por | 23 Set, 2024 | Dar voz aos livros, Opinião

Poéticas da luz  

O verão, com o sol dourado e o seu calor esmagador, apela, invariavelmente, a uma fuga para o mar, onde se inventa uma espécie de vida paralela e se constrói muros verosímeis para nos protegerem da vertigem da passagem do tempo. Assim também acontece com uma obra de ficção que ergue,  como refere Jorge de Sena, “a um certo nível, uma concepção de vida” e aponta para lugares outros.

No Verão abrimos um parêntesis à realidade e procuramos preencher o tempo finito de outros tempos que servem de abrigo, ainda que frágil, à ignomínia da guerra, do vazio, das aflições e da complexidade ambígua das relações humanas. Escrevemos a vida e damos às personagens a possibilidade de se desembaraçarem dos desafios grandes e pequenos, aproximando o seu comportamento de uma certa humanidade dickensiana que nos leva ao calor de um grande coração movido pelas grandes lutas ou marginalizado pela traição ancestral que caracteriza o homem. Enquanto enterramos os pés na areia e mergulhamos na frescura salgada do mar do nosso Verão é a vida que queremos de volta – a vida no seu estado mais puro e despojado.

A “luz” que procuramos tem esse fascínio do Verão. Encontrámo-la na poética de Eugénio de Andrade que facilmente amamos, nesse modo cúmplice de ansiar acordar “na manhã de oiro/entre o teu rosto e o mar.”, quando “as mãos afagam a luz,  [e] prolongam o dia breve”. A leveza dos sons dos seus versos apropria-se da suavidade da brisa “na orla do mar,/ no rumor do vento, /onde esteve a linha/ pura do teu rosto”, desata em nós o silêncio e a música anterior ao mundo. O Verão traz às costas as gaivotas, o murmúrio da água, os poentes incendiados e, por isso dói que que ele esteja “por um fio”.

Setembro chega sempre envolto dessa outra luz doirada para entregar o espírito às suas evocações sucessivas, parar com ele na lentidão prometida pela narrativa, retomar as sombras e outras vozes, “as noites/ carregadas de estrelas,/ junto ao balanço do navio – nas palavras de Ana Luísa Amaral. Regressamos ao tremor do mundo para embarcar na torrente da vida, recuperados pelo encontrão na luz estival, certos que a vida tem também aspetos terríveis, dolorosos e chocantes.

E depois da última dança com este sol fundo de agosto, como as personagens inteiras dos grandes romances, emergimos à tona da água para enfrentar essa outra luz, por algum tempo, aturdidos e aflitos, mas fascinados com a luz da noite, tão belamente dita por Nuno Júdice: “E no dia sem sol, andarão atrás de mim/ a pedir-me luz, como se eu pudesse acordar/ o sol, ou não tivessem tido a luz da noite/ para fazer tudo o que não podem no dia sem sol”.

Conceição Brandão

Professora

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