por | 21 Mar, 2024 | Editorial, Editorial

Editorial 117 | Primavera Política

Os resultados das recentes eleições legislativas auguram uma primavera política bastante intensa. Os dias serão mais longos, as notícias irão desabrochar acontecimentos a cada instante, os comentadores irão trautear dia e noite. Uma primavera política que promete desencadear um verão ainda mais quente que o habitual e um previsível inverno “marcelista”.

O país saiu de umas eleições bastante disputadas, com um resultado “renhido” entre AD e PS, mas muito claro entre “esquerda” e “direita”. Independentemente dos resultados de cada candidatura, importa relevar o aumento de mais de 750 mil votantes nestas eleições, em comparação com as eleições de 2022. Bem diz a sabedoria popular, quando há aumento de votantes é porque há vontade de mudar.

O sentimento popular que reina por esta altura é de preocupação pela governabilidade do país. Um país politicamente fragmentado, com confrontações ideológicas exacerbadas, onde se “diaboliza” uma extrema e se “normaliza” a outra, onde se qualifica o voto e o votante em função do seu ideário político, e onde a luta pelo poder, micro e macro poder, importa mais que a recuperação do país.

Efetivamente, parece ter havido um eleitorado adormecido (abstencionista) que terá votado nos partidos da direita política, e outros mais que em eleições anteriores terão votado na esquerda e que agora depositaram o seu voto na direita.

Ao compararmos os resultados (em território nacional) entre eleições legislativas de 2019, 2022 e 2024, verificamos que de 2022 para 2024 a esquerda política perdeu mais de 315 mil votos, enquanto a direita política ganhou mais de 1 milhão de votos. Se compararmos os resultados de 2019 para 2024 a diferença acentua-se ainda mais entre esquerda e direita: a esquerda perde mais de 375 mil votos; a direita ganha mais de 1,5 milhão de votos. Há, agora, uma diferença de mais de 750 mil votos entre esquerda e direita.

Numa democracia saudável é normal haver polarização política. O problema maior poderá advir não da polarização, mas sim da fragmentação política, sendo esta resultado da democracia e ao mesmo tempo fonte de problemas e preocupações para a governabilidade do país.

Um país “à direita” governado por uma “direita” minoritária poderá enfrentar dificuldades para implementar a sua agenda política, enquanto um país “à direita” governado pela “esquerda” não terá sucesso parlamentar. Um governo de “bloco central” pode ser visto como uma solução temporária, mas não resolve os problemas que levaram a esta fragmentação política.

A solução será encontrada, certamente. Não fosse a democracia um processo contínuo de negociação, escolha e compromisso.

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