por | 28 Mar, 2024 | Sociedade, Uncategorized

Flores e portas abertas são duas marcas da Páscoa lousadense

IMIGRANTES ENCANTADOS COM TRADIÇÃO E ALEGRIA PASCAL

A Páscoa assinala o início de vários ciclos da vida social e humana. É uma ode aos recomeços e à renovação, com a Natureza em transição para o esplendor primaveril. No plano religioso a ressurreição de Jesus Cristo é celebrada como uma nova esperança, uma renovação da vida, uma etapa que se abre. Tudo isso é celebrado com alegria e espírito aberto. Os estrangeiros que nos visitam e os muitos (cada vez mais) que para cá se mudam, ficam encantados com estas vivências, entre as quais destacam as flores e a hospitalidade. Alguns admiram-se com as portas abertas de par em par para a entrada de pessoas. Provavelmente é a festividade do ano com mais circulação de pessoas nos lares. Familiares, vizinhos e amigos arribam para comer pão de ló e cabrito, trocar prendas com afilhados e receber a cruz pascal.


Fitch O’ Connell e esposa

Admirador de várias particularidades de Lousada, sobretudo gastronómicas, o inglês Fitch O’Connell diz que a Páscoa é para si “a menos acessível das festas portuguesas. Este facto pode ser facilmente atribuído aos meus anos de formação e à minha educação. O meu pai era um católico irlandês e a minha mãe uma protestante inglesa e os meus dias como católico frequentador da igreja terminaram certo dia”. Acabou por frequentar com a mãe a sua igreja preferida, que se dizia cristã, mas que era mais próxima de uma crença humanista”. A Páscoa era um acontecimento muito ligeiro nesse contexto: “era mais parecida com uma celebração da Primavera do que com a ressurreição de uma divindade”. Antes disso, tinha acumulado algumas “memórias da Páscoa na grande igreja católica da cidade e essas recordações eram sombrias e, tenho de ser sincero, assustavam-me”, confessa O’Connell. Mesmo agora, “confrontado com uma Páscoa portuguesa de grande peso, a minha coragem falha muitas vezes e muito do simbolismo ainda me mergulha num profundo desânimo”, lamenta.

No entanto, nem tudo é negativo: “encanta-me a tradição do compasso pascal e muitas das coisas relacionadas com esta curiosa mistura de solidariedade e superstição, embora agora insista em fazê-lo apenas como observador”.

Anima-o o tal renovar de esperanças, “sinónimo do início da Primavera e que é difícil não apreciar e não aceitar a mensagem positiva de renovação. Devo confessar que adoro a chegada dos cucos, dos canários, das poupas e de outros visitantes primaveris aos campos, mas esperança é esperança, seja qual for a forma que tenha”.

Nesta altura, sente “uma ligeira nostalgia por dois produtos culinários das Ilhas Britânicas” que se consomem nesta época. O primeiro “aparece mais cedo, no início da Quaresma, quando, na primeira terça-feira (“Shrove” uma palavra antiga que denota confissão e absolvição) é tradicional comer panquecas simples polvilhadas com açúcar e sumo de limão”.

Em Portugal, “há a alegria adicional de poder espremer sumo fresco de limões colhidos no nosso próprio limoeiro – um prazer simples que não é possível aos habitantes da ilha do Norte, onde não crescem citrinos. A segunda delícia que importei é da Sexta-feira Santa, quando é tradicional comer Hot Cross Buns, uma forma de pão doce condimentado com o desenho de uma cruz cozida na superfície. Estes são muito para lá de deliciosos e valeu a pena inventar a Páscoa só para ter isso, e foi um prazer apresentar estas duas delícias à minha família portuguesa”, conclui o britânico Fitch O’Connell.

A ALEGRIA DAS PORTAS ABERTAS

Vasile Munteanu

Para o moldavo Vasile Munteanu, esta “é uma época muito emotiva do ponto de vista religioso e social”, com as casas abertas para as pessoas entrarem e conviveram. “Se estiver bom tempo as portas de várias casas não se fecham durante todo o dia, com pessoas a entrar e sair, sempre alegres e bem alimentadas”, diz com satisfação.

Embora trabalhe na Bélgica, este cidadão da Moldávia reside em Lousada há muitos anos. A distância da terra de origem não o fez perder a religiosidade desta data que é a mesma nos dois países: “os cristãos celebram a Páscoa numa mesma data que baseia-se em dois fenómenos naturais, um com data fixa (o equinócio da Primavera), e outro com data variável (a lua cheia). Este último faz com que a data da Páscoa varie todos os anos, mas além disso, a utilização de dois calendários diferentes explica a diferença entre esta celebração para católicos e ortodoxos”. O cidadão moldavo explica que “a Igreja Católica refere-se ao equinócio vernal, de acordo com o calendário gregoriano, enquanto a Igreja Ortodoxa calcula o mesmo evento astronómico de acordo com o calendário juliano (estilo antigo)”.

AS CRUZES NOS BOMBEIROS

Luzia Gaspar Bongo

A angolana Luzia Gaspar Bongo, de 23 anos, está a viver em Lousada há seis anos.

Considera-se uma pessoa religiosa e faz parte do grupo coral de Santa Eulália da Ordem. Em Luanda (Angola), sua terra natal, vivia a Páscoa com muito interesse. Mas lamenta “não poder viver mais a fundo esta festa religiosa em Portugal”, pois trabalha na restauração e o domingo de Páscoa é um dia particularmente muito intenso de trabalho. “Nesse dia servimos imensas refeições a famílias e grupos”, refere a jovem.

“Há diferenças entre a Páscoa de Angola e de Portugal; lá fazem missa e dão a cruz a beijar na igreja, mas não há compasso como aqui em Portugal”, refere Luzia.

“É uma época em que se come muito, principalmente durante todo o dia de Páscoa, e achei curiosa a tradição de comer pão-de-ló com queijo”, afirma.

Já ouviu falar “muito bem” da tradição de Lousada de juntar as cruzes dos vários compassos, no final da tarde de domingo em frente ao quartel dos Bombeiros Voluntários, mas por causa dos compromissos profissionais nunca conseguiu assistir a esse evento.

TRADIÇÕES BRASILEIRAS

Família Paz

O casal brasileiro Tiago Felipe Paz e Amanda Carolina Pinto Paz vivem em Lousada há nove meses e, como tal, ainda não assistiram à “nossa” Páscoa. Mas estão à espera de algo muito semelhante à sua terra de origem, no estado brasileiro de Santa Catarina: “o que mais gostamos da Páscoa é a reunião da família e a caça aos ovos com as crianças, uma tradição que fazemos desde a minha infância”, conta Amanda, que explica que “os adultos escondem os ovos de chocolate, bombons e doces pela casa e quintal e as crianças vão à procura cada um com a sua cestinha”. Vai ser divertido sobretudo para os filhos deste casal, Pedro e Joaquim.

“Pelo que podemos perceber são comemorações bem parecidas em ambos países, mas há diferenças, como por exemplo na gastronomia. Costumamos comer arroz à grega, que é um prato brasileiro que consiste em arroz cozido com passas e legumes picados. Os legumes utilizados na preparação podem ser cenoura, ervilhas, milho e cebolinha”, revela esta jovem brasileira, que acrescenta que uma das sobremesas mais habituais é o “amendoim cri-cri”, ou seja, amendoim crocante e caramelizado com açúcar, xarope de glicose e canela. “Mas como o Brasil é um país muito grande, a tradição em questão da comida muda de região para região”, esclarece.

RUAS FLORIDAS E COMPASSO COLORIDO

Amanda e Danilo Santos

Também brasileira, Amanda Santos diz que “a experiência vivida na celebração da Páscoa é a mesma aqui e no Brasil, religiosamente falando, pois aplica-se o mesmo significado: Jesus Cristo, o filho de Deus, morreu por amor de todos e para remissão dos nossos pecados, cumprindo toda a lei e sendo o sacrifício vivo que ressuscitou dentre os mortos para nos dar acesso a salvação”.

Reside há vários anos em Lousada, onde está casada com Danilo Santos, que comunga da mesma opinião da esposa: “para o cidadão brasileiro é fácil a integração porque há muitas semelhanças e isso acontece também na Páscoa”.

Ambos salientam que a cultura dos chocolates, ovos achocolatados e símbolos (como o coelho) é algo partilhado por ambos os países.

Mas também há diferenças e fazem questão de enunciar uma: “na nossa região do Brasil nunca presenciamos a beleza que encontramos em Lousada, com as ruas decoradas com flores e a procissão muito colorida da passagem do compasso”.


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