por | 13 Out, 2024 | Sociedade, Uncategorized

Os ensinamentos do Caminho

DIA NACIONAL DO PEREGRINO

Embora tenha sido instituído pela Assembleia da República em 2014 para assinalar o fenómeno da Cova da Iria, em Fátima, este dia passou a ser de todos os peregrinos de qualquer caminho ou peregrinação, seja ela a Lourdes, a Meca, à Terra Santa, a Fátima, a Compostela, etc. O Caminho de Santigo é um dos mais ecléticos, pois além das componentes religiosa e espiritual, tem vertentes culturais e turísticas únicas e que fazem da caminhada a Santiago de Compostela um fenómeno à escala mundial. Aqui ficam alguns testemunhos recentes.

Rute Cunha

“O Caminho faz-se caminhando, e é bem verdade. Até darmos o primeiro passo nada do que digamos corresponde ao que o Caminho é na verdade. Estipulam-se etapas, definem-se quilometragens, procura-se e reserva-se sitio para dormir, escolhe-se muito bem o que levar, o que calçar… mas por melhor que o tenhamos planeado, o Caminho irá sempre surpreender. Quando o Caminho chama, só se tem uma certeza… é para fazer. O Caminho vive-se, frase tantas vezes ouvida e tão verdadeira. Vive-se de forma única, singular, irrepetível. O meu foi compromisso, foi foco, foi superação. Acompanhou-me a fé, a oração a que recorri quando achava já não aguentar. Foi dor, mas sobretudo leveza de espírito, conhecimento, abnegação, confiança, resiliência e aceitação. Misto de sensações, nos trilhos calcorreados, nos olhares e nos passos de quem também caminhava… Foi o tanto que não se consegue expressar, num regresso de alma lavada e imensa gratidão. – RUTE CUNHA

“Após cinco anos de adiamentos, meti-me ao Camiño até Santiago de Compostela. A aventura desafiante revelou-se o que me diziam os meus amigos: vais ficar peregrino para sempre. Eu sabia-me de antemão apaixonado pelo Camiño, desde fiz uma reportagem sobre isso, em 2019. Curiosamente nesse trabalho entrevistei um «catedrático» das caminhadas, o padre André Ferreira, de Vilela (Paredes) e que exerce sacerdócio na Lixa. Chegado eu a Compostela, estava a contemplar a catedral quando de repente me apareceu à frente o mesmíssimo padre André, que terminara uma das suas enésimas caminhadas. Foi uma coincidência espiritualmente revigorante. O que mais destaco da minha caminhada até Compostela? Foi o que adquiri, nem tudo é bom, mas é conquistado e revelado. Não aconselho ninguém a ir sem tempo para desfrutar, pois o Caminho não é só para ser percorrido, é para ser vivido”. – JOSÉ CARLOS CARVALHEIRAS

“Indo por um trilho de montes e campos perto do rio Louro, na zona de Orbelle, creio que pertence a Tui, vi um pouco adiante uma mulher, com dois bastões de caminhar, indo devagar, sem mochila, sem nada. O que mais chamava à atenção era um chapéu com aba enorme, diria até que era gigante, que lhe pendia da cabeça para os ombros e costas… ia sozinha, pelo menos não vislumbrei ninguém à frente nem atrás nuns bons pares de metros… pensei que seria alguém com algum handicap pois levava dois bastões para a ajudar na caminhada e não levava mochila… também me ocorreu que fosse alguém que não está habituada a caminhadas e enviou a bagagem por um Uber ou outro transporte até ao local onde iria ficar… fui tendo estes pensamentos e aproximei-me cada vez mais da senhora… ao chegar perto apanhei uma surpresa daquelas… foi quando vi que levava consigo… um bebé preso num porta-bebés tipo wrap… era gorduchinho e teria não mais de seis meses… ao meu «bon camiño» ela retribuiu a mesma saudação num tom muito baixo e com um sotaque que não decifrei a origem… por debaixo da imensa aba do chapéu (para fazer sombra ao bebé!) mal lhe vislumbrei o rosto pareceu ter traços de origem oriental. Mais à frente, ia um anglosaxónico do tipo atlético, transportando uma mochila grande nas costas e uma mais pequena à frente. Estava parado, como que à espera. Seria o pai do bebé e o companheiro da senhora”. – CARLOS RICHTER

Sofia Ribeiro Marques

“A chegada, o final do Caminho, é qualquer coisa de inexplicável… Chegamos muitos, de todos os cantos do mundo. Juntos festejamos a nossa chegada à Praça do Obradoiro. Partilhamos alimentos, medicamentos, sorrisos, dores, histórias de vida, persistência e muitas gargalhadas. Tive momentos que não era o peso da mochila nem as dores nos pés que me atrasava. Sei também que quem carrega leveza no coração e sorrisos chega mais rápido aos outros e ao destino. E foi tão fácil! O caminho representa a entrega, reciprocidade, energia e empatia. Saber ouvir e saber partilhar. Nunca ninguém se sente só! É uma lição de coragem e de encontro de almas e corações. O encontro e reencontro com alguns peregrinos ao longo das várias etapas era motivo de festejo e alegria. A cerimónia da benção aos peregrinos foi intensa e tocou-me o coração. Relembrarei de todos aqueles que se cruzaram comigo no caminho e dos que mesmo longe me acompanharam. Gratidão para todos vós”. – SOFIA RIBEIRO MARQUES

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