por | 19 Set, 2024 | Cultura, E Depois D'Abril?

O «delfim» de Arnaldo Mesquita

E DEPOIS D’ABRIL? [7]

Na antiga Casa da Quinta das Pocinhas, surgiu a primeira sede oficial da secção local do Partido Socialista.  No pós-25 de Abril, os partidos PS, PPD, o PCP e o CDS eram os que mais esgrimiam argumentos e propagavam os seus ideais e promessas na ânsia de angariar militantes e votantes para as primeiras eleições livres. Foram quentes os verões de 1974 e 1975. Desde essa época e até ao início da década de 1990, houve um baluarte socialista, que se manteve sempre ou quase sempre atrás da linha dos focos da ribalta: Rui Luís Teixeira da Mota.

O histórico socialista lousadense já desaparecido, José Maria Vieira, disse ao jornal de Lousada de 7 de Outubro de 1991: “O Rui Mota foi um dos impulsionadores do partido, juntamente com o Barreira, o Quim da Lixa, e também o António Miguel, da Tipografia do Jornal de Lousada. Eu estive no partido desde os primeiros meses do seu surgimento, acabando, depois, por surgir outros lousadenses como o Rui Feijó, e outros”.

De facto, Rui Luís Teixeira Mota, de 74 anos, nascido no Tojeiro, em Silvares, na casa de seu pai, pertença do seu avô, foi no pós-25 de abril em Lousada um político bastante disputado por várias fações de Esquerda, em Lousada. Era o «menino bonito», o «delfim» de Arnaldo Mesquita, o comunista aparecidense que foi um dos grandes militantes da luta pela liberdade em Portugal e o principal fomentador do PCP em Lousada, que chegou a ter bastante projeção eleitoral e relevo na Assembleia Municipal durante duas décadas.

Em finais de  1974, “fundei o núcleo de Lousada do  Partido Socialista, depois de chegar o  Mário Soares”, disse na primeira edição do jornal O Louzadense, que fez dele figura de destaque na capa desse número inaugural.  Seguiu as pisadas do pai, Manuel Pires Teixeira da Mota, também um lutador contra o antigo regime.

Naquela edição de 25 de Abril de 2019, deste mesmo jornal lê-se: “Em 74, passei a  trabalhar na Câmara com o Rui Feijó,  que era o presidente da comissão administrativa. Ele foi-se embora para  o Porto, ficou o vice-presidente, o Dr.  Guerra, e depois o Amílcar Neto, que  foi o presidente da Câmara eleito. Destas personalidades retém ainda os principais traços, que recorda:  “Rui Feijó era um indivíduo intelectual, com um sentido de política, muito  certinho. O Dr. Guerra, muito esquecido, uma belíssima pessoa, muito inteligente, apesar de ser de outro partido,  do PSD. Redigia muito bem e era muito acessível”. Sem grandes ambições, Rui Mota  assume que foi sempre um “simples”  funcionário porque quis, “apesar do Amílcar Neto e do Jorge Magalhães me terem convidado para ser assessor deles, eu nunca aceitei”.

Da fundação do PS diz que “tudo começou com uma reunião na casa de Manuel Afonso, antigo proprietário do TVS, onde se reuniram vários rostos (…). Fizemos uma ata, fomos ao Porto e foi  assim criado o núcleo do PS”. Orgulhoso, afirmou que “o PS foi o  primeiro partido a ser criado aqui em  Lousada”. Nessa entrevista o destacado socialista confirmou que Arnaldo Mesquita “ficou muito chateado” consigo. “Ele estava convencido que eu iria estar com ele”, justifica. Passada a grande agitação, chegou a altura das primeiras eleições, em 1976. E Rui Mota era presidente da Comissão Política de Lousada do Partido Socialista e Rui Feijó parecia reunir as características para encabeçar a lista do PS: “Era uma pessoa aqui do concelho, proprietário  agrícola, que tinha colocado 50% dos campos para o lavrador. Diziam muito  bem dele, era uma pessoa muito conceituada”. Mas o partido não aceitou, alegando que “ele fazia falta como delegado do Ministério da Educação”. O Partido Socialista do Porto queria Rui Mota, na altura com 26 anos, candidato, mas acabou por ser escolhida uma pessoa que não era da terra, Belarmino Fortuna, que era contabilista e sindicalista na Fabinter/Kispo, onde era conhecida a sua animosidade com o proprietário, o suíço Hans Isler. O resultado do PS nas primeiras Autárquicas foi nefasto: uma derrota por cerca de 300 votos.  “Toda a gente dizia que, se tivesse ido eu, poderíamos ter ganho. Não pela minha influência, mas pela minha  família e pelo meu pai, que era muito  conhecido. Fui muito apertado pelo Porto para ser eu. Foi um erro nosso ter colocado outra pessoa”, lamenta.

Mas Rui Mota continuou a liderar a Comissão Política Socialista e, no percurso, cruzou-se com muitos dos protagonistas da política local e nacional. Conheceu Jorge Magalhães, de quem foi mandatário, no escritório do já referido extinto José Maria Vieira, no qual Jorge Magalhães fizera um estágio, depois de terminar a licenciatura. Dos tempos antigos, recorda ainda o confronto dos irmãos Magalhães, Rui (já falecido) e Jorge, um PSD e outro PS. Não esquece a emoção dos  grandes comícios de outrora. Recorda um, com Ramalho  Eanes: fizemos o maior comício de  sempre com ele, nunca se viu tanta  gente.

Retirado das lides políticas, afirma que se perdeu “um bocado da franqueza, da lisura, da transparência. Antigamente, andávamos com alma, pela terra e pelas convicções  políticas; agora, é pelos interesses. Não é por acaso que eu estou afastado do Partido há já alguns anos. Não só aqui em Lousada e não é pelo Partido Socialista, é por todos os partidos. A política misturou-se muito com certas coisas que não se deviam misturar”,  lamenta. Apesar de tudo, continua a achar que a “política é muito importante, muito agradável, mas quando é tratada de uma forma transparente  e honesta”.

Antigos socialistas lousadenses: Rui Mota, António Emílio, António Esteves e António Massas

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