senhor Manuel Pires Teixeira da Mota”, relata Magalhães Barbosa.
Nesse tempo, “a iluminação pública desligava-se à meia-noite, ficando unicamente acesa a lâmpada da torre da capela do Senhor dos Aflitos, que espalhava uma ténue claridade pela Vila. Então, se algum automóvel – raríssimos na época – se aproximava da trupe em campanha, ouvíamos – eu e os outros companheiros envolvidos – a voz do senhor Manuel Mota ordenando: virar para a parede…e mijar. Era para os situacionistas não nos verem a cara”, esclarece aquele lousadense.

A campanha “foi bem conseguida, especialmente no Porto, com os dois comícios de Janeiro de 1949 no espaço de quinze dias, o primeiro no Campo do Salgueiros e o segundo no Centro Hípico da Fonte da Moura (hoje Av. Dr. Antunes Guimarães) que reuniu de 100.000 e até 150.000 pessoas, segundo alguns cálculos”, recorda.
“Presente na tribuna, além do candidato e outras individualidades, esteve o embaixador Dr. Duarte Leite, que foi da Casa de Vila Pouca, Meinedo”, lembra Magalhães Barbosa, segundo o qual “o comício de Salgueiros (no Campo Vidal Pinheiro, hoje uma estação do metro), o único recinto que se disponibilizou, reuniu nove a dez mil oposicionistas, mas custou ao Sport Comércio e Salgueiros, para sempre, não receber benefícios do governo salazarista. Tempos, depois, o regime proibiu a cedência de recintos desportivos para manifestações políticas”.

Entretanto, a repressão do regime era cada vez mais intensa: os saneamentos, demissões e prisões estavam na ordem do dia e dos cadernos eleitorais pouco ou nada se sabia como estavam organizados. As contradições no campo democrático acentuavam-se entre as suas forças. Não havia condições para participar: três dias antes do ato o General Norton de Matos desistia da sua candidatura.

A semente germinou e a flor da democracia cresceu forte entre os seus defensores, que aumentaram em milhares dez anos volvidos, no apoio a Delgado. Marcante. Decisivo. Dezasseis anos depois deu-se Abril.

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