“Um clube é como um casal: é preciso confiar”

JOSÉ OLIVEIRA (APARECIDA FC), UM TREINADOR VITORIOSO

O Aparecida FC anda nas bocas do mundo do futebol. Acaba de alcançar um feito extraordinário: a subida à Divisão Pro Nacional, o escalão máximo da Associação de Futebol do Porto. Isso foi conseguido de forma categórica e com vários recordes distritais e nacionais. Exemplo: em 30 jornadas alcançou 29 vitórias e apenas 1 empate e zero derrotas, sendo inédito em Portugal. Esta senda vitoriosa deve-se a vários fatores, entre os quais o papel da equipa técnica, cujo líder nos concedeu esta Grande Entrevista. Objetivo e clarividente no discurso, José Manuel Oliveira, de 46 anos, é um apaixonado pela arte e pela emoção do futebol.

Como jogador, José Oliveira notabilizou-se a nível regional, tendo inclusive passado pelo Lousada, embora tenha sido no Amarante que provavelmente mais se evidenciou. A segunda operação a um joelho acabou com a carreira de jogador e abriu o percurso de treinador.

Quem o segue (e são muitos) sabe que é um treinador que aprecia o futebol de ataque. O próprio sublinha isso: “além de gostar de jogar para marcar o maior número de golos possível, eu ponho-me no lugar do adepto, que quer ganhar, que paga quotas, que apoia o clube e por pessoas assim defendo que a equipa deve dar espetáculo, vencer e de preferência marcar vários golos; não me faz sentido jogar para ganhar pela margem mínima”.

Com base nesta lógica, o Aparecida marcou 111 golos em 32 jogos. E apenas sofreu 19.

Os feitos nesta época não são fruto do acaso e algo muito parecido já tinha ocorrido na carreira de José Oliveira, que está recheada de êxitos dignos de registo. “No Marco (de Canaveses) subimos três vezes consecutivas e na primeira subida (2017/18) conseguimos 29 vitórias, quatro empates e uma derrota”, lembra o técnico.

“Fomos muito felizes naquele clube, apesar de termos vivido ali o aparecimento da epidemia da COVID-19, que transtornou tudo e todos”. Dali saiu para o Cinfães, “por algum cansaço, mas sobretudo por ter-se iniciado no Marco a criação de uma SAD (Sociedade Anónima Desportiva), coisa em que eu não me revejo, pois já se sabe que as SAD’s duram dois ou três anos e depois desaparecem e deixam problemas de vária ordem”.

José Manuel Oliveira_treinador Aparecida FC

Foi atrás de outros desafios, “em Cinfães, talvez o único projeto que não concluí, devido a várias contrariedades, levamos o clube à terceira eliminatória da Taça de Portugal, onde perdemos com o Farense, mas havia dentro do Cinfães forças de bloqueio que impediam um bom trabalho”. Regressou a Vila Caiz, onde “encontrei um dos melhores grupos de jogadores que tive até hoje e um presidente, o Paulo Cerqueira, uma pessoa que eu estimo muito”. Ali conquistou a Taça da AF Porto e conseguiu duas finais seguidas, facto inédito naquela competição, o único troféu do clube até à data. Na época seguinte levou a equipa a um honroso 5.º lugar e a uma participação muito meritória na Taça de Portugal, onde foram eliminados pelo prestigiado Amora.

A “ESCOLA” DO FUTEBOL AMADOR

É com humildade que responde quando lhe perguntamos onde considera que aprendeu mais como treinador. Não referiu nenhum dos cursos que tirou, nem qualquer das palestras e conferências que presenciou, nem dos workshops a que assistiu. Prefere destacar outra aprendizagem: “foi no futebol amador, em pequenas equipas com poucos ou nenhuns recursos, onde quase não há dinheiro e onde se tem que lidar com muitas adversidades; é um contexto onde se tiram muitas lições que, depois, nos foram muito úteis no futebol federado”.

Este timbre de humildade que é geralmente reconhecido em José Oliveira manifesta-se também na referência ao “nós” e não ao “eu”. “Não me considero sozinho no treino, preparação e tudo o que envolve a orientação técnica; há uma equipa, que integro com os meus adjuntos”, salienta, referindo-se a Rui Teixeira e Rui Amaral. “Tem que ser sempre «nós», porque o roupeiro, o senhor que trata dos balneários, do campo, toda a estrutura, é um conjunto. Se a meia não estiver bem lavada, por exemplo, pode incomodar o jogador. Eu sei que sou chato em muitas coisas, mas vou ao pormenor por achar que é importante para ter êxito”.

Quando o presidente Cristóvão Cunha o abordou para o Aparecida, percebeu que “era um projeto aliciante. Gosto de competir com gente competente, gente boa como este presidente. Só assim posso aprender e evoluir e costumo dizer que o fundamental é confiar, acreditar. É como um casamento: se confiamos e acreditamos, é o essencial para dar certo. Acontece o mesmo no futebol”, exclama o treinador.

O treinador José Oliveira e o presidente Cristóvão Cunha

A ida para Aparecida aconteceu “por gostar do projeto, para subir, pois além de estar numa divisão acima do Aparecida, na Elite, eu tinha convite para treinar uma equipa do campeonato de Portugal ”.

A subida agora à divisão Pró Nacional “não foi fácil, nós é que a tornamos menos difícil, mas nunca foi com os dinheiros que se falava por aí. Ouvi treinadores e até presidentes dizer que tinham orçamentos mais baixos que o nosso e não percebo com que bases diziam isso. A nossa receita foi normal e o segredo esteve no arregaçar das mangas e foco na nossa meta, que era subir de divisão, com um grandíssimo espírito de grupo e uma capacidade demolidora de marcar golos”,  declara.

Outro fator favorável foi a dinâmica associativa da população da Aparecida: “ainda hoje me faz arrepiar de emoção, tal o mimo e apoio que nos deram; embora o início tivesse sido difícil, pois chegamos quando o clube tinha descido e tivemos que reformular muitas coisas e isso foi difícil de compreender”.

O TALENTO NÃO SE COMPRA

Mostrando-se orgulhoso pelos feitos do Aparecida, José Oliveira chama a atenção para “uma importância que vai além do desporto e aquilo que a estrutura do Aparecida conseguiu foram estatísticas e feitos que são falados no país. O futebol leva a imagem e o nome da localidade bem longe. Mas não pode haver uma rivalidade de morte. Deve imperar o bom senso. O Aparecida nesta altura é a que se posicionou melhor no concelho de Lousada e isso tem que ser visto e valorizado como tal”.
Outro enfoque que o treinador enaltece é o da formação “que está no bom caminho na Aparecida”. “Trabalhar a formação de jovens é importante para a sua condição de futebolista, mas acima de tudo, para a condição de cidadãos. Os pais não podem querer que os seus filhos sejam Messis e Ronaldos. Há pessoas que pensam que a formação é uma fábrica. Mas o talento não se compra nem fabrica. O que se fabrica são as regras, os compromissos, a felicidade dos meninos. E se eles não querem jogar futebol, deixem os meninos ir para onde gostam, para a música, para o jornalismo, etc”, alerta.

Acrescenta que “os melhores treinadores têm que estar na formação. É o mais difícil de trabalhar. Os pais respeitam pouco. Querem que os filhos sejam craques. O que os meninos precisam é de estar felizes e de aprender regras, chegar a horas, estar em grupo, ser camarada, ser solidário, e assim ficam preparadas para a vida em sociedade”.

Muito ficou por publicar, mas ainda há espaço para abordar o futuro: “é uma família a que temos no clube e faz-me sentir um carinho especial pelas pessoas, nomeadamente o presidente,, seus familiares e diretores, que se matam a trabalhar pelo clube, e eles têm aquilo que quiserem da equipa técnica do José Oliveira”.

Treinador e equipa técnica

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