por | 24 Ago, 2024 | Sociedade, Uncategorized

É preciso planeamento municipal para salvar a movida lousadense

PROPRIETÁRIOS DOS BARES QUEIXAM-SE DA CRISE NO SETOR

Longe vão os tempos das enchentes nos bares. Há duas décadas quase todos tinham porteiro e na happy hour era preciso “pedir muito” ou “ser conhecido da casa” para poder entrar. Eram os tempos áureos do Speed Bar, do Velhote Bar e do Sunny Side, entre outros. “Hoje em dia, é inadmissível um dos concelhos mais jovens da Europa ter uma noite tão vazia”, afirma César Moreira, empresário da atividade noturna em Lousada. A época das festas, que coincide com o Verão, é a melhor do ano para a “movida” lousadense, mas passada esta fase, instala-se a crise durante o resto do ano. A maioria dos demais proprietários e gerentes dos principais bares locais estão desejosos por passar os respetivos negócios a outros se a situação não mudar. A falta de mão de obra e a limitação de horários, assim como a burocracia para aquisição de licenças, são causas apontadas. Mas o que afeta mais o setor é a “ausência de estratégia do município e da associação empresarial com os bares”.

Sunny Side Bar

Para César Moreira, um dos mais ativos empresários da noite lousadense, o momento de crise no setor exige “reflexão e reunião, para mudar o rumo disto”. Tem uma experiência que começou há décadas na Esplanada da Torre, na Senhora Aparecida, e continuou no Bar da Cultura, que está aberto há 10 anos e tem também o Villa’s, no Parque Urbano, há cerca de 2 anos. Assevera que “Freamunde e Vizela dominam a noite da região com os seus bares em alta”. Defende que “é preciso planeamento” e isso consiste em “juntar as partes interessadas e definir uma estratégia para voltar a ter em Lousada esse domínio, para que os nossos jovens e população em geral não tenha que procurar outros destinos”.

Esse planeamento deve partir “do Município e da Associação Empresarial”,  por forma a implementar “atividade cultural e animação nas ruas e praças, ao longo do ano, para dar vida ao que está a morrer”, propõe o empresário.

César Moreira e André Faria

No Verão, muito por causa das férias escolares e da vinda de emigrantes, nota-se uma maior movida nos bares locais. “Sim, mas é só no início da noite, pois a verdadeira atividade noturna, que é depois das 2 horas, não tem grande movimento, perdeu-se aquela atividade que tínhamos e que dava um ser muito bom aos bares e à vila”, descreve César Moreira.
No sábado, organizou no Villa’s “um evento conhecido por «roda de samba com sunset» e refere que o estabelecimento esteve cheio, “mas teve mais gente de fora do que de Lousada, facto que, de certa forma, me entristece”.

A dificuldade em adquirir uma licença que permita estar com porta aberta além da meia noite é outro dos problemas apontados pelos empresários. “Isso não acontece por exemplo em Freamunde, Paredes ou Vizela e por aí se vê a dinâmica que essas localidades têm e que nós também já tivemos”, lamenta e também atribui ao sucesso daquelas localidades “a forte dinâmica cultural na via pública”. A seu ver, “é preciso colocar jovens a tocar ao ar livre, aqui e ali, promover verdadeiras feiras de artesanato com comes e bebes, concursos de estátuas vivas, artes circenses nos largos e praças, enfim, há tanto que se pode e deve fazer”.

Os (saudosos) tempos do Speed Bar

Outro dos mais antigos empresários da noite lousadense é Filipe Nunes. Em 2001, a convite do amigo Mário Ferreira teve a oportunidade de iniciar “um projeto arrojado na noite lousadense, o Speed Bar”. Recorda que “na altura, Lousada estava fora das referências noturnas no Vale do Sousa e conseguimos durante vários anos mobilizar milhares de pessoas, de vários sítios da região e até de outros pontos do país, que de sexta à noite a domingo à tarde proporcionavam muita diversão e vida à nossa terra”.

Filipe Nunes

Recorda também que “todos os bares e restaurantes da região olhavam para nós com bom olhos, pois o reconhecimento pelo trabalho feito em prol de todos era excelente”. Para isso “contribuiu muito o papel empreendedor e dinamizador desse grande empresário que foi Jaime Moura e que apoiou muito o Speed Bar”.

Entretanto esse boom foi-se esfumando. No entender de Filipe Nunes, isso deveu-se a “várias adversidades, nomeadamente as exigências cada vez maiores com Licenças, com horários, uma fiscalização policial sem precedentes, entre outros fatores”.

Tal como os seus congéneres, também este empresário instiga as “entidades responsáveis pela nossa terra a fazer muito mais pela diversão noturna”. Lamenta que “as adversidades que qualquer empresário encontra para licenciamento tanto ao nível de obras ou horários são imensos e isso faz com que não seja apelativo investir em Lousada”.

Ao contrário do que “acontece nos concelhos vizinhos, onde mais facilmente surgem espaços com horários alargados, para poderem chamar milhares de pessoas para as suas terras e assim potenciar o comércio e a economia local, aqui não acontece”. No seguimento disto, Filipe Nunes deixa “um apelo a todos os responsáveis para que ganhem coragem para aceitar que localidades sem noite e turismo são localidades fantasmas”. E remata com uma declaração enigmática: “Não é por acaso que quase todos os bares de Lousada estão à venda”.

É imperativo encontrar soluções

Durante alguns anos André Faria esteve no setor dos bares, mas optou pelo ramo diurno da hotelaria. Considera que “a noite Lousadense na minha opinião está a passar por momentos difíceis e já não é o que era”.

“Não podemos dar a desculpa do COVID, porque se olharmos para as cidades vizinhas, vemos que há movida, que há bares e restaurantes a trabalhar debaixo de prédios e casas, em pleno centro das localidades, que há gente na rua e que a noite tem vida”, exclama o empresário. Com algum desapontamento afirma que “não se pode aceitar que um concelho jovem como Lousada esteja a passar por estas dificuldades”.

O problema do barulho associado aos públicos e ambientes dos bares é um dos argumentos para a restrição de licenças. “Não é fácil lidar com este assunto, embora em sete anos como proprietário de um bar, nunca tive problema com os meus vizinhos, muito pelo contrário”, ressalva o empresário. Este reconhece que “toda a gente tem direito ao descanso e percebo que as pessoas se insurjam contra o horário dos bares, contra o ruído que perturbe o sono e o descanso”, mas em contraponto defende que “há muita gente que vive da atividade noturna para sobreviver e realizar-se pessoal, profissional e familiarmente”.

Diante de tudo isto, André Faria conclui que “é imperativo encontrar soluções, para que seja bom para todos” e sublinha que “cabe às entidades arranjar soluções, talvez uma zona comum para bares, restaurantes e uma discoteca, acho que seria interessante, e resolvia muitos problemas”. Assegura que “se isso acontecer então vou ponderar voltar à movida noturna de Lousada”.

Perdeu-se muita movida

Num passado não muito distante, Norberto Costa foi outro empresário que “deu cartas” no ramo da hotelaria noturna. Este lousadense tem “orgulho no percurso como frequentador e como empresário de um estabelecimento diurno e noturno de restauração e que foi uma referência em Lousada”. Naquela época “os espaços comerciais tinham excelente qualidade, a vários níveis, onde proporcionavam bons momentos a quem os visitava e frequentava, motivando a circulação e permanência de cada vez mais pessoas”. Mas “a certa altura, começaram a surgir algumas medidas, impostas pelas entidades reguladoras, o que na minha opinião não foi nem consensual nem benéfico”. Refere-se aos entraves colocados por licenças e outras exigências que “causaram enfraquecimento no setor, com desincentivo ao investimento, diminuição de clientes e de eventos”. O negócio “foi diminuindo drasticamente”, até que surgiu a pandemia. “Se a coisa não estava fácil, a pandemia COVID provocou as consequência que todos nós presenciamos e vivemos, fazendo com que as pessoas, o público em geral, adotasse e criasse outros hábitos e costumes”, lamenta Norberto.

Norberto Costa

Agora no ramo imobiliário, este empresário não pensa em regressar à movida. “A Vila de Lousada e os espaços nela inseridos, estão com muito fraca afluência, comparando com as realidades de outras localidades próximas que souberam ultrapassar aqueles problemas que se colocaram a todos, não só no caso da pandemia, e sempre com muita ajuda e permissão das autoridades”, considera.

“Na minha humilde e modesta opinião, aconselho que se criem medidas equilibradas e consensuais para todos os concidadãos e aplicá-las afincadamente para que nesse sentido as coisas fluam naturalmente e sobretudo com consciência”, afirma Norberto Costa. Dessa forma, entende que “a Vila de Lousada seria uma Vila mais atrativa, promissora, quer no investimento de aquisição de habitação como na criação de investimento no âmbito comercial”.

Fernando Rocha no Velhote Bar em 1998

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