E DEPOIS D’ABRIL? [5]
O 25 d’Abril de 1974 trouxe o fim da guerra em África e consequente independência das colónias, onde os militares tomaram o poder. Sobretudo em África e Moçambique gerou-se instabilidade e insegurança para muitos milhares de portugueses, que numa questão de dias viram as suas vidas completamente transformadas. Entre maio de 1974 e novembro de 1975 terão saído de Angola para Portugal mais de 300 mil pessoas e 160 mil de Moçambique. A Lousada regressaram muitas famílias. Tal como no resto do país, foi necessário criar meios para ajudar muitos retornados em situação aflitiva.
Retornados é a designação dada aos cidadãos portugueses que tiveram de voltar para Portugal entre a revolução do 25 de Abril de 1974 e1976, após a descolonização portuguesa de África e a respetiva independência das colónias dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e, em especial, Angola e Moçambique). No período colonial, os habitantes não-indígenas eram designados por colonos, brancos ou população de origem europeia. Após a Revolução passaram a ser descritos por retornados. Esta última categorização perdurou até hoje, apesar de ser mal recebida, em muitos casos, por conter uma conotação pejorativa e estigmatizante. Em alternativa ao termo que se tornaria um estereótipo negativo, muitos reclamaram a condição de apátridas, deslocados ou desalojados de guerra.
Embora a designação retornados evoque o regresso, alguns retornados portugueses nasceram nas antigas colónias. Foi o caso de António “Toni” Leitão, nascido em Angola, em 1951. Veio para Lousada em 1975 onde tinha ligações familiares (na próxima edição, iremos conhecer a sua história). A Câmara Municipal criou um gabinete próprio para atender as pessoas que chegavam do ultramar. Muitas delas com ligações ténues a Lousada de onde tinham saído uma ou duas décadas antes. A sua chegada quase abrupta e por anunciar, apanhou de surpresa a localidade, tal como o país inteiro. Também o Rotary Clube da região do Vale do Sousa estendeu a sua ajuda a Lousada e proporcionou soluções, sobretudo de emigração para países europeus e também alojamento.
É importante que se diga que nem tudo foi nefasto neste fenómeno social da história portuguesa. O regresso deste número elevado de pessoas transformou a sociedade portuguesa de uma forma profunda. Principalmente os que desempenhavam funções administrativas nas ex-colónias, eram bastante instruídos e isso contribuiu para a modernização de aldeias e cidades de todo o país, o fornecimento de peritos nas áreas da Saúde e Educação, o lançamento de novos negócios, transformação da rádio e televisão e a liberalização de costumes. O caso de Toni Leitão foi paradigmático, como iremos contar na segunda parte desta temática.
Separaram-se famílias. Muitas mães e filhos voltaram, muitos pais ficaram para tentar reaver o máximo de bens que conseguissem. O mote do Antigo Regime “Para Angola, rapidamente e em força” tinha-se invertido. A decisão de voltar não era fácil. Para trás deixavam um modo de vida, casas, poupanças e amigos. Quanto mais longe do 25 de abril e de 74, mais difícil era sair para Portugal. Por norma, quem veio primeiro foi, também, quem resgatou mais das suas coisas, do que quem veio mais tarde. Da vida que tinham de deixar eram autorizados a trazer cinco contos (25 euros) e 20 quilos de bagagem no avião. E, enquanto alguns trouxeram até carros, outros vieram com a roupa que traziam vestida. Alguns fizeram-nos por pensar que iriam voltar, um dia. A maioria foi mesmo por desespero e pressa.
Foram tantas as milhares de pessoas em debandada que a TAP não teve capacidade de resposta e o Governo teve que pedir ajuda a outros países para a realização de pontes aéreas. Os aeroportos e aeródromos estavam lotados de gente, as condições de higiene eram mínimas, os alimentos escasseavam e a situação de emergência tornava-se cada vez mais real. Em Angola, os combates entre os movimentos independentistas tornavam o clima pesado e perigoso para os portugueses. Era uma África diferente daquela que conheciam e que, invariavelmente, jamais seria a mesma.
As mulheres grávidas, as crianças e as pessoas feridas ou perseguidas pelos movimentos de libertação tinham prioridade no embarque. O desespero tomava a forma de ações extremas com pessoas a engendrar planos para obterem passagens e lugares nos aviões, mais depressa do que o normal. Muitos portugueses migraram para outros destinos, como a África do Sul, Rodésia, Índia, Brasil, Paquistão, Venezuela, etc. Cerca de 100 500 militares regressaram, em cerca de um ano, a Portugal. A maioria dirigiu-se às zonas de origem familiar, beneficiando do amparo familiar e comunitário. Os que não tinham rede de apoio ficaram instalados em edifícios estatais (INATEL, instalações militares, parques de campismo municipais, etc.) e em pensões e hotéis, a expensas do Estado, incluindo os de 4 e 5 estrelas, especialmente em Lisboa e no Porto. Em Lousada, a Pensão Avenida acolheu várias famílias.

Bibliografia consultada: O Retorno (2011), de Dulce Maria Cardoso Retornados, Desalojados, Expoliados – a tragédia nacional dos retornados, portugueses expulsos de Angola (1976) de António Pires PIMENTA, Fernando Tavares – “Causas do êxodo das minorias brancas da África Portuguesa: Angola e Moçambique (1974/1975)”, Revista Portuguesa de História, n.º 48, 2017.













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