por | 27 Mar, 2024 | Abril Louzadense, Cultura

O alerta do P.e Mota e a ousadia do P.e Alvarim

ABRIL LOUZADENSE (XII)

A Igreja portuguesa esteve quase sempre alinhada com o Salazarismo. E muitas vezes a PIDE recorria aos padres para obter informações sobre paroquianos suspeitos de “atividades subversivas”. Naquele tempo, ir contra a Lei e o Estado era ir contra Deus e como tal os padres sentiam-se compelidos a colaborar com a polícia. Mas nem todos os discípulos do clero eram “situacionistas”. Em Lousada, o padre Joaquim Ribeiro da Mota alertou cidadãos para tomarem cuidados, pois estavam debaixo da alçada da ditadura.

O antigo padre de Cristelos e Ordem, que neste ano de 2024 faria 100 anos, foi figura proeminente da educação cívica e escolar em Lousada, nos últimos anos da ditadura. Essa notoriedade devia-se não só à função de padre e professor, mas sobretudo de sócio-gerente do Colégio Eça de Queirós, de cuja gestão também fazia parte, Jorge Macedo Pereira Martins, mais conhecido por “Padre Jorge do Unhão”.

Ambos eram figuras de referência na comunidade lousadense e como tal as autoridades recorriam a eles quando precisavam de colher informações que por outras vias não conseguiam. Um dos cidadãos mais investigados em Lousada foi Manuel Pires Teixeira da Mota, que residia a escassos metros da igreja paroquial de Cristelos.

“A luta pela democracia travou-se na clandestinidade aquando do Antigo Regime. Em Lousada um dos mais aferroados combatentes nessas trincheiras das sombras e da obscuridade foi Manuel Mota” (in Os Louzadenses, Vol.2, de JCCarvalheiras, 2012, p.65). Esteve preso por duas vezes, na segunda das quais esteve nas famigeradas cadeias do Aljube e do Forte de Monsanto. Por intervenção de familiares e amigos não foi deportado para Timor. Numa das muitas diligências da PIDE para controlar os seus movimentos, aquela polícia repressiva do Estado recorreu ao reverendo da freguesia para obter informações.

Copyright 2024 O Louzadense/Helena Oliveira

Em vez de atender ao pedido da autoridade policial, o padre Joaquim Ribeiro da Mota agiu de outra forma. O pároco fez chegar ao visado Manuel Mota o alerta de que o cerco se apertava novamente contra ele. Posto isso, terá feito a mala e pôs-se a salvo em casa de amigos.

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Outros padres locais ficaram conhecidos “por não dizer ámen” a tudo o que advinha do sistema vigente na época. Pelas suas ideias progressistas, que por vezes esbarravam nos cânones do Antigo Regime, recorda-se aqui o também saudoso Alvarim da Fonseca Figueiredo, antigo pároco e docente. Era natural de Válega (Ovar), onde nasceu em 1932, e paroquiou Macieira, Nogueira e Caíde de Rei, entre 1960 e 1973. Neste ano, ousou desafiar a proibição do casamento pela igreja a ex-padres, ao celebrar, na igreja caidense, o matrimónio de um amigo e ex-pároco. Tal irreverência foi motivo para abandonar, também ele, a via eclesiástica, devotando-se depois a uma intensa atividade cívica e pedagógica em Caíde de Rei e em Lousada, onde foi Presidente do Conselho Diretivo da Escola Secundária.

NOTAS DO P.e FEYTOR PINTO

A Igreja nos últimos anos do Estado Novo “era demasiado conservadora, com grande dependência do poder político, com um estatuto de gratidão porque tinha adquirido a liberdade de culto e recuperado os bens confiscados na primeira República. Sinal desta relação de proximidade entre a Igreja e o Estado era, sem dúvida, a amizade do Cardeal Cerejeira com o Presidente do Conselho de Ministros desde Coimbra” (…) Mas vários factos minaram essa relação, nomeadamente a “expulsão de D. Manuel Vieira Pinto, em 1974, obrigado a deixar Moçambique. Acrescia, a tudo isto, “a atitude firme de D. António Ribeiro, Cardeal Patriarca de Lisboa que manteve sempre uma distância crítica dos detentores do poder. Nas suas intervenções, de uma clareza invulgar, afirmava sempre a liberdade da Igreja. É certo que Marcelo Caetano era mais tolerante, mas nem por isso impediu que, na Vigília da Paz, em 1973, fossem presos alguns cristãos entre os quais o Padre Janela. O Patriarca dirigiu-se à prisão e afirmou claramente não sair dali sem trazer consigo o sacerdote detido”.

“Em 24 de Abril de 1974 reuniu-se em Fátima a Conferência Episcopal, com um voto de protesto pela expulsão de D. Manuel Vieira Pinto da sua Diocese em Moçambique. Ficou decidido que, no dia seguinte, uma delegação de bispos iria fazer uma visita de desagravo ao bispo afastado da sua comunidade. Na madrugada do dia seguinte, 25 de Abril, as tropas de vários quartéis avançaram sobre a cidade de Lisboa. A Rádio Renascença, da Igreja Católica, foi interrompida para dar a senha e contrassenha do golpe militar. Foram transmitidas duas canções: Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho e Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso. (…)”

“Entre 25 de Abril e 1 de Maio, sentiu-se entre os cristãos uma grande tensão. Nestes dias, os católicos conservadores temiam, os progressistas rejubilavam, a grande maioria dos cristãos aguardava a reação da Igreja. Começava a sentir-se, porém, um ambiente hostil à Igreja, dando ocasião a muitas situações de medo. Os bispos e os sacerdotes, à sua maneira, mantiveram uma grande serenidade, tentando avaliar as consequências da revolução e ensaiando formas de diálogo com os novos donos do poder”. (in A igreja, o antigo e o novo regime; Vítor Feytor Pinto, 2014, p. 257-262).

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