As Comédias d’Outono já lá vão, mas há memórias que nos transportam para outras dimensões e realidades do dia-a-dia. Inspirados pela peça de teatro Romeu e Julieta, encenada pela Jangada Teatro na abertura da edição deste ano das Comédias d’Outono, há outras tragicomédias que também merecem ser destacadas, como é o caso da estória de amor entre Dominício e Escovã.
Num pacato e distante município, habitado por pessoas que só querem desfrutar da sua reforma em paz, surgem dois protagonistas que, se fossem estrelas, já teriam o seu próprio sistema solar. Dominício e Escovã, dois jovens autarcas que descobriram o amor na conveniência de terem de aparecer em qualquer situação. Ambos, não perdem uma única oportunidade de serem os centros gravitacionais de qualquer evento, seja ele social, religioso, desportivo ou recreativo.
Festas de aniversário, lá estão eles, bem no meio da mesa, com sorrisos dignos de uma capa de revista, ladeados por outros convidados que, coitados, mal podem aproveitar o bolo sem a interrupção constante das selfies políticas. Jantares? Batizados? Procissões? Romarias? Partidas de sueca no clube local? Abertura de espaços comerciais? Não importa! O que quer que esteja a acontecer, Dominício e Escovã estarão presentes, dando uso aos seus telemóveis para mais um clique triunfal ou, na melhor das conveniências, sorrirem para o fotógrafo de serviço que já sabe qual o melhor ângulo para a foto perfeita, dito por outras palavras: captar a “essência” do poder!
O curioso é que não se trata de mera coincidência. Um qualquer evento que não tenha a ilustre presença deste par é como se nunca tivesse acontecido. Um torneio de Cricket sénior? Lá vão eles, como se fossem os presidentes da federação desportiva. A feira da agricultura local? Dominício já estará com um chapéu de palha, posando com um cesto de kiwis, enquanto Escovã segura uma abóbora. Dominício precisa de Escovã e Escovã vê em Dominício um parceiro conveniente – ou seria amor para a vida?
Com um carisma forçado e um apetite insaciável por se fazerem notar, procuram perpetuar a sua presença em cada fotografia tirada e em cada discurso que “gentilmente” fazem questão de proferir. O mais irónico? Os habitantes só queriam passar um bom tempo de convívio, em serenidade e em paz, comendo bolo, fazendo amigos e suspirando em segredo: “Quando é que será a próxima eleição?”
No fundo, a tragicomédia de Dominício e Escovã não é sobre amor ou poder, mas sobre a incansável busca pela relevância num palco onde a única audiência que resta é o silêncio daqueles que, já cansados, aguardam pacientemente o fim do espetáculo.













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