LOCAIS DE SOCIALIZAÇÃO E TRADIÇÃO
Nas tradicionais mercearias ou lojas de bairro e de freguesia, ainda há quem resista e persista com a porta aberta, apesar dos poucos lucros. Os grandes hipermercados e as vendas online tiram cada vez mais fregueses. Mas ainda há quem diga não ao modernismo. São sítios onde, além da relação comercial, há uma ligação afetiva entre cliente e merceeiro, que criam as chamadas relações de proximidade. As mercearias têm essa riqueza social da sociabilização através da conversa. Em sentido oposto, as grandes superfícies comerciais despersonalizam a venda, onde as máquinas de auto-apagamento substituem as pessoas e o contacto humano.
Recentemente, a “mercearia do senhor Armando” fechou na vila de Lousada. Agora só resta o minimercado Gina, também situado na avenida Hans Isler, na confluência de alguns dos vários gigantes comerciais, os hipermercados, existentes em Lousada. “Ainda sou do tempo da grande loja do senhor Campos Alves, onde é hoje o centro comercial Edinor, era uma mercearia onde se vendia praticamente de tudo e no Natal era um regalo apreciar as montras pela rua dos bombeiros abaixo e na frente, na rua de Santo António”, recorda Virgínia Marques.

“Há quarenta e cinquenta anos, além dessa, havia muitas mercearias, mais pequenas, e a minha preferida era a da dona Laurinda Meireles, na parte de cima da rua de Santo António; era uma mercearia fina, com um cheirinho delicioso a café e a rebuçados; também me lembro muito bem da loja do senhor Passeira e da loja do senhor Eurico. Mas creio que a mais antiga de todas seria a do senhor Martins, num sítio onde existiu depois o minimercado do senhor Sampaio e onde está agora a padaria Delícia”, descreve Virgínia Marques, com um brilho no seu olhar distante, como que revendo ao longe estas pessoas e respetivos locais. “Uma a uma, foram desaparecendo e agora só resto eu aqui na Vila”, refere esta comerciante de 68 anos, que herdou o negócio dos seus pais.
Sobreviver no meio dos tubarões gigantes das vendas não tem segredo: “é uma questão de confiança das pessoas nos meus produtos, é uma questão de tradição de muitos clientes que sempre se habituaram a vir cá e sabem com o que contam e eu sei com o que conto deles e assim se fazem amizades e se convive e se leva a vida o melhor possível”, relata a popular comerciante lousadense.
Mas ser tradicional não significa parar no tempo. A modernidade também chega às mercearias e o minimercado Gina vai fechar em breve para obras de remodelação. “Vai ficar com um ar mais novo, mais moderno”, afirma a proprietária.
O livro de merceeiro
Fora da vila encontram-se lojas típicas em muitas freguesias. Fomos visitar uma em Santa Eulália da Ordem: a «Mercearia da Lina». “A minha patroa já matou a fome a muita gente”, diz Susana Magalhães, que trabalha naquele local. Está situado nos baixos duma casa antiga, com compartimentos pequenos apinhados de produtos e artigos de variadíssimos géneros, desde o ramo alimentar ao vestuário e com grande destaque para os produtos higiénicos pessoais e para o lar.

Estas são características comuns no setor comercial tradicional. Já nem são bem mercearias antigas, pois assemelham-se mais a minimercados, mas a essência tradicional continua presente.
Naquela loja da Ordem, como em quase todas do género, ainda se vende fiado. É uma das características históricas destes estabelecimentos. A confiança entre vendedor e cliente a isso proporciona. Toda a gente sabe quem é quem, gerando assim relações de proximidade e confiança.
Mas não se confunda “vender fiado” com “vender ao mês”, pois embora parecendo o mesmo tipo de relação comercial, são diferentes.
“Vender fiado”, é uma transação pontual, “para desenrascar alguém numa situação de dificuldade momentânea”. No caso da “venda ao mês”, há um compromisso de longa data com o cliente e o vendedor, para que o pagamento das compras anotadas no livro (o famoso “livro do merceeiro”) ao longo mês. Normalmente isto acontece com pessoas idosas, que pagam as suas compras no dia em que chega a reforma da segurança social.
“Eu tenho quatro clientes que fazem aqui as compras tal como os seus pais já faziam e continuam a pagar ao mês”, diz Virgínia Marques, do minimercado Gina, na vila de Lousada.
Não é para todos, é para quem (con)fia.














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