por | 10 Jun, 2024 | Cultura, E Depois D'Abril?

A dança das cadeiras

E DEPOIS D’ABRIL? [1]

A Junta de Salvação Nacional e o Conselho de Estado, criados após o 25 de Abril, iniciam de imediato mudanças na vida portuguesa. Adotam uma política de nacionalizações dos vários sectores económicos. A descolonização é uma prioridade. Ao mesmo tempo, é preciso mudar as lideranças nas autarquias. O presidente da Câmara de Lousada era António Ildefonso dos Santos, de Bustelo, vizinha freguesia penafidelense. A sua substituição foi complicada e em dois anos a Câmara teve cinco (!) presidentes…

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A queda da ditadura provocou euforia em Lousada, que teve eco no comício de 28 d’ Abril em frente aos Paços do Concelho (Câmara Municipal). A alegria contagiante que inicialmente se sentiu foi esmorecendo diante de um admirável, mas também apreensivo, mundo novo.

Numa rara aparição duma mulher a discursar em público, uma parte de Lousada ficou boquiaberta na tarde de 28 d’ Abril de 1974. Chovia quando a advogada Virgínia Moura (que tem busto de homenagem no jardim entre o cemitério do Prado do Repouso e a antiga sede da PIDE no Porto) protagonizou tal feito, na escadaria dos Paços do Concelho. Isso ocorreu no comício do histórico discurso (“Povo da Minha Terra”) do médico Abílio Alves Moreira, que, tal como a antiga advogada portuense, também tem um busto, em Lousada.

Seis meses antes a presença da também portuense Berta Granja no comício do MDP, nos Bombeiros Voluntários, já tinha sido um lamiré da mudança que chegava aos olhos e ouvidos dos lousadenses.
Mudança. Essa era a maior promessa do 25 d’Abril. Esperava-se que fossem melhores os novos tempos e que a democracia cumprisse os seus desígnios.

Na Câmara Municipal de Lousada, como em muitas outras, deu-se uma… dança de cadeiras. O professor António Ildefonso dos Santos era o presidente, mas, por muito boa pessoa que fosse (era genericamente reconhecido como tal), mandavam os líderes da revolução em Lisboa que as presidências nas autarquias tinham que abdicar.

Até à realização de eleições que haveriam de ocorrer a 12 de Dezembro de 1976 para as autarquias locais, iriam criar uma Comissão Administrativa eleita por um colégio partidário em cada localidade.

Entretanto, até que esse órgão provisório fosse empossado, quem deveria gerir o Município era o vereador mais velho. No caso de Lousada era o comerciante de padaria, Narciso Ribeiro da Mota. Foi presidente da Câmara durante 24 horas, pois renunciou ao cargo. Em entrevista concedida para a edição do Jornal de Lousada de 15 de Abril de 1994 lê-se: “por altura da revolução de 25 de Abril de 1974, (Narciso Mota) era vereador dos jardins, cargo que ocupava há três anos. Eis, então, que se viu no cargo de presidente, por um dia”. Posto isso, o entrevistado explicou: “(…) calhou-me a mim substituir o presidente. Foi um espanto quando recebi a notícia. Mas tratei de recusar o cargo. Para isso, fui ao Governo Civil apresentar a minha demissão. Disse que não tinha habilitações nem disponibilidade para tal. Sugeri ao Governador o nome de Amílcar Neto, que era também vereador. E assim ficou ele presidente interinamente até à comissão administrativa”.

Última tomada de posse do presidente da Câmara no Antigo Regime_in JL 11 Outubro 1973

Aquele que haveria de ser o primeiro presidente de Câmara eleito democraticamente em Lousada (12 de dezembro de 1976), Amílcar Abílio Pereira Neto, ocupou o cargo provisoriamente, até 24 de Julho de 1974, dia em que tomou posse no Governo Civil do Porto a Comissão Administrativa, presidida por Rui Maria Castro Feijó. Entretanto, este resignou ao cargo após ser eleito pelo PS para a Assembleia Constituinte onde tomou posse a 2 de Junho de 1975.  Foi substituído na liderança da Câmara de Lousada pelo advogado e conservador do Registo Civil, Adérito Augusto Gonçalves Guerra. Este manteve-se em funções até às primeiras eleições autárquicas (12 de dezembro de 1976).

Voltando à referida entrevista, Narciso Mota, respondeu assim quando questionado sobre a forma como viveu o 25 de Abril e que mudanças via entre o passado e o presente: “acho que até ali havia mais respeito e menos abusos. Depois, com tantas liberdades que dali vieram, passou a haver mais desordem e menos respeito. O regime que havia antes tinha a vantagem de ser respeitador.”. Mas, curiosamente, nessa entrevista, o fundador da Padaria Central deixou bem vincado a sua independência: “nunca pertenci ao partido nacional, nem à Legião Portuguesa (…)”.

Uma semana depois aquele semanário publicava uma entrevista a Ildefonso dos Santos, na qual manifestava concordância com as declarações, uma semana antes do seu sucessor, ainda que por um dia, na Câmara de Lousada, acerca da nova moral cívica que o 25 de Abril trouxe. Até então “não se ouviam palavras de ordem contra os ideais ou representantes do Portugal na época. Após o 25 de Abril aconteciam situações de algum desrespeito… os tais excessos.  Recordo-me de um caso em que isso foi notório: aquando da morte de Sá Carneiro, ouvi casualmente junto aos Bombeiros algumas pessoas manifestando contentamento pelo falecimento do 1º Ministro… Moralmente era condenável, mas legalmente já não o era”, afirmou o antigo docente.

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Legenda: O último presidente da Câmara durante o Antigo Regime, tomou posse a 21 de Setembro de 1973.

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