A Casa Nobre No Concelho de Lousada

Tipologias – XII | Capela II

A capela podia ser levantada por forma a dar seguimento à fachada da casa, comunicando com o seu interior através da tribuna, da qual os senhores da residência assistiam às cerimónias religiosas, ficando o corpo da capela para os serviçais, criados e povo. São deste modelo exemplos as casas de Rio de Moinhos, Porto, Juste, Valteiro, Ribeiro, Real, Alentém, Valmesio, Outeiro, Bouça, Lama e Cáscere. Esta tribuna encontra-se vulgarmente por cima da entrada. A existência deste elemento tem a ver com o tamanho das capelas, na sua maioria de pequena a média dimensão; quando a capela é destacada da casa, não é construída a tribuna.1

É na centúria de setecentos que surge o tipo de casa que integra a capela na fachada e que a questão da casa e capela se resolve, desta vez estabelecendo um padrão de casa tipicamente português, quando a fachada apresenta «maior simetria,»2 oportunidade para integrar a capela num dos extremos.

Exemplo de casa com capela destacada. Fachada Este e Norte da Casa Grande de Vilela e capela de Nossa Senhora de Oliveira. Fonte: FREITAS, Eugénio de Andrea da Cunha e – Carvalhos de Basto. A descendência de Martim Pires Carvalho, Cavaleiro de Basto. Porto: Edição Carvalho de Basto, vol. I, 1982, p. 49.

Na análise da relação entre ambas as construções, só duas casas estão isentas de capela: Argonça e Renda; cinco capelas estão destacadas: a de Vilela, paralela e no início da fachada Este; a da Seara, alinhada com a fachada principal, a Sul; a de Vila Verde, defronte para a fachada principal, virada a Oeste; a do Cam, à direita da fachada Este; e a da Tapada, à direita da fachada Sul. Mas temos também capelas integradas nas fachadas, como as de Juste e de Rio de Moinhos, que formam um ângulo reto, estando as duas situadas a Norte; as capelas da casa do Cáscere, do Valteiro, Pereiró e Outeiro rompem a cornija do lado direito da fachada; do lado esquerdo, ficam as do Ribeiro, da Lama, de Real, de Valmesio e do Porto – finalmente as capelas das casas da Bouça e de Alentém, situam-se a Oeste da fachada principal. Feita esta leitura, impõe-se uma outra: a das fachadas. Só cinco das capelas estão integradas na fachada: Pereiró, Porto, Ribeiro, Real, Pereiró e Valteiro, acompanhando a composição da casa e repetindo os seus elementos – portas e janelas.

Capela da Casa do Ribeiro (N. Sra. das Necessidades). Foto: do autor, 2024
Relação entre ambas as construções no concelho de Lousada
  Isenta de capela    Com capela integrada  Com capela destacada
Argonça e Renda  Pereiró, Porto, Real, Ribeiro e Valteiro.  Cam, Vilela, Seara, Vila Verde, Tapada e Alentém  

Classificamos as portadas das capelas em oito tipologias: três capelas exibem portadas molduradas, como é o caso de Alentém, Vilela e Juste, enquanto nas da Bouça e Ribeiro se acrescentou à moldura o lintel curvilíneo; e na do Outeiro adiu-se, a tudo isto, o frontão interrompido. As portadas das capelas da Quintã e da Seara são dissemelhantes num só pormenor: na primeira a portada é arquitravada e coroada com frontão interrompido por flor-de-lis, enquanto na segunda, moldurada com frontão interrompido por flor-de-lis. A diferença reside no moldurado ou no arquitravado. As sobrantes: Real e Rio Moinhos, mostram tipologias distintas, expondo a primeira portada com cornija, painel superior coroado por frontão interrompido. E a segunda portada arquitravada com lintel curvilíneo, com fecho ao centro e cornija de pequeno ressalto.

Portadas das capelas da casa nobre do concelho de Lousada
CapelaPortada
Alentém, Vilela e JusteMoldurado  
Lama, Valmesio e ValteiroArquitravado, com cornija e painel superior
Bouça e Ribeiro    Portal moldurado com lintel curvilíneo
Real  Portal com cornija, painel superior coroado por frontão interrompido
Quintã  Portal arquitravado com frontão interrompido por flor-de-lis
Rio de MoinhosPortal arquitravado com lintel curvilíneo, com fecho ao centro e cornija de pequeno ressalto
OuteiroPortal moldurado com lintel e frontão interrompido
SearaPortal moldurado coroado com frontão interrompido por flor-de-lis

________________________________

1 – STOOP, Anne – o. c., p. 11.

2 – AZEVEDO, Carlos de – o. c., p. 81

Obras consultadas:

1 – BATISTA, João Maria – Chorographia Moderna do Reino de Portugal. Lisboa: Typograhia da Academia Real das Sciencias, vol. II. 1875.

2 – SILVA, José Carlos Ribeiro da – As Capelas Públicas de Lousada. Seminário de Licenciatura em História-Variante Património. Universidade Portucalense Infante D. Henrique (Policopiada). 1997.

3 – STOOP, Anne – Palácios e Casas Senhoriais do Minho. 2ª Edição, Porto: Editorial Civilização, 2000.

José Carlos Silva

Professor / Historiador

Comentários

Submeter Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos recentes

AGRADECIMENTO

COM ETERNA GRATIDÃO, eu, Maria Irene Monteiro, venho, através d’ O Louzadense, agradecer o imenso...

Montalegre voltou a ser palco de mais uma jornada intensa do Campeonato Nacional de Rallycross...

Os maiores inimigos da liberdade, ironicamente, são, precisamente, aqueles que dizem ser os seus...

Editorial 163 | Pseudo Abrilistas

São 52 anos de Abril, 50 anos da Constituição da República e, muito em breve, 50 anos do Poder...

Quando a igualdade falha, a democracia enfraquece

Fala-se frequentemente de democracia e liberdade como valores adquiridos, quase garantidos, em...

Lousada não tem donos

Há um tipo de poder que não se impõe pela força. Instala-se devagar, em silêncio, aproveitando a...

Bombeiros de Lousada apelam às pessoas para consignarem o seu IRS

Sem custos para os contribuintes, ao preencher a respetiva declaração anual, eles podem atribuir...

Ferragens Vale do Sousa renovou o Salão de Exposições

DATA ESCOLHIDA PARA RECORDAR O CO-FUNDADORAs Ferragens Vale do Sousa são uma empresa de referência...

Educar com afeto é, antes de tudo, reconhecer que cada criança é um universo inteiro por...

Antes de existirem tanques públicos, a roupa lavava-se nos rios, nas ribeiras ou em pequenas...

Siga-nos nas redes sociais