por | 29 Mar, 2024 | Economia, Sociedade

Fitch O’Connell na Quinta de Cedovezas

ROTEIRO GASTRONÓMICO DO ESCRITOR INGLÊS

Sempre me orgulhei de ter um sentido apurado de direção e de lugar. Normalmente, consigo percorrer uma área que é nova para mim apenas uma vez e, mais tarde, consigo desenhar um mapa. Outras vezes, parece que tenho o instinto de virar à esquerda e não à direita no próximo cruzamento e encontro o destino pretendido. Não é assim em Lousada. É um dos poucos sítios do universo onde não só preciso dos serviços do Sr. Googlemaps, não só na primeira vez como todas as vezes seguintes. É quase como se estivesse a viajar para uma terra de fantasia, Nárnia ou talvez mesmo a Terra Média do Senhor dos Anéis, habitada por hobbits e elfos.

Fitch O’ Connell

É esta imagem que me ocorre na ida ao restaurante Quinta de Cedovezas. Parece estar localizado no centro desta terra de fantasia difícil de encontrar, mas tornou-se um dos nossos locais favoritos para comer.

Ao completarmos finalmente a missão e entrarmos nos seus portais, poderíamos de facto ser perdoados por pensarmos que tínhamos chegado a um retiro tranquilo do tipo Rivendale, com as suas suaves encostas arborizadas, jardim tranquilo e refúgio acolhedor. Talvez o nosso anfitrião fosse o próprio Lord Elrond. A primeira vez que chegámos à quinta, uma sensação de calma instalou-se em nós, mas isso pode ter sido simplesmente porque tínhamos encontrado o local. Se virmos bem, não era habitada por elfos, mas sim por pessoas mais próximas dos hobbits, não pela sua estatura (eram de tamanho normal) ou pelos seus pés peludos e enormes (não olhámos), mas pelo seu profundo conhecimento e amor pela boa comida.

No interior da grande e antiga quinta, a decoração era uma mistura inteligente do antigo e do novo – muita pedra original e grandes vigas de carvalho no teto e mobiliário de madeira concebido para se adaptar ao espaço.  Pinturas de artistas locais revestem as paredes, juntamente com receitas antigas de pratos tradicionais. Foi feito um grande esforço para dar ao restaurante o ambiente certo – tradicional mas sofisticado.  Foi um daqueles sítios com os quais estabelecemos imediatamente uma ligação. Acomodámo-nos numa mesa agradável, com um espaço adequado entre nós e a mesa ao lado, e admirámos as decorações de mesa com flores e algumas pequenas peças de cerâmica feitas à mão. Estava um dia bonito e o sol entrava pelas pequenas janelas originais e a luz do sol brincava com os objectos de vidro. 

A ementa era mais extensa do que eu esperava, mas foram as especialidades do chefe que me chamaram a atenção e, enquanto a minha patroa preferiu o bacalhau em crosta de broa, eu não resisti aos medalhões de porco preto com alheira de caça. Entrámos então num breve estado de sonho.  Foi uma comida divinal servida num local encantador, da forma como este tipo de comida deve ser servido – com calma, eficiência e um humor delicado.  Os sabores transbordavam das papilas gustativas e perguntei-me porque é que nunca tinha experimentado a alheira como recheio.  A minha patroa estava demasiado ocupada a babar-se para me dizer o quão boa era a sua.

A Quinta de Cedovezas foi um dos poucos sítios onde jantámos durante a pandemia e fizemo-lo porque pensámos que eles teriam as condições adequadas, se é que alguém as teria. Não ficámos desiludidos. Uma das coisas em que fizeram um bom trabalho foi o espaçamento das mesas.  Em vez de simplesmente removerem as mesas e deixarem mais espaço entre as que ficaram, como era habitual, deixaram todas as mesas no lugar, mas decoraram todas as outras de alguma forma para criar um espaço agradável entre cada mesa “activa”.  Havia apenas duas mesas “activas” no canto acolhedor onde estávamos colocados e a mesa do meio estava decorada como uma pequena pedra japonesa ou um jardim zen.  Tinham feito o que a minha avó sempre aconselhou: fazer da necessidade uma virtude.

Noutra ocasião, tínhamos comido carne de porco alentejana e estávamos a recostar-nos nas nossas cadeiras, mais do que saciados, depois de termos devorado uma porção que dava para o dobro de nós. O empregado – um homem enérgico e bem humorado – ficou encantado por ver que tínhamos esvaziado os nossos pratos e que os limpavamos com pão e eu pedi desculpa por não ter comido as conchas de amêijoa.  Estavam um pouco duras, não estavam? pergunta ele.  Estavam, digo eu. Vou falar com o chefe, diz ele.

Claro que o problema de deixar terras encantadas é que temos de encontrar o caminho de volta, para o nosso próprio tempo e lugar. O caminho de regresso é sempre diferente do caminho que tomámos para lá chegar. Ou, pelo menos, pensamos que é. Como se trata de um sítio mágico, nunca se pode ter a certeza. No entanto, conseguimos sempre passar pelo menos uma placa de sinalização para Meinedo que, na nossa cabeça, pode muito bem ser uma placa de sinalização para o bazulaque e, como ambos gostamos um pouco dessa iguaria rara, isso quase garante que em breve nos aventuraremos de novo na Terra Média, com dragões e feiticeiros à vontade, claro.



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