por | 25 Out, 2024 | + Literacia, Educação

O PROJETO MÁRIO FONSECA TV

Por Cidália Neto & Hiolanda Esteves

Tendo em conta a profusão de redes de comunicação e as mudanças nos meios de comunicação social, impulsionadas pelo desenvolvimento tecnológico, a educação para os media nas escolas é cada vez mais premente.

Remonta a 2014 o Referencial de Educação para os Media, publicado no nosso país pelo Ministério da Educação, contudo a sua aplicação tem dependido da atuação individual dos diferentes atores educativos, sendo a avaliação das atividades implementadas inexistente.

O Referencial de Educação para os Media reconhece os desafios impostos pelas mudanças na sociedade da informação e comunicação e, sem negar “os recursos e oportunidades que os meios de comunicação facultam para enriquecer o desenvolvimento pessoal e social”, defende a formação dos cidadãos no sentido de “avaliar e selecionar informação relevante, de a analisar criticamente e de a aplicar de forma significativa às necessidades da vida quotidiana” (Pereira et al, 2014, p. 5). Apesar da relevância da formação dos alunos nesta área, passados dez anos da publicação do referido documento, verificamos que este não é do conhecimento de grande parte dos agentes educativos. Os professores continuam a verificar grandes debilidades na relação dos alunos com os media, apesar do trabalho que tem sido realizado. Por isso, a Mário Fonseca TV (MFTV) assume-se como um projeto de educação para os media, procurando desenvolver a literacia digital nos alunos, a compreensão da linguagem dos media e seu impacto, bem com a análise crítica dos conteúdos veiculados. Os requisitos básicos de leitura e escrita para que qualquer cidadão pudesse exercer a sua cidadania há muito que se alargaram. Hoje, novas linguagens e formas de comunicação exigem literacias múltiplas e capacidades transversais, para que os cidadãos possam desenvolver o sentido crítico de forma esclarecida e reflexiva, mas também para satisfazer exigências da vida quotidiana.

Os professores precisam de procurar novas formas de os alunos desenvolverem competências, de comunicarem e estabelecerem a ligação entre a vida escolar e a realidade para além dos portões da escola, num projeto mais alargado, que envolva a comunidade. O projeto MFTV tenta responder a esses desafios.

Do ponto de vista do consumo, os aspetos em que os alunos mostram mais debilidades são a avaliação das fontes de informação, compreensão da linguagem e géneros mediáticos, perceção da agenda dos media e interesses/poderes associados à informação publicada. Relativamente à produção de conteúdos, verificam-se falhas na comunicação verbal e escrita, na escolha de informação relevante de acordo com o assunto e objetivos, bem como dificuldades em adequar o conteúdo do trabalho ao género jornalístico escolhido. Para conseguir melhorias no desempenho dos alunos nestas áreas, o projeto MFTV, iniciado em 2020, começou por ser o de uma turma do 9.º ano, de acordo com o Projeto Educativo do Agrupamento de Escolas Dr. Mário Fonseca, ao qual os alunos que prosseguiram para o ensino secundário deram continuidade. Os alunos aprimoram os conhecimentos e a compreensão acerca das diferentes tipologias e características dos media, partindo da observação de programas televisivos; avaliam a importância dos novos media e das tecnologias de informação, bem como as suas implicações; compreendem o funcionamento das redes sociais; desenvolvem estratégias de comunicação através dos diversos media e compreendem que os media são agentes de construção social e influência. No papel de jornalistas, estimulam a comunicação entre a escola e a comunidade, produzindo diferentes programas, que fazem eco das atividades realizadas no Agrupamento. Entre os programas realizados, encontram-se muitos de natureza informativa, como entrevistas, reportagens e notícias, mas também culturais, destacando-se as sugestões de leitura, e a publicidade institucional. Em todos os processos, o trabalho colaborativo sai a ganhar, bem como a autoconfiança.

Ao desenvolverem o trabalho jornalístico, os alunos são obrigados a pesquisar, validar e mobilizar informação de forma crítica e autónoma, verificar as fontes e elaborar um novo produto mediático. Muitas vezes as fontes são elementos da comunidade educativa, o que potencia as competências no âmbito da oralidade e o relacionamento interpessoal. A produção de conteúdos mediáticos, a partir do trabalho de recolha de informação, implica conhecimentos relativos às diferentes linguagens dos media, alguns técnicos, na área digital. Assim, o desenvolvimento do projeto MFTV abarca várias áreas de competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, relacionadas com a informação e comunicação, pensamento crítico e criativo, linguagem mediática, relacionamento interpessoal e o saber técnico e tecnológico, fugindo à tradicional fragmentação do conhecimento em disciplinas, na senda da aprendizagem significativa, ancorada em experiências que integram a vida dos alunos. Para além de todas as competências que os alunos têm oportunidade de desenvolver no âmbito do projeto, são também inegáveis os seus efeitos na aproximação da comunidade, mormente pais e encarregados de educação, à escola. Sendo os meios mediáticos agentes de construção social e influência, a representação que a comunidade tem da sociedade e da escola em particular advém do que vê e lê na televisão, jornais e redes sociais, conteúdos esses que obedecem demasiadas vezes a pressões comerciais de captação de audiências. Projetos escolares de relevo são secundarizados pela imprensa, mesmo a local e regional, para dar lugar a outros conteúdos porventura mais mediáticos. Assim, contrariando esta tendência, a MFTV estabelece a ponte entre a escola e a comunidade, dando a conhecer aspetos importantes da vida escolar, valorizando o trabalho dos profissionais e dos alunos, ajudando a construir uma cultura de respeito e apoio à educação. A participação dos pais, encarregados de educação e da comunidade em geral nas atividades escolares é incentivada e valorizada. A relação da escola com o mercado de trabalho também beneficia com o trabalho da MFTV, na medida em que a divulgação do trabalho e projetos dos alunos, especialmente os dos cursos profissionais, abre portas a parcerias e colaborações com organizações locais, empresas e instituições. Assim, para além das notícias, que permitem aos alunos trabalharem a linguagem de cariz informativo, quer seja na realização de uma voz off ou na apresentação de um bloco noticioso, os alunos também produzem vídeos promocionais, de que são exemplo a divulgação do Clube Erasmus, da oferta formativa do Agrupamento e os convites para que a comunidade participe nos eventos, como por exemplo na Feira de S. Martinho. Entrevistas de natureza cultural ou que incidam sobre experiências pessoais permitem aos alunos assumirem uma postura mais expressiva, eventualmente mais emotiva, bem como alguma subjetividade na escolha das palavras. Conversas com ex-alunos e com jovens talentos das nossas escolas são exemplos deste registo. A nossa Terra e as tradições também têm merecido destaque no que ao trabalho interdisciplinar diz respeito.

A divulgação de livros lidos por alunos, corporizada na rubrica “O que andamos a ler”, tem sido feita com regularidade, com o objetivo de incentivar a leitura. Estimula-se a curiosidade do público, levantando o véu da história lida. Pela boca dos alunos, conhecemos o livro, o autor, bem como a sua opinião sincera acerca do que leu e do público suscetível de apreciar o livro em causa. Para além deste trabalho auxiliado ou desenvolvido por alunos associados ao projeto, a Mário Fonseca TV conta também com participações individuais ou em grupo de alunos que gostariam de ver os seus trabalhos publicados na televisão escolar. São, muitas vezes, autodidatas, auxiliados pelos professores das diferentes disciplinas e pretendem divulgar o seu trabalho ou alertar para um problema. Uma experiência laboratorial de Química, um alerta sobre como proceder em caso de sismo ou um conselho para manter a saúde, são alguns dos trabalhos apresentados. Nem todos são publicados, pois têm de obedecer a critérios mínimos de qualidade de imagem e som, bem como de conteúdo.

Relativamente ao trabalho realizado em colaboração com a comunidade fora dos muros da escola, saliente-se a Câmara Municipal de Lousada, cujo programa BioEscola tem permitido trabalhar assuntos relacionados com o ambiente e a biodiversidade, uma vez que os técnicos se deslocam às escolas para formação, mas também para incentivar projetos, como a reflorestação, manutenção dos ambientes naturais e dinamização de campanhas de prevenção. Estas são oportunidades para os alunos associados ao projeto Mário Fonseca tomarem consciência de que a comunicação em ciência para ser eficaz tem de obedecer a alguns princípios. Os canais usados para transmitir os programas produzidos são as redes sociais: Facebook, Instagram, Youtube e, mais recentemente, o Tik Tok, embora este ainda se encontre em fase experimental. O objetivo é chegar a um público cada vez mais vasto, de todas as faixas etárias e deixamos aqui o convite para que sigam a MFTV.

Da MFTV ao Curso Profissional de Comunicação e Serviço digital

Fruto do impacto que este projeto teve na comunidade escolar e do crescente interesse pelas atividades desenvolvidas, nasceu o Curso Profissional de Comunicação Digital no Agrupamento. Este, para além de objetivos académicos, pretende ser o porta estandarte deste projeto, fazendo-o crescer, e mostrando que a educação para a comunicação é essencial, para a criação de cidadãos responsáveis e conscientes.

Hoje, com 16 alunos, este curso decorre nas instalações da EBS Lousada Norte e promete continuar a informar sobre o que de melhor se faz no Agrupamento, e na vila.

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