Rafael Telmo da Silva Ferreira, professor e diretor da Valsousa TV
Em setembro faz 25 anos que veio dar aulas para Lousada. Além de lecionar, Rafael Telmo da Silva Ferreira inovou a área das tecnologias da comunicação na escola EB 2/3 de Nevogilde. Foi pioneiro de várias realizações, nomeadamente no Cinema Itinerante, nos média e na WebTV, além de experiências com cinema de animação. É um empreendedor na área tecnológica da comunicação e também na atividade extra escolar. Em jovem fez parte da fundação da que seria a Rádio Paredes e em 2005 criou a valsousa.tv – Vale do Sousa TV. Não quer parar com a concretização de novos projetos. Mas diz-se cansado. “Os professores vivem cansados”, desabafa este docente de 55 anos.
É natural e residente em Paredes, há 55 anos, mas Rafael Ferreira sente “uma forte ligação afetiva” a Lousada. Ainda assim considera-se “um forasteiro” e isso dá-lhe “facilidade para criticar e elogiar, com desprendimento”. Do seu aguçado espírito analítico e crítico saem abordagens acutilantes, próprias de quem gosta de fotografar a vida e o mundo, para expor, interpretar e debater. É um comunicador e um facilitador de comunicação.
Nos quase 25 anos de vivência da realidade escolar e por inerência outras áreas da vida de Lousada, Rafael vê esta localidade como sempre, “uma vila pacata e orgulhosamente vila, que nesse aspeto me faz lembrar Cascais, onde eu adorei fazer férias”. Embora “realizado e bem resolvido” com a área que exerce, Rafael Ferreira confessa que poderia ter seguido arquitetura. Nesse âmbito, diz que “Lousada está com um crescimento urbanístico com harmonia, tem espaços para estacionar, zonas pedonais e vindo de fora não sinto que haja grandes demoras no trânsito”.
Mas é do passado que mais recorda Lousada, pois aqui viveu alguns dos primeiros passos da sua carreira jornalística. “Recordo-me de vir a Lousada ainda muito novo, derivado do facto do meu pai ser muito ligado ao jornal Penafidelense, muito amigo do proprietário, e eu acompanhava-o para tirar fotografias na cobertura de reportagens dele”. Recorda-se em especial da recriação duma espadelada em Lousada “e lembro-me do meu pai lançar um livro sobre o linho, precisamente baseado nessas experiências”.
Bem viva tem também a memória do antigo campo na zona da feira, no início da década de 1990: “recordo-me da falta de espaço para fotografar, de tal modo que ao tirar fotografias tinha os espectadores a tocar nas minhas costas e a puxar-me o casaco”. Da mudança do velho para o novo campo diz achar que “foi controversa a ida lá para cima, para o complexo desportivo, que é algo distante do centro, mas para os meus netos, por exemplo, essa noção de distância já não existirá”.
“SAÍAM-ME PEDRAS DO CABELO”
Também no desporto automóvel tem recordações antigas de Lousada, que relata com emoção: “as primeiras reportagens de fotojornalismo que eu fiz na pista da Costilha eram algo de surreal, mas intenso e com muita adrenalina” e salienta o pormenor da chegada a casa “com muito pó e terra na roupa e ao tomar banho saíam-me pedras do cabelo”.
“A vontade de comunicar e de partilhar conhecimentos ou gostos é que me despertou o bichinho do jornalismo e da divulgação de informação”, refere Rafael acerca da sua paixão pela comunicação social. “Muito novo juntei um grupo de amigos para criarmos uma rádio, tinha eu 16 anos, e que viria mais tarde dar origem à primeira rádio pirata”, acrescenta. A Rádio Paredes, fundada na década de 1980, foi uma das principais antenas difusoras e uma escola inicial para muitos jornalistas, seus contemporâneos.

Depois disso andou por outras ondas, sempre no campo da comunicação. Trabalhou como fotojornalista no Grupo Forum, de 1994 a 1997 e em várias revistas, mormente Descobrir, Forum Estudante e Casa de Portugal, onde foi sua a fotografia da capa da primeira edição. Foi fotógrafo e operador de câmara no Forum Multimédia, tendo participado nos CD-ROM dos Castelos de Portugal, daquela entidade, entre outros projetos do género. Esta era uma importante e inovadora iniciativa de marketing na década de 1990, onde muitas publicações vinham acompanhadas por CD’s com esse tipo de conteúdos.
Nesta atividade apaixonada e por vezes frenética, de quem é ávido por criar e comunicar, Rafael Ferreira passou também por vários jornais e destaca trabalhos realizados para O Volante, o Correio da Manhã e alguns aqui da região. Dedicou-se quase por inteiro à fotografia e à filmagem. Quanto a escrever “apenas fazia pequenos artigos, normalmente de concertos de música Jazz, Blues, Rock, o Festival Inter-Celtico, etc…E nesse contexto tive o prazer de conhecer Pedro Abrunhosa, António Pinho Vargas, Carlos Bica, Bernardo Sasseti, Mário Barreiros, Raul Marques, Pedro Burmester, Maria João, e tantos outros”. A música e o áudio em geral é outra das suas paixões: “sou um audiófilo e enquanto jovem não descansei enquanto não tive um sistema de som audiófilo, ainda tenho o meu Quad 405 II, o meu leitor de CD multibit da Marantz e a colunas da ProAc e uns bons cabos da Transparent, que na altura já me custaram mais de 120 mil escudos”. Não vive sem música. Onde o encontramos, em casa, no carro, no escritório, é quase imperativo haver música a tocar: “juntei uma coleção de mais de mil CD’s de vários géneros musicais e depois convidava amigos para ouvir e partilhar novas aquisições musicais”.
A PRIMEIRA WEBTV PORTUGUESA
A docência é a sua atividade principal, que decorre a opção que tomou ainda jovem de seguir a licenciatura em Educação Visual e Tecnológica, tendo feito depois uma pós-graduação em Tecnologia Educativa. Estudou TCAV – Tecnologias da Comunicação AudioVisual, no ESEIG do Porto e fez o curso de Tecnologia Educativa, no IEP, da Universidade do Minho.

É professor na área das artes e tecnologias onde promove junto dos alunos uma das suas máximas: juntar criatividade à comunicação. Como professor, esteve sempre colocado em Paredes, até que, em 1999, decidiu concorrer para dar aulas na escola EB 2/3 de Nevogilde. “Certo dia, ao passar em frente à Quinta da Tapada, com a minha esposa, vi uma placa a indicar a direção dessa escola. E decidi concorrer para lá. Em boa hora o fiz, pois de Paredes ali é bastante rápido e não tenho o stress do Porto, por exemplo, onde vivi alguns anos”. Os primeiros anos em Nevogilde “foram de adaptação e correram muito bem, fiquei efetivado no quadro docente e fui construindo uma carreira, que foi de vento em popa até hoje”. No primeiro ano foi diretor de turma e no segundo ano descobriram a sua apetência para as tecnologias adaptadas ao ensino e ao meio escolar em geral, pelo que passou a coordenador dessa área.

“Sempre gostei de criar coisas diferentes. Comecei na informática, mas fiz experiências com cinema de animação. Em 2005, peguei em dois alunos, a Soraia e o João Augusto, a quem pedi para recolherem entrevistas curtas em vídeo para por no website escolar que construí. A diretora da escola ao ver o resultado final disse que aquilo era mais que um website, era um canal de televisão e em 2005 criei a primeira WebTV do país. Mais tarde surgiram outras. Mas em Lousada, ou seja, em Nevogilde foi seguramente onde isso surgiu primeiro”.
Com ênfase e orgulho recorda também o “cinema itinerante, que consistia em levar um projetor às costas e eu exibia filmes que gravava da televisão, para os alunos, para promover debates e criar um ensino para os média”, foi reconhecido o mérito dessa iniciativa de tal forma que o projeto foi retratado na Notícias Magazine e nas televisões nacionais, SIC e RTP”.

A fama destas iniciativas chegou à DREN que convidou Rafael Ferreira para elaborar um projeto para o programa Escolas Inovadoras Microsoft: “na ocasião vim a saber que o ex-ministro Professor Doutor Roberto Carneiro tinha sabido das minhas iniciativas através de um professor da Universidade do Minho, onde eu tinha estado com aqueles alunos que referi, a mostrar a nossa WebTV, que fez um brilharete num evento com docentes de várias partes do mundo”. Com base no projeto Rádio Escola, já existente e na inovadora WebTV nascida na escola, “em 2010 fiz essa tal candidatura ao programa da Microsoft, com a colaboração dos colegas, os professores Eduardo Carvalho, de Inglês, e Alexandre Reis, de Música e a mesma foi aprovada e Nevogilde foi uma das primeiras escolas portuguesas premiadas “Escolas Inovadoras Microsoft 2010” e fomos representar Portugal à África do Sul.
Para o futuro é de esperar inovações deste empreendedor. Não quer parar com a concretização de novos projetos, mas diz-se cansado. “Os professores vivem cansados”, desabafa Rafael Ferreira.














Comentários