A união do bairrismo com as artes

JOAQUIM SILVA CARDOSO

O bairrismo é muito forte em Joaquim Silva Cardoso, que ama verdadeiramente a localidade da Senhora Aparecida. É uma das caraterísticas mais marcadas na sua vida, de tal modo que afirma: “aqui nasci, aqui cresci e aqui morrerei”. Foi industrial e comerciante numa empresa quase centenária. O Fado, a Poesia e a Pintura são algumas das paixões deste aparecidense, que também passou pela política, pelo desporto, pela comissão de festas e outras áreas da vida pública local e concelhia.

Aos 75 anos, Joaquim Silva Cardoso olha para o passado e vê gratidão e apreço por tudo o que viveu. Foi um dos quatro filhos de José Cardoso da Silva, de Travanca, e Emília da Silva, de Cernadelo. Este casal instalou-se na Senhora Aparecida, bem perto do santuário.

A primeira vez que cantou em público “interpretei o tema «Loja do Mestre André», numa festa de fim de ano da escola primária”. Aos 10 anos foi, com o irmão José, viver para casa duns tios e estudar na escola secundária Gomes Teixeira, na Praça da Galiza, do Porto. Depois do ciclo preparatório, transitou para a Escola Industrial Infante D. Henrique. “Era raro alguém de tão longe ir para aquelas escolas. Os nossos pais faziam muito sacrifício para que pudéssemos estudar. Este facto, mais as saudades que sentíamos, fizeram a mim e ao meu irmão dizer que não queríamos estudar mais”, recorda Joaquim Cardoso.

De volta à Aparecida, com 13 anos, foi trabalhar para a oficina de latoaria, do pai, que tinha aprendido essa arte em Freamunde. “Certo dia ganhei coragem e pedi ao meu pai que comprasse um rádio para ouvirmos música na oficina. Já éramos 7 ou 8 empregados. Achei que era um pedido algo arriscado, pois o meu pai poderia pensar que iria diminuir a produção. Mas, como também ele gostava muito de música, aceitou a minha sugestão. E o que é facto é que a produção até aumentou”, afirma com agrado.

Esse rádio foi decisivo no aparecimento da paixão de Joaquim Cardoso pelo Fado: “os acordes da guitarra portuguesa, as canções de Lisboa, o fado tradicional português e a poesia popular na voz dos fadistas, tudo isso me encantava e eu cantarolava esses temas. Começou-se a constar este meu gosto e o Pedro Lemos, que era um apaixonado por Fado, levou-me ainda muito jovem a cantar no Clube Recreativo, que havia na Casa das Brasileiras. Recordo-me que me ajudaram a subir para uma mesa para cantar”. Ali se deu o início de uma carreira fulgurante.

Entretanto, a tropa surgiu na vida de Joaquim. “Estive na guerra em Angola, onde fui rádio-telegrafista, que era uma função chave na segurança e comunicação. Foi uma experiência que recordo sempre pelo lado positivo. Ganhei bons amigos para a vida e fiquei encantado com África”, declara o nosso entrevistado, que se revela como “pessoa muito curiosa, com gosto de conhecer culturas, de apreciar outras tradições e adquirir novos conhecimentos”.

Vinte e sete meses depois, regressou a Portugal, tendo sido recebido em festa na sua terra natal.

FADISTA AO ESTILO DE ALFREDO MARCENEIRO

De volta ao trabalho, encontrou a oficina do pai a transformar-se numa empresa de indústria e comércio de pulverizadores e máquinas agrícolas. O jovem Joaquim Cardoso, com o pai e o irmão António, estabeleceu-se num negócio que expandiu ao longo de quase 40 anos.

Um momento de fado na Casa Museu Alfredo Marceneiro em Lisboa, 2022

Ao mesmo tempo desenvolveu a sua faceta de fadista e recorda que foi “muito influenciado e apoiado pelo guitarrista Jorge Neto, que foi um polícia natural de Linhares, mas que viveu na Senhora Aparecida, e pelo guitarrista Casimiro Moreira”.
A fama galgou pelos arredores e Joaquim Cardoso conheceu Emílio dos Santos e o seu estúdio em Penafiel. Ali gravou, em 1991, “Desde Menino”, em cassete. Seis anos depois foi a vez do disco “Com Guitarras” (com o qual fui à Praça da Alegria, na RTP1, em 1997) e em 2004 gravou “O Lado de Cá do Fado”.

Capa do disco mais recente de Joaquim Cardoso

Devido ao estilo e ao timbre vocal, foi desde muito cedo conotado com Alfredo Marceneiro, que foi um fadista português que marcou uma época, detentor de uma voz inconfundível tornando-se um marco deste género da canção em Portugal. “Identifico-me muito com Alfredo Marceneiro, que é sem dúvida a minha referência maior no fado, de tal forma que me interessei por saber quem ele era; conheci o filho Alfredo Duarte Júnior e o neto Vítor Marceneiro, que me convidou para fazer parte da Fundação Alfredo Marceneiro, reconhecido como patriarca do Fado”, salienta o fadista Aparecidense.

Dos muitos “eventos inesquecíveis que o Fado me proporcionou, um dos mais importantes aconteceu a 5 de Dezembro de 1992, quando Amália Rodrigues atuou no salão nobre da residencial Estrada Real e eu abri o concerto dela. “No final, Amália chamou-me à sua mesa e confidenciou-me: «tem uma forma muito bonita de cantar o Fado. Continue sempre assim». São palavras que muito me orgulharam e honraram”, revela Joaquim Cardoso.

RELANÇOU A MODA DAS JANEIRAS

Na área associativa, foi dirigente do Aparecida Futebol Clube durante 25 anos. Lembra que esteve “dezanove anos como colaborador e seis como presidente da Direção, levando o Aparecida a subir à Divisão de Honra da AFPorto. Tive a particularidade de meter pela primeira vez mulheres como dirigentes do clube. Fui responsável por organizar as Janeiras, cuja receita era sempre muito importante para o orçamento” e acrescenta “com orgulho e até vaidade, digo que fui eu quem relançou a moda das Janeiras, em 1972, altura em que eu elaborava letra e música e ensaiava o grupo”. A escrita de poemas e quadras é também uma paixão iniciada ainda em jovem, desenvolvida depois em Angola e pela vida fora. “Há jovens da Aparecida, que cantam nas Janeiras poemas, que nem sonham quem os escreveu”, diz com um sorriso.

Esta proeminente figura local e regional não passou despercebida aos dirigentes partidários. Neste âmbito afirma que foi convidado “por todos os partidos para a Junta de Freguesia do Torno, mas fui recusando os convites. Até que, certo dia, fui convidado para a Assembleia Municipal, por três pessoas merecedoras da minha maior estima e consideração: o falecido Dr Mário Fonseca, o Dr. Jorge Magalhães e o Carlos Massas. Não tive como recusar. E estive 12 anos naquele órgão autárquico”.

O seu sentido bairrista levou-o a pertencer à organização da famosa Romaria em honra da Senhora Aparecida. “Posso em boa verdade dizer que deixei uma marca dessa minha passagem. Foi em 1984 que, pela primeira vez, o cartaz da romaria foi ilustrado com uma pintura da minha autoria e que foi um belíssimo reclame de promoção da localidade e da sua festa. Era um cartaz promocional e à parte começou a ser utilizado um folheto com o programa e publicidade”, descreve Joaquim Cardoso.

PINTURA, UMA OUTRA PAIXÃO

Menos conhecida mas muito presente na vida adulta deste destacado Aparecidense, é a pintura. “Desde a infância que tenho este gosto pelo desenho e pela pintura. Lembro-me muito bem de um episódio quando, teria eu 8 anos, fui à mercearia do Antoninho da Ceivada, pai da minha madrinha e freira Irmã Lucília, e ele disse que tinha ouvido dizer que eu desenhava muito bem. Então deu-me um lápis para reproduzir uma rosa. Lembro-me que ficou muito bem”, narra com vivacidade. Ao longo da vida foi desenvolvendo essa paixão, direcionada sobretudo para pintura a óleo, de paisagens rurais e urbanas. “Não posso deixar de referir o quanto significou para mim o primeiro quadro que pintei, com uma paisagem de Angola, o qual ofereci ao meu amigo Albino Mesquita”, salienta.

Tal como no Fado, identifica-se como um autodidata na Pintura, atividade que ganhou mais expressão quando se reformou da atividade comercial, que entretanto passou a um sobrinho. “Já participei numa exposição coletiva no antigo Espaço Artes, em Lousada, depois no Ritual Bar, do João Babo, na Aparecida, e em Abril do ano passado fiz a minha primeira exposição individual, na Junta de Freguesia”, descreve o pintor, que brevemente vai ter duas obras patentes na Biblioteca Municipal de Lousada, numa mostra coletiva de pintores locais.

Terminamos esta entrevista biográfica como começamos, com referência à família. Do casamento (em 1976) de Joaquim com Graça Moreira, nasceram os filhos Cristiano e João Pedro, e os netos João Delfim, Ana Raquel e José Mário.

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