AS FAÇANHAS DE NUNO GARCEZ NO AR E NO MAR
Um oficial da Marinha tem muito que contar sobre experiências no estrangeiro. É o caso de Nuno Ricardo Moreira Garcez, de 44 anos, de Nevogilde. É Capitão da Marinha Mercante, mas inicialmente enveredou pela aviação, sobre a qual considera que foi o seu “primeiro amor” que surgiu logo após a conclusão do ensino secundário, quando se sentiu “impelido e atraído a responder a esse chamamento”. Nesta entrevista fala do fascínio pela aviação e pela navegação, pela qual optou mais tarde.
Formou-se como oficial controlador de tráfego aéreo na Força Aérea Portuguesa. Findo o curso, “tive o privilégio da escolha de colocação na Base Aérea no 5, em Monte Real (casa mãe dos aviões F-16), onde permaneci aproximadamente 7 anos”. Dessa fase destaca a participação “no pioneiro programa de avaliação NATO, à data designado de TACEVAL”. No seguimento da sua progressão profissional foi colocado no Aeródromo de Manobra no1 (atualmente Base Aérea no 8) em Maceda – Ovar, desempenhando funções de comandante da esquadrilha de tráfego aéreo e, cumulativamente, designado de Oficial de Segurança de Voo, sendo responsável pelo Gabinete de Prevenção de Acidentes.
Entretanto, colocou em andamento “um projeto pessoal visando o desvincular da vida militar e almejando a integração na vida civil”. Entrou para o curso de Ciências Aeronáuticas – Pilotagem, da Universidade Lusófona do Porto. Posteriormente, já desvinculado da Força Aérea Portuguesa, abraçou a realidade da aviação civil. “Numa fase embrionária e em resposta a um convite para o efeito, abracei o projeto de Instrutor de Voo ministrando formação teórica e prática de aviação Ultraleve”, conta o lousadense.
Com o surgimento “duma certa crise na aviação comercial, que criou um manto de incertezas, inseguranças e desorganização, conduzindo a uma quebra de direitos e benefícios, isso funcionou como catapulta para tomar a decisão e a mudança que tomei”, revela Nuno Garcez. Confessa que “não foi fácil essa reinvenção para uma área completamente diferente. Fiz os exames necessários para cumprir os requisitos de acesso, submeti-me a concurso e, com 33 anos eis-me de novo caloiro e de volta à Universidade, ingressando na única escola existente no país para as minhas pretensões – ENIDH (Escola Superior Náutica Infante Dom Henrique)”.

Durante quase 3 anos a sua vida decorreu entre Lousada e Paço D’ Arcos, “com uma enorme dose de paciência e compreensão da minha família”, declara. Findo o curso de Oficial da Marinha Mercante-Pilotagem, regressou ao mercado de trabalho como praticante piloto, iniciando vínculo com uma Companhia Marítima Alemã.
A primeira experiência teve como destino a Austrália. E está feliz com a opção, ao ponto de citar o grande filósofo Platão: “Existem 3 tipos de homens: os vivos, os mortos e os que andam no Mar”.
Entre os muitos casos caricatos, perigosos, insólitos e doutros tipos, vividos no mar, há um que destaca e relata assim: “certamente recordam-se das notícias do navio com carros de luxo que ardeu no Atlântico e que acabou por naufragar, denominado Felicity Ace. O meu navio foi fretado pela Salvage para ocorrer ao local e assegurar assistência a elementos dessa empresa. O que guardo dessa operação é a temperatura elevadíssima que se fazia sentir à distância e aquele monstro a ser consumido pelas chamas. As noites eram iluminadas pelo fogo e explosões que gradualmente iam acontecendo. Foi algo cruelmente belo de se presenciar”.
Outro episódio com fogo aconteceu a bordo, no decurso de uma viagem entre Ferrol (Espanha) e Cork (Irlanda). “À data era Imediato num navio graneleiro, e estávamos a navegar no Golfo da Biscaia quando às primeiras horas da manhã tivemos um fogo a bordo, ardendo, numa questão de minutos, dois pisos da casa das máquinas. Fui acordado com os alarmes respetivos e também fumo que já se estendia ao camarote. Não é uma maneira nada simpática de acordar. Felizmente conseguimos confinar o fogo a esse espaço e conseguimos extingui-lo. Contudo, sem meios de propulsão ficamos dois dias à deriva a aguardar por reboque e assistência. Foram momentos tensos e quem conhece a realidade da Biscaia, o mar por esses lados não é propriamente simpático e sem propulsão não foi de todo confortável esses dias”

Este capitão da marinha mercante está atualmente a desempenhar a função de comandante a bordo de um navio Supply Vessel, com base nos Açores e a dar assistência, maioritariamente, às Ilhas do Grupo Central e Ocidental, no seguimento dos danos causados pela passagem do furacão Lorenzo, nos fins 2019. Explica que “a função de comandante a bordo de um navio é algo aliciante, mas também um «lugar» muito solitário e absorvente. É a autoridade máxima a bordo para o bem e para o mal, representado o Armador em todo o seu espetro. Responsável por toda a tripulação, estrutura, funcionamento, carga, estabilidade e condução da embarcação”.
Gosta do “contacto com lugares distantes, a interação cultural, os hábitos e costumes de outros países”, mas reconhece que “quanto mais lugares visito e conheço, confesso que mais saudades tenho da nossa terrinha”, conclui, com um sorriso.













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